Surdez súbita: o que é, causas e como tratar

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é a surdez súbita e por que o tempo de início do tratamento é decisivo

A surdez súbita é uma perda rápida e inesperada da audição, que atinge predominantemente um dos ouvidos e se instala em questão de minutos, logo ao acordar ou no decorrer de até 72 horas. Do ponto de vista médico e audiológico formal, o quadro é definido como uma perda auditiva neurossensorial superior a 30 decibéis em pelo menos três frequências auditivas contíguas documentadas no exame de audiometria.

Trata-se de uma condição clínica séria que demanda investigação especializada sem postergação. Quanto mais cedo o tratamento for instituído, idealmente nas primeiras 72 horas e até duas semanas do início dos sintomas, significativamente maiores são as taxas de recuperação parcial ou completa da capacidade auditiva. Deixar o tempo passar na expectativa de melhora espontânea pode consolidar lesões irreversíveis nas células ciliadas do ouvido interno.

A incidência estimada varia de 5 a 27 casos por 100 mil habitantes ao ano. O quadro é mais frequente entre 50 e 60 anos, mas pode ocorrer em qualquer faixa etária, inclusive em crianças.

Médica otorrino examinando paciente com queixa de surdez súbita e zumbido no ouvido

A perda de audição repentina em um único ouvido não deve ser subestimada. Ao notar redução abrupta da audição, sensação de ouvido tampado ou zumbido inesperado, entre em contato com a Clínica OtoCare para avaliação especializada com otorrino e realização de audiometria em Brasília.

Quais sintomas acompanham a perda auditiva repentina?

Cerca de 90% dos casos de surdez súbita ocorrem de forma unilateral, afetando apenas um ouvido. Essa característica frequentemente induz o paciente ao erro de adiar a consulta, pois ele continua ouvindo razoavelmente pelo outro ouvido e presume que o problema seja apenas cera acumulada ou catarro temporário. O ouvido que restou não compensa tudo: as dificuldades de ouvir só de um lado aparecem na localização do som e na compreensão da fala em ambientes com ruído.

Além da diminuição perceptível do volume dos sons, o quadro costuma ser precedido ou acompanhado por manifestações características:

  • sensação de ouvido tampado: uma plenitude auricular súbita e incômoda que não alivia ao bocejar, engolir ou massagear a orelha;
  • zumbido de início abrupto: presente em mais de 90% dos casos, pode surgir como apito, chiado ou ruído de tonalidade média ou aguda que não existia anteriormente naquele ouvido;
  • tontura e desequilíbrio: podem acompanhar o quadro em até 60% dos pacientes e indicam envolvimento também do sistema vestibular.

A presença de tontura concomitante costuma apontar um acometimento inflamatório mais amplo da orelha interna, reforçando a importância de um diagnóstico detalhado. Para orientações específicas sobre o ruído no ouvido, veja o guia com dicas sobre zumbido no ouvido.

Quais são as principais causas da surdez súbita?

Na grande maioria dos pacientes atendidos em consultório, a surdez súbita tem etiologia viral. Ocorre uma reativação ou invasão viral que alcança a cóclea e provoca inflamação aguda nas células ciliadas externas, nas células ciliadas internas ou nas fibras do nervo auditivo. Essa inflamação rompe a transmissão adequada dos impulsos elétricos que deveriam conduzir o som até o cérebro.

A orientação sobre se a gripe pode causar surdez súbita detalha como vírus respiratórios e sistêmicos participam desse processo inflamatório coclear.

Embora a causa viral seja a mais prevalente, o protocolo médico exige descartar outras condições que podem simular o quadro:

  • alterações microvasculares: espasmos ou oclusões de pequenos vasos que irrigam a cóclea, reduzindo a oxigenação dos tecidos sensoriais;
  • doenças autoimunes: agressão inflamatória do próprio sistema imune contra as estruturas do labirinto;
  • doenças neurológicas e do ouvido interno: condições como esclerose múltipla e doença de Ménière podem se manifestar com perda auditiva rápida;
  • infecções e medicamentos ototóxicos: algumas infecções bacterianas, como a doença de Lyme, e medicamentos que podem lesar o ouvido interno entram na investigação conforme o histórico;
  • traumatismo craniano: uma lesão na cabeça também pode comprometer as estruturas auditivas internas;
  • schwannoma vestibular (neurinoma do acústico): tumor benigno do nervo auditivo que comprime a passagem dos estímulos e exige ressonância magnética para confirmação ou exclusão;
  • fístula perilinfática: ruptura de pequenas membranas do ouvido interno decorrente de barotrauma, esforço físico excessivo ou traumatismo craniano.

Quando as demais causas são excluídas pela avaliação médica e pelos exames de imagem, o diagnóstico é classificado como perda auditiva neurossensorial súbita idiopática, direcionando o tratamento imediatamente para o controle da inflamação coclear.

Como o diagnóstico é confirmado pelo médico otorrino?

A consulta com o especialista começa com a otoscopia para examinar detalhadamente o canal auditivo externo e a membrana timpânica. Esse primeiro passo afasta causas condutivas mecânicas frequentes, como cerume obstrutivo, corpos estranhos, perfuração timpânica ou otite média com líquido atrás do tímpano.

Descartada a obstrução física, o exame confirmatório decisivo é a audiometria tonal e vocal em cabina acústica, associada à imitanciometria. A audiometria comprova se a perda é neurossensorial e quantifica o rebaixamento em cada frequência testada, estabelecendo a linha de base para acompanhar a recuperação.

Conforme os sintomas e as hipóteses levantadas na consulta, a investigação pode incluir ressonância magnética dos condutos auditivos internos, exames laboratoriais, BERA e emissões otoacústicas. Quando há tontura associada, uma avaliação do labirinto também pode ser necessária. A combinação é definida individualmente para pesquisar causas retrococleares, neurológicas, infecciosas, autoimunes ou vasculares.

Tratamento inicial: o papel do corticoide oral

O pilar fundamental e consagrado no tratamento da surdez súbita é a corticoterapia oral em doses imunossupressoras e anti-inflamatórias. O corticoide atua reduzindo o edema e o estresse oxidativo dentro da cóclea, criando condições biológicas favoráveis para que as células ciliadas se recuperem da agressão inflamatória.

O medicamento é prescrito em doses ajustadas pelo peso corporal do paciente, mantido por tempo determinado e retirado de forma gradual por meio de desmame orientado pelo médico. O objetivo é interromper a cascata inflamatória nos primeiros dias de evolução. Ao longo do tratamento, audiometrias seriadas são realizadas para mensurar objetivamente o ganho auditivo.

Quando a investigação não encontra uma causa específica que exija outro tratamento, antivirais e vasodilatadores não são recomendados de rotina para recuperar a audição. A conduta deve ser individualizada após a confirmação do tipo de perda auditiva e não deve ser iniciada por conta própria.

Injeção intratimpânica de corticoide: como funciona e quando é indicada?

Quando o corticoide oral não proporciona melhora auditiva satisfatória nas primeiras semanas, ou quando o paciente possui contraindicação clínica ao uso de corticoide por via oral, a injeção intratimpânica de corticoide atua como uma estratégia terapêutica direcionada e altamente eficaz.

O procedimento é realizado em ambiente de consultório sob visão microscópica ou endoscópica:

  1. anestesia tópica local: aplica-se uma substância anestésica na superfície do tímpano para garantir conforto durante o procedimento;
  2. injeção direta: através de uma agulha extremamente fina, o médico atravessa a membrana timpânica e deposita o corticoide diretamente na orelha média;
  3. difusão pela janela redonda: o medicamento banha a janela redonda, membrana permeável da cóclea, permitindo que concentrações elevadas do corticoide penetrem nos fluidos do ouvido interno com mínima absorção sistêmica no sangue.

A injeção intratimpânica possui duas grandes indicações clínicas:

  • terapia de resgate: indicada para pacientes que completaram o curso oral sem recuperação suficiente da audição, oferecendo nova oportunidade de ganho funcional;
  • terapia primária em pacientes de risco: essencial para indivíduos com diabetes mellitus descompensado, hipertensão arterial de difícil controle, glaucoma avançado ou histórico de transtornos psiquiátricos induzidos por corticoides, situações em que o corticoide oral sistêmico deve ser evitado.

O que influencia a chance de recuperação da audição?

A evolução varia de pessoa para pessoa. O atraso para iniciar o tratamento e uma perda auditiva mais intensa costumam estar associados a menor chance de recuperação. A configuração das frequências afetadas na audiometria, a idade e a presença de condições como diabetes ou hipertensão também participam da avaliação do prognóstico.

A resposta é acompanhada com audiometrias seriadas. Esse controle permite comparar os limiares ao longo das semanas e decidir, de acordo com a evolução, se é necessário acrescentar uma terapia de resgate.

Câmara hiperbárica e outras terapias complementares

A oxigenoterapia hiperbárica consiste na respiração de oxigênio a 100% dentro de uma câmara pressurizada acima da pressão atmosférica normal. Esse tratamento eleva a concentração de oxigênio dissolvido nos tecidos e fluidos da orelha interna, auxiliando a oxigenação das células ciliadas que sofreram agressão metabólica ou vascular.

A câmara hiperbárica pode ser indicada como terapia combinada adjuvante, em especial nos casos de perda auditiva severa a profunda e quando iniciada precocemente, sempre em consonância com a avaliação do médico otorrinolaringologista.

Nos casos em que a audição não se recupera integralmente após todas as etapas terapêuticas, recursos de reabilitação como aparelhos de amplificação sonora individual e tecnologias auditivas modernas asseguram a reintegração comunicativa do paciente: conheça em detalhes o guia sobre tratamento da surdez unilateral. Para compreender as diferenças em relação ao envelhecimento auditivo gradual, veja também o artigo sobre surdez com a idade.

Vídeos sobre surdez súbita: panorama atualizado e demonstração do tratamento

O primeiro vídeo apresenta uma visão mais recente e abrangente: definição, frequência, faixas etárias, causas secundárias, exames complementares, tratamento e fatores que influenciam a recuperação auditiva.

Como é feita a injeção intratimpânica de corticoide?

O segundo vídeo complementa o panorama clínico com uma demonstração em modelo anatômico. Ele mostra a passagem da agulha pela membrana timpânica, a aplicação do corticoide na orelha média e a difusão do medicamento pela janela redonda até a cóclea.

Perguntas frequentes

A surdez súbita pode ser apenas cera de ouvido ou ouvido entupido?

O acúmulo de cerume é uma causa comum de perda auditiva condutiva mecânica. No entanto, a sensação inicial de plenitude auricular na surdez súbita pode se assemelhar muito à de um tampão de cera. Somente o exame médico com otoscopia e a audiometria conseguem diferenciar as duas situações. Por isso, nunca se deve esperar semanas presumindo que o problema seja apenas cera.

A injeção intratimpânica de corticoide dói para ser realizada?

O procedimento é realizado com anestesia tópica aplicada sobre a membrana timpânica e costuma ser muito bem tolerado pelos pacientes. Sente-se apenas uma sensação de pressão momentânea no ouvido médio durante a infusão do líquido, sem dor intensa.

Quem tem diabetes ou pressão alta pode tratar a surdez súbita?

Sim. Pacientes com diabetes ou hipertensão arterial descompensada possuem restrições ao uso de corticoides orais em doses altas devido ao risco de hiperglicemia e picos de pressão. Nesses pacientes, a injeção intratimpânica é o tratamento de escolha, pois entrega a medicação direto no ouvido médio sem alterar significativamente a glicemia ou a pressão arterial.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Surdez súbita: o que é, causas e por que é uma emergência!. YouTube, 3 maio 2025. 1 vídeo (13 min 42 s). Disponível em: https://youtu.be/WyFeMDwRAQM. Acesso em: 20 set. 2026.
  2. VILELA, Larissa. Surdez súbita: o que é, causas e como tratar. YouTube, 6 set. 2023. 1 vídeo (7 min 10 s). Disponível em: https://youtu.be/x8YaCixe9m4. Acesso em: 20 set. 2026.
  3. CHANDRASEKHAR, Sujana S. et al. Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 161, n. 1_suppl, p. S1-S45, 2019. DOI: 10.1177/0194599819859885. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31369359/. Acesso em: 20 set. 2026.
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