Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O que é o neurinoma vestibular e por que ele não é câncer
O neurinoma vestibular, também conhecido na prática clínica como schwannoma vestibular ou neurinoma do acústico, é um tumor benigno de crescimento lento que se desenvolve no nervo responsável pela audição e pelo equilíbrio. Receber o diagnóstico de um tumor intracraniano costuma gerar grande apreensão imediata, mas é essencial esclarecer logo no início que essa condição não é um câncer: as células tumorais não são malignas, não invadem tecidos vizinhos de forma destrutiva e não produzem metástases para outros órgãos do corpo.
O tumor tem origem na proliferação anormal das células de Schwann, que formam a bainha isolante protetora das fibras neurais. Mais especificamente, ele surge em quase sua totalidade na porção vestibular do oitavo nervo craniano (nervo vestibulococlear), afetando frequentemente o ramo vestibular inferior ou superior. Apesar do caráter benigno, a lesão exige acompanhamento médico rigoroso devido à sua localização anatômica confinada na base do crânio.

Atenção a sintomas unilaterais: Toda perda de audição em apenas um ouvido, zumbido constante de um único lado ou sensação de ouvido tampado persistente deve ser investigada precocemente. Se você percebeu esses sinais, entre em contato com a Clínica OtoCare em Brasília para uma avaliação diagnóstica especializada.
Causas e fatores associados: esporádico vs Neurofibromatose tipo 2
Na grande maioria dos pacientes — em mais de 90% a 95% dos diagnósticos —, o neurinoma vestibular é um tumor esporádico e unilateral. Isso significa que ele surge de forma espontânea em apenas um dos lados da cabeça, sem histórico familiar prévio e sem uma causa ambiental identificável.
Em uma parcela minoritária dos casos, a condição decorre de uma alteração genética hereditária denominada Neurofibromatose tipo 2 (NF2). Trata-se de uma síndrome genética autossômica dominante provocada por mutações no gene da proteína merlina, localizado no cromossomo 22. A característica clínica marcante da Neurofibromatose tipo 2 é o desenvolvimento de schwannomas vestibulares bilaterais (nos dois ouvidos simultaneamente), que costumam se manifestar em faixas etárias mais jovens, como no final da adolescência e no início da vida adulta.
Por que o tumor comprime estruturas vitais no conduto auditivo interno
A gravidade e a repercussão dos sintomas do neurinoma vestibular não estão ligadas à malignidade biológica, mas sim ao espaço anatômico extremamente estreito onde ele se origina: o conduto auditivo interno (CAI).
O conduto auditivo interno é um canal ósseo inextensível no osso temporal da base do crânio. Por dentro desse túnel passam estruturas neurológicas indispensáveis:
- O ramo coclear do oitavo par craniano, que conduz os impulsos elétricos sonoros captados na orelha interna até o cérebro;
- Os ramos vestibulares (superior e inferior), encarregados de transmitir as informações sobre movimento, postura e equilíbrio corporal;
- O nervo facial (sétimo par craniano), responsável pelos movimentos da mímica facial e pelo fechamento dos olhos;
- A artéria labiríntica, que garante o suprimento vascular microscópico de todo o labirinto e da cóclea.
À medida que o tumor cresce dentro do canal ósseo rígido, ele exerce pressão mecânica direta sobre esses nervos vizinhos. Quando a lesão expande-se para fora do conduto auditivo interno e atinge a cisterna do ângulo pontocerebelar (APC), pode comprimir o nervo trigêmeo (quinto par craniano) — causando dormência na face — e, em estágios muito volumosos, empurrar o tronco encefálico e o quarto ventrículo, gerando riscos neurológicos graves.
Sinais de alerta: perda auditiva assimétrica, zumbido e desequilíbrio
A apresentação clínica do neurinoma vestibular costuma ser insidiosa e desenvolve-se lentamente ao longo de meses ou anos. Os três sintomas principais incluem:
- Perda auditiva unilateral assimétrica: presente em mais de 90% dos casos, caracteriza-se pela redução da audição em apenas um dos lados. O paciente nota dificuldade crescente para conversar ao telefone naquele ouvido ou compreender a fala em ambientes ruidosos. Em cerca de 10% a 15% dos casos, a manifestação pode ocorrer de forma súbita, mimetizando uma surdez súbita comum;
- Zumbido unilateral contínuo: um ruído persistente (apito, chiado ou zunido) que acomete exclusivamente o ouvido afetado pelo tumor;
- Desequilíbrio e instabilidade: como o crescimento tumoral é muito lento, o sistema nervoso central realiza uma compensação vestibular contínua. Por isso, em vez de vertigens rotatórias agudas, o paciente costuma relatar flutuação, insegurança ao caminhar no escuro ou leve desvio de marcha, diferente de quadros posicionais como a tontura ao levantar.
Conforme o tumor ganha maiores proporções, surgem sinais de compressão de nervos adjacentes: dormência ou sensação de formigamento na face (compressão do nervo trigêmeo), diminuição do reflexo de piscar e, mais raramente, fraqueza ou paralisia dos músculos da face por compressão do nervo facial.
Diagnóstico: audiometria, BERA e ressonância magnética
A identificação precoce do schwannoma vestibular baseia-se em uma rotina diagnóstica criteriosa conduzida no consultório otorrinolaringológico:
| Exame | Papel na investigação do neurinoma vestibular |
|---|---|
| Audiometria | Avalia os limiares auditivos de cada ouvido. A presença de perda neurossensorial unilateral ou uma queda desproporcional no reconhecimento de palavras (discriminação vocal) em relação aos tons puros é o principal sinal de alarme retrococlear. |
| BERA / PEATE | Mede o tempo que o estímulo sonoro leva para percorrer o nervo auditivo até o tronco cerebral. O prolongamento das latências interaurais e interpicos (I-III e I-V) sugere lentificação da condução elétrica por compressão do nervo. |
| Ressonância magnética (RM) | É o exame padrão-ouro definitivo. O estudo de crânio e conduto auditivo interno com contraste intravenoso (gadolínio) identifica com precisão lesões de poucos milímetros, define suas dimensões exatas e a proximidade com o tronco encefálico. |
A tomografia computadorizada não tem resolução de contraste suficiente para visualizar tumores intracanaliculares pequenos de partes moles, sendo reservada apenas para avaliação da anatomia óssea quando um planejamento cirúrgico é necessário.
As 3 opções de conduta: observação, radiocirurgia e microcirurgia
Não existe uma conduta única aplicável a todos os pacientes com neurinoma vestibular. A escolha terapêutica é estritamente personalizada, levando em conta o tamanho do tumor na ressonância, a taxa de crescimento anual, a idade do paciente, o nível de audição preservada e os sintomas apresentados:
- 1. Conduta expectante ou observação vigilante (Wait and Scan): É a principal escolha médica para a maioria dos tumores pequenos — principalmente aqueles menores que 1 centímetro restritos ao conduto auditivo interno — e para lesões que demonstram estabilidade ou crescimento muito lento (inferior a 1 a 2 milímetros por ano). O paciente realiza acompanhamento periódico com ressonâncias magnéticas sequenciais e avaliações audiológicas. Como muitos neurinomas crescem de forma quase imperceptível ou estabilizam ao longo de décadas, a observação poupa o paciente dos riscos de procedimentos invasivos;
- 2. Radiocirurgia estereotáxica (ex: Gamma Knife, CyberKnife): Aplica feixes altamente convergentes de radiação ionizante precisamente focados na massa tumoral, sem incisão cirúrgica na cabeça. Seu objetivo não é remover o tumor imediatamente, mas sim interromper sua proliferação biológica e promover sua regressão gradual. É indicada principalmente para tumores pequenos a moderados que apresentaram crescimento documentado em exames repetidos, pacientes com contraindicação cirúrgica clínica ou indivíduos idosos;
- 3. Microcirurgia otoneurológica: Procedimento cirúrgico de remoção física da lesão realizado por equipe especializada de otorrinolaringologia e neurocirurgia. É a indicação prioritária quando o tumor já é volumoso (acima de 2,5 a 3 centímetros), quando ultrapassou o conduto auditivo interno e comprime o tronco encefálico ou o nervo trigêmeo, ou quando há sintomas neurológicos severos que ameaçam funções vitais.
Nos casos em que o tumor ou o tratamento cirúrgico resultam em déficit auditivo permanente no ouvido afetado, a medicina otológica oferece modalidades modernas de reabilitação. Conforme demonstrado nos guias sobre as dificuldades da surdez unilateral e as alternativas de tratamento da surdez unilateral, recursos como próteses auditivas osteoancoradas e sistemas CROS garantem que o paciente recupere a segurança na comunicação social.
Vídeo: Dra. Larissa Vilela explica o neurinoma vestibular
No vídeo abaixo, assista às explicações completas sobre o que é o schwannoma vestibular, por que o tumor afeta o nervo da audição e do equilíbrio e como é definida a melhor estratégia de acompanhamento:
Perguntas frequentes sobre neurinoma vestibular
O neurinoma vestibular pode virar câncer maligno?
Não. O neurinoma vestibular é um tumor histologicamente benigno originado das células de Schwann e não se transforma em câncer nem se espalha para outros órgãos por metástase. A atenção médica necessária decorre da sua localização restrita na base do crânio, onde o crescimento progressivo pode exercer compressão mecânica sobre nervos cranianos e o tronco encefálico.
Todo neurinoma precisa ser operado imediatamente após o diagnóstico?
Não. A conduta imediata para tumores pequenos com menos de 1 centímetro no conduto auditivo interno ou que apresentam crescimento lento em exames sequenciais é frequentemente a observação vigilante com ressonâncias magnéticas periódicas. A microcirurgia ou a radiocirurgia são reservadas para casos com crescimento comprovado, lesões volumosas ou risco de compressão neurológica.
O que fazer ao notar zumbido ou perda auditiva em apenas um ouvido?
Qualquer assimetria auditiva persistente, sensação de ouvido tampado que não melhora ou zumbido contínuo em apenas um dos lados deve ser investigada com consulta otorrinolaringológica e exames como audiometria e ressonância magnética com contraste. O diagnóstico precoce de qualquer alteração retrococlear permite traçar a melhor estratégia de acompanhamento e preservar a saúde auditiva.
Referências científicas
- VILELA, L. Neurinoma vestibular (schwannoma): o que é, causas, diagnóstico, tratamento e surdez unilateral. Canal Clínica OtoCare, YouTube, 2025. Disponível em: https://youtu.be/Tdz3iHsMoOM.
- CARLSON, M. L.; LINK, M. J. Vestibular Schwannomas. New England Journal of Medicine, v. 384, n. 14, p. 1335-1348, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33826821/.
- GOLDBRUNNER, R. et al. EANO guideline on the diagnosis and treatment of vestibular schwannoma. Neuro-Oncology, v. 22, n. 1, p. 31-45, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31838515/.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Report on Hearing. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240020481.
Avaliação audiológica e otorrinolaringológica em Brasília
A Clínica OtoCare conta com equipe médica especializada e estrutura audiológica avançada para investigar perdas auditivas assimétricas, zumbido e alterações do equilíbrio, com exames como audiometria e BERA na Asa Norte e Noroeste. Para consultar outros conteúdos sobre saúde auditiva, acesse o portal de orientações aos pacientes.
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