Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O que o THI mede no zumbido
Duas pessoas podem ouvir um chiado parecido e viver o zumbido de jeitos muito diferentes. Para uma, o som some quando a televisão está ligada. Para a outra, ele tira o sono, a concentração e a vontade de sair de casa. O THI transforma essa diferença em número.
A sigla vem do inglês Tinnitus Handicap Inventory. Tinnitus significa zumbido, e handicap é o quanto um problema limita a vida, então o nome quer dizer algo como inventário do prejuízo causado pelo zumbido. São 25 perguntas, e cada uma aceita três respostas, sim, às vezes ou não.

O THI mede o quanto o zumbido atrapalha a vida, e não o volume do som. A pontuação vai de 0 a 100, e quanto maior o número, maior o peso do zumbido no dia a dia.
Para saber a sua pontuação agora, responda o questionário THI online da OtoCare. Ele usa as perguntas da versão validada no Brasil e mostra o grau e as subescalas na hora, sem cadastro.
Por que medir o incômodo, e não só o som
Zumbido é a percepção de um som nos ouvidos ou na cabeça quando nada no ambiente o produz. Ele aparece de muitas formas, parecido com cigarra, apito, grilo ou panela de pressão, e só quem tem o sintoma consegue ouvi-lo. Não existe exame que mostre numa tela o quanto ele incomoda.
Quando a intensidade do zumbido é medida, o número costuma surpreender. Um artigo brasileiro sobre o THI lembra que mais de 80% das pessoas com zumbido o percebem com intensidade abaixo de 20 decibéis, o nível de um sussurro, e que não há relação entre essa intensidade e o prejuízo que a pessoa relata. No estudo que criou o THI, a pontuação teve pouca relação com o volume e com a altura do som que os pacientes descreviam. O incômodo depende menos do volume e mais de como a pessoa reage ao zumbido, com alerta, ansiedade e atenção presa nele.
As diretrizes partem da mesma ideia. A diretriz americana de zumbido, de 2014, faz uma recomendação forte para que o médico separe o zumbido que incomoda daquele que não incomoda, e boa parte das recomendações seguintes vale para o zumbido persistente e incômodo. Medir esse incômodo de forma padronizada é justamente o papel do THI.
THI e acufenometria: o som e o incômodo
Na investigação do zumbido, dois exames de ouvido aparecem quase sempre. A audiometria mostra se há perda auditiva, a principal causa do zumbido. A acufenometria caracteriza o próprio zumbido. O nome do exame significa medida do zumbido, e ele identifica a frequência em que o som aparece, a intensidade com que é ouvido e o menor ruído capaz de fazer a pessoa deixar de percebê-lo.
Esses parâmetros ajudam a entender o zumbido e o impacto dele, mas um som de poucos decibéis pode incomodar muito. O THI completa o retrato, porque pergunta ao próprio paciente o que o zumbido faz com o sono, o trabalho, o humor e a vida social. A acufenometria mede o som, e o questionário mede o quanto ele atrapalha a vida. Os dois servem também para acompanhar o tratamento, porque podem ser repetidos e comparados com o resultado anterior.
De onde vem o questionário
O THI foi criado em 1996 por Newman, Jacobson e Spitzer, nos Estados Unidos. Os autores começaram com uma versão de 45 perguntas e chegaram às 25 da versão final, que mostrou alta confiabilidade e nenhuma diferença de resultado por idade ou sexo. O objetivo era um questionário curto, fácil de aplicar e de interpretar numa consulta movimentada.
Desde então, ele é usado de forma ampla, tanto na avaliação de quem chega com zumbido quanto nas pesquisas sobre tratamentos. Um dos estudos brasileiros explica a escolha do THI para tradução pela rapidez, cerca de cinco minutos para responder, e pelo fato de não ter reserva de direitos autorais.
As três versões brasileiras do THI
O Brasil tem três adaptações do THI, publicadas entre 2005 e 2006. Todas mantêm as 25 perguntas e a mesma pontuação, e por isso os resultados continuam comparáveis com os de estudos de outros países.
- THI Brasileiro, de 2005. Adaptado por pesquisadores de São Paulo com 30 pacientes de um ambulatório de otoneurologia, área que cuida da audição e do equilíbrio. As perguntas foram lidas em voz alta, para incluir quem tinha dificuldade de visão ou de leitura, e os resultados se repetiram de forma parecida com entrevistadores diferentes.
- Questionário de Gravidade do Zumbido, de 2006. Testado em Bauru, no interior paulista, com 135 trabalhadores expostos a ruído no trabalho. A coerência entre as respostas, ou seja, o quanto as perguntas medem a mesma coisa, foi a mesma do questionário original.
- Versão de Porto Alegre, de 2006. Testada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre com 180 pacientes com zumbido. As perguntas também mostraram alta coerência entre si, e quem pontuava mais no THI tendia a pontuar mais numa escala de depressão, sinal de que o questionário capta o peso do zumbido no humor.
O questionário online da OtoCare usa as perguntas da versão de Porto Alegre. A introdução desse artigo cita 27 perguntas, mas o questionário publicado e usado na prática tem 25 perguntas. A pontuação máxima de 100 só fecha com 25 respostas de 4 pontos.
As três dimensões do zumbido no THI
Cada pergunta pertence a uma de três partes, chamadas subescalas, e cada uma olha para um lado diferente do problema.
| Subescala | Perguntas | O que avalia |
|---|---|---|
| Funcional | 11 perguntas (1, 2, 4, 7, 9, 12, 13, 15, 18, 20 e 24), até 44 pontos | Limitações no dia a dia, como concentração, leitura, sono, trabalho, vida social e dificuldade de ouvir os outros. |
| Emocional | 9 perguntas (3, 6, 10, 14, 16, 17, 21, 22 e 25), até 36 pontos | Reações como irritação, frustração, ansiedade, tristeza e insegurança. |
| Catastrófica | 5 perguntas (5, 8, 11, 19 e 23), até 20 pontos | Desespero, sensação de não ter controle, de não aguentar mais e medo de ter uma doença grave. |
Muitos pontos na parte funcional chamam atenção para o sono, a concentração e a audição. Muitos pontos nas partes emocional e catastrófica mostram um sofrimento maior.
Um estudo polonês com 1.115 pacientes analisou como as 25 perguntas se agrupam e concluiu que o total é a medida mais confiável, porque as três partes se sobrepõem bastante. Na prática, a pontuação total define o grau, e as subescalas servem como pista de onde o zumbido pesa mais.
Como a pontuação vira grau
Na soma, a resposta sim vale 4 pontos, às vezes vale 2 e não vale 0. Somadas as 25 respostas, o total é classificado em cinco graus, propostos por um grupo de trabalho da associação britânica de otorrinolaringologistas e publicados em 2001.
| Pontuação | Grau | Como o zumbido costuma ser vivido |
|---|---|---|
| 0 a 16 | 1 · Desprezível | Percebido só no silêncio e encoberto com facilidade. Não atrapalha o sono nem as atividades. |
| 18 a 36 | 2 · Leve | Encoberto pelos sons do ambiente e esquecido durante as atividades. Às vezes atrapalha o sono. |
| 38 a 56 | 3 · Moderado | Notado mesmo com barulho ao redor, mas as atividades seguem possíveis. Atrapalha com alguma frequência o sono e o descanso. |
| 58 a 76 | 4 · Severo | Percebido o tempo todo e difícil de encobrir. Altera o sono e pode atrapalhar as atividades do dia. |
| 78 a 100 | 5 · Catastrófico | Todos os efeitos do zumbido aparecem de forma muito intensa. |
Como cada resposta vale um número par, o total também é sempre par. Por isso as faixas pulam de 16 para 18, de 36 para 38 e assim por diante. O mesmo grupo britânico lembra que os graus severo e catastrófico, pela própria definição, são raros na população.
Algumas calculadoras na internet dividem o resultado em só três níveis, como leve abaixo de 20, moderado de 20 a 50 e crítico acima de 50. Essas faixas não correspondem aos graus validados e podem assustar sem motivo. Uma pontuação de 52, que seria crítica nessa divisão, é um zumbido de grau moderado pela classificação usada nos estudos. E o grau mais alto vai até 100 pontos, e não até 90, como aparece em algumas tabelas.
Como responder para o resultado ser fiel
- Responda sobre como o zumbido tem sido de modo geral, e não só sobre o dia de hoje, que pode ter sido especialmente bom ou ruim.
- Marque às vezes só quando for verdade. Ele serve para o que acontece em parte dos dias, e não para quando a pergunta parece difícil.
- Não deixe perguntas em branco. O total é a soma das 25 respostas, e uma falta muda o resultado.
- A resposta é sua. O THI é um questionário de autoavaliação e vale a percepção de quem tem o zumbido. Se ler for difícil, outra pessoa pode ler as perguntas em voz alta, como foi feito na adaptação brasileira de 2005, mas sem opinar nas respostas.
- Para comparar, use sempre a mesma versão. A diferença entre duas aplicações só faz sentido com as mesmas perguntas.
Como usar o THI para acompanhar o tratamento
O maior valor do THI aparece na segunda vez em que ele é respondido. Com a pontuação do início em mãos, dá para ver em números se o tratamento está ajudando. As adaptações brasileiras destacam esse uso, antes e depois do tratamento.
Nem toda diferença significa mudança real. Um estudo com 210 pacientes de um registro internacional de zumbido mostrou que uma queda de 7 pontos ou mais já corresponde à menor melhora considerada clinicamente relevante. Quem foi avaliado como um pouco melhor teve quedas de 6 a 16 pontos. Entre quem foi avaliado sem mudança, a pontuação oscilou até 5 pontos para baixo ou 4 para cima.
Os próprios autores do THI usaram um critério mais rígido. Em 1998, aplicaram o questionário duas vezes, com cerca de 20 dias de intervalo, em 29 adultos. Pelo cálculo deles, só uma diferença de 20 pontos ou mais fica fora da variação natural do questionário numa mesma pessoa. Na prática, os dois critérios se completam. Uma queda de 7 pontos já indica uma melhora pequena, mas relevante, e uma queda de 20 pontos ou mais deixa pouca dúvida de que a mudança é real.
A ferramenta online permite informar a pontuação anterior e mostra se a diferença chegou a 7 pontos ou mais. Guarde cada resultado com a data e leve à consulta. O intervalo útil entre duas aplicações acompanha o tratamento, como antes de começar e depois de um período seguindo a conduta.
O THI nas diretrizes e outros questionários
O THI é um dos questionários de zumbido com versão validada em português, e a diretriz americana de 2014 inclui a medida do efeito do zumbido na avaliação de quem tem o sintoma persistente. Há outros instrumentos com a mesma função.
A diretriz inglesa do NICE, de 2020, sugere para adultos o Tinnitus Functional Index, o TFI, um questionário mais recente, de 2012, também com 25 perguntas, criado para medir tanto o impacto do zumbido quanto as mudanças com o tratamento. O uso do TFI pode ser avaliado caso a caso, na consulta. Para quem já acompanha o zumbido com o THI, faz sentido seguir com ele, porque a comparação só vale entre resultados do mesmo questionário.
A diretriz inglesa também recomenda perguntar se o zumbido atrapalha o sono e, quando atrapalha, usar um questionário próprio de insônia e levar o resultado para o plano de tratamento.
O que o questionário não detecta
O THI mede incômodo, não causa. Uma pontuação baixa não significa que o zumbido dispensa investigação. Agende consulta na OtoCare, seja qual for o resultado, quando o zumbido:
- aparece em um ouvido só, especialmente se esse ouvido também escuta menos;
- pulsa junto com o coração, como uma batida;
- vem acompanhado de tontura ou de sensação de ouvido tampado.
Zumbido que aparece junto com uma perda súbita da audição pede consulta com prioridade. Agende pelo WhatsApp e informe o sintoma, porque na surdez súbita o resultado do tratamento depende de começar cedo. Os sinais estão explicados em surdez súbita e na orientação sobre gripe e surdez súbita.
Zumbido com fraqueza ou paralisia no rosto, ou com outro sintoma neurológico que surgiu de repente, precisa de avaliação médica sem demora.
Na outra ponta, uma pontuação muito alta, sobretudo com respostas sim às perguntas sobre desespero e sobre não aguentar mais, também merece atendimento prioritário. Ao agendar na OtoCare, informe que o zumbido está insuportável, para que o horário seja priorizado.
Pensamentos de suicídio também podem acompanhar o zumbido intenso. Uma revisão de 2025, que reuniu nove estudos com adultos, encontrou esses pensamentos em cerca de 1 em cada 5 pessoas com zumbido, o dobro do observado em quem não tem o sintoma. Se isso acontecer, agende consulta na OtoCare pelo WhatsApp e informe o que está sentindo, para ter atendimento prioritário, qualquer que seja a pontuação do questionário.
O que fazer com o resultado
Todo zumbido novo ou persistente merece uma consulta com otorrino e uma audiometria, porque a perda auditiva é a causa mais comum. O otorrino procura a causa e, na maioria dos casos, ele mesmo consegue tratar. As outras causas, da cera no ouvido aos problemas da articulação da mandíbula, estão nas dicas para aliviar o zumbido.
Essas dicas valem para qualquer grau e não fazem mal a ninguém. Para quem consome cafeína todos os dias, o teste de restrição da cafeína ajuda a descobrir se ela pesa no zumbido. Quando existe perda auditiva, o zumbido tende a melhorar com o tratamento da audição, e o aparelho auditivo, que também ajuda no zumbido, é uma das formas de fazer isso.
Quanto mais alto o grau e quanto mais pontos nas partes emocional e catastrófica, mais o tratamento precisa cuidar também do sono e da ansiedade. A diretriz americana recomenda a terapia cognitivo-comportamental, um tipo de psicoterapia que ensina a reagir de outra forma ao zumbido, para o zumbido persistente e incômodo. A terapia sonora, em que sons agradáveis ajudam o cérebro a prestar menos atenção no zumbido, aparece como opção. Na consulta, a indicação é feita caso a caso.
Leve a pontuação e as respostas à consulta. Elas mostram em poucos minutos o que às vezes é difícil explicar em palavras.
Perguntas frequentes
Como é feito o teste do zumbido?
Não existe um exame único. A avaliação começa pela consulta e pelo exame do ouvido e costuma incluir a audiometria, a acufenometria e um questionário como o THI. Exames de imagem ficam para casos específicos, como o zumbido de um lado só ou o zumbido que pulsa.
Quais são os tipos de zumbido?
O zumbido pode aparecer em um ouvido, nos dois ou na cabeça, e cada ouvido pode ter um som diferente, como apito, chiado, cachoeira ou batida. A separação mais útil na consulta é entre o zumbido pulsátil, que acompanha as batidas do coração, e o não pulsátil, porque a investigação de cada um segue caminhos diferentes. Quando, além do zumbido, os ruídos comuns do dia a dia incomodam ou doem, pode haver também hiperacusia, que é outro problema.
Qual é o CID do zumbido?
Na CID-10, o zumbido tem o código H93.1, com o nome de tinnitus, dentro do grupo de outros transtornos do ouvido.
Acúfeno, tinnitus e zumbido são a mesma coisa?
São. Acúfeno e tínitus são outros nomes do zumbido, e tinnitus é a forma em inglês, a mesma do nome do questionário. Por isso o THI aparece também como questionário de acúfeno.
Onde encontro o questionário THI em PDF?
As três versões brasileiras foram publicadas com o questionário completo, em revistas de acesso aberto, e os artigos estão nas referências desta página. Para responder sem papel e sem fazer a conta, o THI online traz as 25 perguntas da versão de Porto Alegre e soma os pontos sozinho.
Qual é a diferença entre o THI e o DHI?
O DHI, ou Dizziness Handicap Inventory, é o questionário irmão do THI para a tontura. Foi criado em 1990 por dois dos autores do THI, também tem 25 perguntas e foi adaptado para o Brasil em 2007. Ele mede o quanto a tontura atrapalha a vida, e não o zumbido. Quem tem as duas queixas pode responder os dois, e o questionário DHI da tontura também tem versão online. A causa da tontura é investigada na consulta, como explica a orientação sobre se toda tontura é labirintite.
O THI serve para crianças?
Não. O questionário foi criado e validado em adultos, e várias perguntas falam de trabalho, leitura e responsabilidades. A diretriz inglesa sugere, para crianças e adolescentes, medidas adequadas à idade, como uma escala visual, uma linha em que a criança marca o tamanho do incômodo.
Uma pontuação alta significa que o zumbido é grave ou perigoso?
Não necessariamente. A pontuação mede o quanto o zumbido incomoda, e não a gravidade da causa. Um zumbido de causa simples pode incomodar muito, e um sinal de alerta pode aparecer com pontuação baixa. Por isso o resultado complementa, mas não substitui, a consulta e os exames.
O zumbido pode sumir e a pontuação chegar a zero?
Pode, principalmente quando a causa é tratável, como uma cera que tampava o ouvido. Quando o zumbido continua, o objetivo passa a ser fazê-lo deixar de incomodar, e uma queda de grau severo para leve já muda muito a qualidade de vida.
Referências
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O questionário mostra o tamanho do incômodo; a causa se descobre no exame. Na consulta com otorrino em Brasília, o ouvido é examinado e a audiometria e a acufenometria são realizadas na própria clínica.
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