Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Por que a perda auditiva é o principal fator de risco modificável para demência
A perda auditiva costuma ser lembrada pelo que atrapalha no dia a dia, como a conversa difícil e os pedidos para repetir. As consequências vão além do ouvido. Ela pode estar ligada à depressão, ao isolamento e à baixa autoestima e também ao declínio cognitivo e à demência nos idosos.
A relação entre surdez e demência ganhou força em 2020, com o relatório da Comissão Lancet sobre prevenção da demência. Entre as várias causas avaliadas, como pressão alta, diabetes, obesidade e pouca escolaridade, a perda auditiva foi o fator de risco modificável de maior peso. O próprio relatório recomenda tratar a perda auditiva com aparelho e proteger os ouvidos do ruído excessivo.

A perda auditiva não tratada aumenta o risco de demência. Tratar a audição, mesmo quando a perda é leve, é uma forma de proteger o cérebro.
O risco maior aparece, sobretudo, em quem não trata a perda, e esse é o ponto mais importante de toda a relação entre audição e demência. A surdez é um fator de risco, mas um fator que pode ser tratado, e cuidar da audição passa a ser também um cuidado com o cérebro.
No trecho de entrevista abaixo, a resposta vem direta. De tudo o que foi avaliado, como pressão alta, diabetes e exercício físico, o principal fator de risco evitável para a demência no idoso foi a perda auditiva sem tratamento, pela falta de estímulo sonoro que chega ao cérebro.
O que revelam os relatórios da Comissão Lancet sobre demência
A Comissão Lancet reúne especialistas que revisam os estudos sobre demência e calculam quanto cada fator de risco pesa no total de casos. Com o envelhecimento da população, a demência tem aumentado no mundo todo, e cada fator que pode ser mudado ganha importância. No relatório de 2020, 12 fatores que podem ser modificados ao longo da vida responderam por cerca de 40% das demências no mundo. A perda auditiva da meia-idade, dos 45 aos 65 anos, ficou em primeiro lugar, com 8% dos casos.
Nesse relatório, quem tinha perda auditiva teve risco de demência 1,9 vez maior que quem ouvia bem, em estudos que acompanharam as pessoas por 9 a 17 anos. É quase o dobro, um aumento muito significativo.
Em 2024, a comissão refez a conta com 14 fatores, que somaram 45% dos casos. A perda auditiva dividiu o primeiro lugar com o colesterol LDL alto, com 7% cada um. Na nova análise, o aumento de risco ficou em 37%. Os autores chamam esse número de conservador, porque ele inclui também pessoas que já usavam aparelho auditivo.
Como a perda auditiva afeta o cérebro
A surdez afeta o cérebro? Afeta, e a explicação começa no jeito como a audição funciona. O som entra pelo ouvido, mas o entendimento da palavra acontece no cérebro. Quando a audição cai e nada é feito, o cérebro passa a receber menos estímulo sonoro, e essa falta de estímulo é uma das principais hipóteses para a ligação com a demência.
Essa hipótese não é a única. O relatório de 2024 da Comissão Lancet descreve outras explicações, que podem agir juntas. Uma é a reserva cognitiva menor, pela falta de estímulos do ambiente. Outra é o esforço maior para escutar. Há ainda a solidão, a depressão e o isolamento social. Os autores também discutem uma causa comum, como doenças da circulação que atingiriam o ouvido e o cérebro ao mesmo tempo, mas os estudos ainda não mostraram que ela explique a ligação.
A hipótese da privação sensorial e da atrofia no lobo temporal
Quem não escuta bem deixa de estimular as áreas do cérebro ligadas à audição. É a hipótese do déficit sensorial, também chamada de privação sensorial. Com o tempo, essa região sofre uma certa atrofia, com alterações funcionais e estruturais no lobo temporal, e essas mudanças acabam afetando outras funções cognitivas, além da audição.
Os exames de imagem reforçam essa ideia. Num estudo que acompanhou 126 pessoas de 56 a 86 anos com ressonância magnética, por cerca de seis anos, o cérebro de quem tinha perda auditiva perdeu volume mais depressa, no todo e principalmente no lobo temporal direito. Em outro, com 194 adultos, a pior audição na meia-idade se ligou, anos depois, a uma perda maior de volume no lobo temporal e no hipocampo.
O tempo de perda sem tratamento também conta. No relatório de 2024, o risco de demência foi maior em quem convivia com a perda auditiva havia mais de 25 anos, e a mesma comissão lembra que a perda auditiva muitas vezes fica sem tratamento. Nos idosos, a forma mais comum é a surdez com a idade, a presbiacusia.
Sobrecarga cognitiva: o esforço para entender a conversa
Com a audição boa, entender a fala é automático. Com a perda, o som chega incompleto e distorcido, e o cérebro precisa completar as lacunas pelo contexto da frase. Esse trabalho extra de escuta usa recursos de atenção que, numa audição normal, ficariam livres para guardar e organizar o que foi dito.
O esforço cresce no barulho e nas conversas com várias pessoas falando, justamente as situações em que quem tem perda auditiva sente mais dificuldade para entender.
Isolamento social e sintomas depressivos na perda de audição
Quando a conversa fica difícil de entender, a pessoa começa a se afastar, muitas vezes sem perceber. Deixa de participar, evita encontros e fica por fora do assunto. A perda auditiva atrapalha a comunicação e a convivência, e o afastamento que ela provoca, somado à angústia do quadro, abre caminho para a depressão.
O isolamento social e a depressão aparecem, por sua vez, na lista de fatores de risco de demência da Comissão Lancet. Por esse caminho, a perda auditiva também pode pesar no risco de demência de forma indireta.
Quando a perda auditiva vem acompanhada de zumbido, o aparelho também pode ajudar nesse sintoma, como mostra a orientação sobre o aparelho auditivo para zumbido.
Risco não é destino: o que os estudos mostram e o que ainda falta saber
Ter perda auditiva não significa que a demência virá. Os estudos mostram que o risco sobe, e risco é uma probabilidade, não um destino. A demência depende de muitos fatores somados, e a perda auditiva é um deles.
Boa parte das provas sobre perda auditiva e demência vem de estudos observacionais, que acompanham grupos de pessoas por anos e comparam quem ouve bem com quem ouve mal. Esse tipo de estudo mostra associação e, sozinho, não prova que uma coisa causa a outra. A perda auditiva poderia ser só um sinal precoce de uma doença que já começava no cérebro. Um estudo americano de 2011, que acompanhou 639 adultos, termina com essa pergunta em aberto.
Alguns detalhes, porém, dão força à ligação. O risco aparece em acompanhamentos de 9 a 25 anos, longos o bastante para tornar menos provável que a demência já estivesse começando. Ele cresce conforme a perda piora. E diminui em quem usa aparelho. Para a Comissão Lancet, as evidências sobre os fatores de risco cumprem, em geral, os critérios usados para pensar em causa a partir de estudos observacionais.
No Brasil, a ligação também apareceu. No ELSA-Brasil, 805 adultos de São Paulo, com idade média de 51 anos, fizeram audiometria e testes de memória, fluência verbal e função executiva em três etapas, ao longo de oito anos. Quem tinha perda auditiva teve queda mais rápida no desempenho cognitivo global.
Perda auditiva leve já aumenta o risco de demência?
Sim. Nos estudos, o risco maior aparece a partir de 25 dB, a faixa da perda auditiva leve. Mesmo quem tem perda leve e ainda conversa bem num lugar silencioso já tem um risco maior de demência.
O risco também cresce junto com a perda. No mesmo estudo americano, com 639 adultos acompanhados por cerca de 12 anos, cada 10 dB a mais de perda aumentou em 27% o risco de demência. Quem tinha perda leve teve risco 1,89 vez maior que quem ouvia bem, quase o dobro.
A ligação parece começar até antes da perda leve. Num estudo com 6.451 pessoas de 50 anos ou mais, a audição um pouco pior se ligou a um resultado pior num teste de cognição mesmo entre quem tinha audiometria dentro do normal. Os autores sugerem que os estudos sobre tratamento usem um ponto de corte mais baixo que os 25 dB.
Quem ouve bem num lugar calmo costuma achar que a audição está boa. A dificuldade aparece primeiro no barulho, num restaurante ou numa reunião de família. Como cada grau é medido na audiometria está na orientação sobre graus de surdez.
Quais tipos de demência estão associados à diminuição da audição?
Demência é o nome geral para a piora da memória, do raciocínio, da comunicação e do comportamento além do que se espera com a idade. Ela tem várias causas. A doença de Alzheimer é a forma mais comum. Entre as outras estão a demência vascular, a demência com corpos de Lewy, a demência frontotemporal e a demência que pode surgir na doença de Parkinson ou na doença de Huntington.
A perda auditiva entra como fator de risco para as várias formas de demência, e não só para uma delas. A maior parte dos estudos mede a demência em geral, sem separar os tipos, e o risco ligado à perda auditiva aparece nesse conjunto.
O papel protetor do aparelho auditivo e as evidências do estudo ACHIEVE
Se a perda auditiva sem tratamento aumenta o risco, a pergunta seguinte é se tratar faz diferença. Os estudos de longo prazo indicam que sim. Quem trata a perda auditiva, com aparelho, implante coclear ou outra abordagem indicada, sai da faixa de risco maior e passa a ter um risco parecido com o de quem ouve bem.
Num estudo francês que acompanhou 3.777 idosos por 25 anos, quem relatava problemas de audição teve mais demência, e esse aumento não apareceu entre os que usavam aparelho auditivo. Uma revisão de 2023, com 8 estudos e 126.903 pessoas acompanhadas de 2 a 25 anos, encontrou risco 19% menor de declínio cognitivo em quem usava aparelho, em comparação com quem deixava a perda sem correção. Com base em 4 desses estudos, o relatório de 2024 da Comissão Lancet cita também risco 17% menor de demência.
O estudo ACHIEVE, publicado na revista The Lancet em 2023, foi o primeiro ensaio clínico randomizado sobre o tema, em que o tratamento é sorteado. Participaram 977 pessoas de 70 a 84 anos, com perda auditiva sem tratamento e sem problema importante de memória. Metade recebeu aparelho auditivo e orientação audiológica, e a outra metade, sessões de educação em saúde. Depois de três anos, no grupo inteiro, a queda da cognição foi igual nos dois lados.
A diferença apareceu numa análise planejada antes do início do estudo. Os 238 participantes que vieram de um estudo antigo sobre saúde do coração, o ARIC, eram mais velhos, tinham mais fatores de risco e começaram com cognição mais baixa. Neles, o tratamento auditivo reduziu em 48% a queda da cognição em três anos. Entre os voluntários saudáveis, não houve diferença.
Esses resultados não permitem prometer que o aparelho evita a demência. Eles indicam que o benefício parece maior em quem tem mais risco, e o relatório de 2024 da Comissão Lancet manteve a recomendação de tornar o aparelho auditivo acessível a quem tem perda auditiva.
Para fazer esse papel, o aparelho precisa estar no ouvido ao longo do dia, e não só nas conversas importantes, como explica a orientação sobre usar o aparelho auditivo o dia todo. Os tipos de aparelho, o custo e o caminho pelo SUS estão na orientação sobre aparelho auditivo.
Na OtoCare, a consulta com otorrino e a audiometria mostram qual é a perda, quanto ela atrapalha e se o caso pede aparelho auditivo, cirurgia ou avaliação da indicação de implante coclear.
Quem já tem demência também se beneficia de tratar a audição?
Sim. O cuidado com a audição não serve só para prevenir. Na pessoa que já tem demência ou algum declínio cognitivo, olhar para a audição é muito importante. Se existe perda auditiva e ela é reabilitada com aparelho, a qualidade de vida pode melhorar muito.
A comunicação fica mais fácil, a convivência com a família e os amigos melhora e o isolamento diminui. Quadros como a depressão e a ansiedade também podem ficar mais leves. Hoje se percebe, com muita evidência, que a perda auditiva sem tratamento está muito ligada a questões emocionais e até psiquiátricas.
Sinais de que a audição está atrapalhando a memória e a conversa
A perda auditiva costuma começar de forma discreta, e os primeiros sinais aparecem na conversa.
- Pede com frequência que as pessoas repitam o que disseram.
- Entende bem uma pessoa só, mas se perde nas conversas em grupo.
- Tem mais dificuldade em lugares barulhentos, como restaurantes e festas.
- Foge das conversas e dos encontros da família.
O afastamento do idoso merece atenção especial. Muitas vezes, ele deixa de participar para não ficar pedindo que repitam, ou porque já não consegue acompanhar a conversa. Quando um idoso começa a se isolar, a audição deve estar entre as primeiras suspeitas.
A dificuldade de acompanhar conversas aparece também entre os primeiros sinais de demência descritos pela Organização Mundial da Saúde, ao lado de esquecer fatos recentes, perder objetos e perder a noção do tempo. O Ministério da Saúde lista o mesmo sinal na doença de Alzheimer. Por isso, quem não ouviu direito pode parecer esquecido, e a audiometria ajuda a separar uma coisa da outra. Se a memória continua falhando com a audição avaliada e tratada, a queixa precisa de avaliação médica.
A família tem um papel importante. Quem convive nota o afastamento e os pedidos para repetir e pode incentivar a avaliação. As formas de facilitar a conversa em casa estão na orientação sobre como se comunicar com pessoas com perda auditiva.
Prevenção auditiva ao longo da vida: da infância à terceira idade
Embora o assunto seja a demência no idoso, a prevenção da perda auditiva começa na infância. A exposição a ruído excessivo é hoje uma das grandes causas de perda auditiva no mundo. Cuidar da audição das crianças e dos adultos jovens, mesmo dos que não têm nenhuma queixa, pode adiar, amenizar ou até reduzir a chance de perda auditiva com o passar dos anos.
Na prática, isso significa evitar o ruído excessivo sempre que possível, no trabalho, em casa e no lazer, e criar o hábito de ouvir música e vídeos no volume mais baixo possível. Outras formas de proteger os ouvidos na rotina estão na orientação sobre como cuidar da audição.
Para o idoso e para o adulto, o passo seguinte é o diagnóstico cedo. Ao primeiro sinal de dificuldade para ouvir, o caminho é fazer a audiometria, sem esperar a perda piorar, e com o resultado em mãos se escolhe o tratamento adequado, seja aparelho auditivo, cirurgia ou implante coclear. Com que frequência repetir o exame está na orientação sobre quando fazer audiometria.
A perda que surge de repente, como na surdez súbita, ou que atinge um ouvido só, como na surdez unilateral, tem causas próprias e também precisa ser investigada.
Vídeo: a perda auditiva pode causar demência?
No vídeo, a explicação passa pelo relatório da Comissão Lancet, pela hipótese da privação sensorial, pelo risco já na perda leve, pela prevenção desde a infância e pelo cuidado com a audição de quem já tem demência.
Perguntas frequentes
Perda auditiva pode causar Alzheimer?
A perda auditiva é um fator de risco para todas as formas de demência, e o Alzheimer é a mais comum delas, com 60% a 70% dos casos, segundo a Organização Mundial da Saúde. Quando os estudos olham só para o Alzheimer, os resultados vão na mesma direção, mas são menos firmes. No estudo americano com 639 adultos, o risco de Alzheimer subiu 20% a cada 10 dB de perda, mas a margem de erro foi larga demais para confirmar o achado. Uma revisão de 2018, com 36 estudos, também não confirmou a ligação com o Alzheimer separadamente nos estudos que acompanharam as pessoas ao longo do tempo.
Presbiacusia aumenta o risco de demência?
Sim. A presbiacusia, a perda de audição ligada ao envelhecimento, é o tipo estudado na maior parte das pesquisas sobre demência. A mesma revisão de 2018, que somou mais de 20 mil participantes, concluiu que ela é um possível marcador e um fator de risco modificável para declínio cognitivo e demência.
Perda de audição pode causar depressão?
Pode contribuir. No estudo francês que acompanhou idosos por 25 anos, os homens que relatavam problemas de audição tiveram mais depressão, e essa ligação não apareceu nos que usavam aparelho auditivo. Por isso, quando a tristeza vem junto com a dificuldade para ouvir, a audição também merece ser avaliada.
O aparelho auditivo reverte a demência?
Não se espera isso. O ACHIEVE e os estudos de longo prazo avaliaram pessoas sem demência e mediram a velocidade com que a cognição cai ao longo dos anos. Na pessoa que já tem o diagnóstico, o ganho esperado com o aparelho está na comunicação, no convívio e na qualidade de vida.
Referências
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Se a audição já não é a mesma, ou se a família tem notado que a conversa ficou difícil, agende uma consulta com otorrino em Brasília na OtoCare. A audiometria e os outros exames auditivos na OtoCare são feitos em cabina acústica, no Setor Noroeste, e mostram se existe perda auditiva, de que tipo e qual tratamento ela pede.
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