Graus de surdez: como é classificada a perda auditiva

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Como a fonoaudiologia e a medicina classificam os graus de perda auditiva

A perda auditiva é classificada em graus de acordo com a intensidade sonora mínima em decibéis (dB) que o ouvido consegue perceber. Ao receber o laudo de um exame audiológico, muitos pacientes deparam-se com termos como audição normal, perda auditiva de grau leve, moderado, moderadamente severo, severo ou profundo, sem compreender exatamente o que cada uma dessas faixas representa para a sua comunicação cotidiana.

Para determinar o grau da surdez, o fonoaudiólogo realiza a medição dos limiares de audição por via aérea e via óssea em diferentes frequências e calcula a média dessas respostas. No Brasil, existem duas tabelas principais consagradas na prática médica e audiológica: a classificação clássica de Lloyd e Kaplan (1978) e a classificação revisada da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021). Conhecer as diferenças entre essas escalas é fundamental para entender o resultado do seu audiograma.

Médica otorrinolaringologista apresentando a tabela de graus de surdez e perda auditiva em decibéis

A identificação precoce do grau de perda auditiva evita o isolamento social e preserva a cognição. Se você ou alguém da sua família apresenta dificuldade para entender conversas, entre em contato com a Clínica OtoCare para realizar a audiometria completa em cabina acústica no Setor Noroeste em Brasília.

A classificação clássica de Lloyd e Kaplan (1978)

A classificação proposta por Lloyd e Kaplan em 1978 é historicamente a mais utilizada no Brasil e continua presente na rotina da maioria dos consultórios de otorrinolaringologia e clínicas de fonoaudiologia. Ela adota a média tritonal, calculando a média aritmética dos limiares auditivos nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz e 2.000 Hz.

De acordo com essa escala, os intervalos em decibéis (dB NA) dividem-se em seis faixas:

  • audição normal (até 25 dB): o indivíduo ouve todos os sons da fala e sons ambientais sutis sem qualquer esforço de atenção;
  • perda auditiva de grau leve (26 a 40 dB): há dificuldade para ouvir sussurros, vozes baixas ou conversas à distância, embora a comunicação em ambientes silenciosos seja preservada;
  • perda auditiva de grau moderado (41 a 55 dB): surge dificuldade nítida para acompanhar conversas em intensidade normal, exigindo repetição de palavras e aumento no volume da televisão;
  • perda auditiva de grau moderadamente severo (56 a 70 dB): a fala só é percebida se for emitida em intensidade forte, havendo grande dificuldade de participação em conversas em grupo ou reuniões de trabalho;
  • perda auditiva de grau severo (71 a 90 dB): o indivíduo não ouve conversas normais, conseguindo escutar apenas fala gritada bem próxima ao ouvido ou ruídos intensos como aspiradores de pó e trânsito pesado;
  • perda auditiva de grau profundo (a partir de 91 dB): o paciente percebe apenas sons de intensidade extrema, como turbinas de avião ou buzinas, dependendo fortemente de leitura labial ou língua de sinais na ausência de amplificação sonora.

Essa classificação é amplamente reconhecida pela comunidade científica pela sua praticidade clínica e facilidade de correlação com a queixa diária trazida pelo paciente.

A classificação revisada da OMS (2021)

No Relatório Mundial sobre a Audição publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a entidade atualizou os parâmetros internacionais com o objetivo de tornar a detecção das perdas auditivas mais sensível e precoce. A classificação moderna da OMS traz duas inovações cruciais em relação ao modelo clássico.

A primeira inovação é a utilização da média quadritonal, que inclui a frequência aguda de 4.000 Hz ao cálculo (500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 4.000 Hz). Como muitas perdas auditivas — como o envelhecimento natural do ouvido tratado no guia sobre surdez com a idade e a exposição ao ruído ocupacional — começam justamente pelas frequências mais agudas, essa média detecta o rebaixamento antes que ele atinja as frequências graves.

A segunda inovação é a elevação do padrão de normalidade: para a OMS, a audição normal corresponde a limiares estritamente menores que 20 dB. Pacientes com limiar entre 20 e 25 dB, antes considerados normais pela tabela antiga, já são classificados pela OMS como portadores de perda auditiva leve, permitindo intervenções e orientações preventivas mais ágeis.

Confira a tabela revisada da OMS:

  • normal: média menor que 20 dB;
  • leve: 20 a 34 dB (dificuldade em ambientes ruidosos);
  • moderada: 35 a 49 dB (dificuldade para acompanhar conversas normais);
  • moderadamente severa: 50 a 64 dB (dificuldade evidente em conversação diária);
  • severa: 65 a 79 dB (não ouve a maior parte das conversas);
  • profunda: 80 a 94 dB (dificuldade extrema para escutar voz, mesmo gritada);
  • perda completa ou surdo: igual ou superior a 95 dB (incapacidade de ouvir sons ambientais e fala).

A faixa de perda completa (a partir de 95 dB) estabelecida pela OMS dialoga diretamente com o conceito de surdez total, situação em que as vias cocleares e neurais apresentam rebaixamento absoluto.

Existe classificação certa ou errada nos laudos de audiometria?

Não existe classificação certa ou errada. Tanto a escala de Lloyd & Kaplan (1978) quanto a tabela da OMS (2021), além de referências complementares como Davis e Silverman (1970) e BIAP (1996), são válidas, respaldadas pela literatura e amplamente utilizadas.

O que a prática médica e o Conselho Federal de Fonoaudiologia exigem é que o laudo audiológico indique com precisão qual foi a referência bibliográfica adotada para embasar a conclusão. Dessa forma, qualquer médico otorrinolaringologista, perito do INSS ou banca examinadora consegue compreender a metodologia aplicada e verificar os decibéis correspondentes.

Na audiometria tonal limiar, o exame mede a sensibilidade auditiva em decibéis, e não em porcentagem. Não existe um “percentual de audição perdida” em um audiograma padrão; a medida científica é sempre expressa em decibéis de nível de audição (dB NA).

Como os graus de surdez se relacionam com a Lei 14.768

Para fins de caracterização jurídica como Pessoa com Deficiência (PcD), a legislação brasileira estabelece parâmetros próprios que não se confundem com as tabelas de Lloyd-Kaplan ou da OMS. A Lei nº 14.768/2023 define como valor referencial:

  • média aritmética de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 3.000 Hz igual ou superior a 41 dB no melhor ouvido (perda bilateral);
  • ou perda total em um dos ouvidos, conforme abordado no guia sobre surdez unilateral.

Para entender a regra temporal de durabilidade e o porquê de não ser preciso esperar dois anos pregressos, consulte o guia sobre deficiência auditiva de longo prazo. Você também pode conferir o cálculo de PCD auditivo e utilizar a calculadora de PCD auditivo da clínica para simular os valores do seu audiograma.

Para avaliar a repercussão da perda no ambiente de trabalho e o cálculo de pontuação do IFBr-A, leia as diretrizes sobre o grau de surdez na aposentadoria especial.

Quais são as principais causas de cada grau de perda auditiva?

O grau de perda auditiva depende diretamente da estrutura do ouvido afetada e da agressividade da causa subjacente:

  • perdas leves a moderadas: frequentemente causadas por rolhas de cerume, otites médias secretoras, disfunções da tuba auditiva ou fases iniciais de presbiacusia;
  • perdas moderadamente severas a severas: associadas a traumas acústicos crônicos por ruído ocupacional, otosclerose avançada, perfurações timpânicas crônicas e lesões cocleares progressivas;
  • perdas profundas a completas: decorrentes de eventos agudos como a surdez súbita não recuperada, sequelas de meningite, uso de medicações ototóxicas severas, fraturas do osso temporal ou surdez congênita genética.

Independentemente do grau diagnosticado, o acompanhamento otorrinolaringológico precoce permite indicar o melhor tratamento, que pode variar desde medicamentos e cirurgias até a adaptação de aparelhos de amplificação sonora individual (AASI) ou implante coclear; para compreender os avanços científicos na pesquisa biológica de causas genéticas específicas, conheça o panorama sobre a cura da surdez pela terapia gênica.

Vídeo explicativo: graus de surdez e classificação

No vídeo a seguir, a Dra. Larissa Vilela apresenta cada grau de perda auditiva, compara a escala clássica de Lloyd-Kaplan com a nova classificação da OMS e explica como os laudos são emitidos:

Perguntas frequentes

A perda auditiva é medida em porcentagem no exame de audiometria?

Não. Os exames de audiometria tonal medem os limiares auditivos em decibéis de nível de audição (dB NA) para cada frequência sonora testada. As classificações médicas dividem os resultados em graus (leve, moderado, severo e profundo), e não em porcentagens diretas. Fórmulas de cálculo de porcentagem existem apenas em contextos periciais trabalhistas e previdenciários muito específicos, mas o laudo clínico audiológico expressa o grau em decibéis.

Qual é a diferença prática entre ter uma perda leve e uma perda moderada?

Na perda auditiva leve (26 a 40 dB em Lloyd-Kaplan ou 20 a 34 dB na OMS), a pessoa ouve a fala em volume normal em ambientes tranquilos, tendo dificuldade apenas com sussurros, vozes à distância ou ruído de fundo. Já na perda moderada (a partir de 41 dB), a comunicação cotidiana já fica nitidamente prejudicada mesmo em conversas a dois, gerando a necessidade frequente de pedir para repetir palavras e aumentando significativamente o esforço auditivo.

A partir de qual grau de perda auditiva é indicado o uso de aparelho auditivo?

A indicação do aparelho de amplificação sonora individual (AASI) não depende exclusivamente do número em decibéis, mas do impacto funcional e da queixa do paciente. Perdas a partir do grau moderado costumam ter indicação formal de reabilitação com prótese auditiva. No entanto, mesmo pacientes com perda de grau leve que trabalham em ambientes ruidosos, estudantes ou profissionais com alta demanda de escuta podem se beneficiar enormemente do uso do aparelho auditivo.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Quais são os graus de surdez? Como é classificada a perda auditiva?. YouTube, 18 jan. 2024. 1 vídeo (8 min 59 s). Disponível em: https://youtu.be/bMfpaVTGHoY. Acesso em: 20 set. 2026.
  2. WORLD HEALTH ORGANIZATION. World report on hearing. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240020481. Acesso em: 20 set. 2026.
  3. CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA. Guia de orientações na avaliação audiológica básica. Brasília: CFFa, 2021. Disponível em: https://www.fonoaudiologia.org.br/. Acesso em: 20 set. 2026.
  4. BRASIL. Presidência da República. Lei nº 14.768, de 22 de dezembro de 2023. Define a deficiência auditiva e estabelece valor referencial da limitação auditiva. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14768.htm. Acesso em: 20 set. 2026.

Avaliação auditiva completa na Clínica OtoCare em Brasília

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