Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Otite média secretora é líquido atrás do tímpano sem sinais de infecção aguda
A otite média secretora, também chamada de otite média serosa ou otite média com efusão, é o acúmulo de líquido na orelha média, atrás do tímpano. Diferentemente da otite média aguda, costuma não provocar febre, dor intensa nem saída de secreção pelo ouvido.
O problema pode parecer silencioso, mas o líquido reduz a transmissão do som. Ouvido tampado, audição abafada, zumbido e desequilíbrio podem aparecer. Em crianças pequenas, os sinais às vezes são apenas falar mais alto, pedir repetição ou aumentar o volume da televisão e do tablet.

Atenção à audição da criança: se ela começa a falar mais alto, pede para repetir frases ou aumenta o volume dos aparelhos, procure avaliação mesmo sem dor e sem febre.
Qual é a diferença entre otite média secretora e otite média aguda?
As duas condições acontecem na orelha média, mas não são a mesma coisa. Na forma aguda, existe um quadro de infecção com sintomas como dor, febre e, em alguns casos, secreção. Na forma secretora, o achado principal é o líquido retido atrás do tímpano sem esses sinais de agudização.
A secreção pode permanecer depois que a fase aguda melhora. Também pode se acumular quando a tuba auditiva, o canal que liga a orelha média ao fundo do nariz, deixa de ventilar e drenar o ouvido de maneira adequada.
Para uma visão dos outros tipos, sintomas e complicações, consulte a orientação sobre otite. A página sobre antibiótico para otite mostra por que a decisão depende do diagnóstico e não apenas da presença de líquido.
Por que o líquido se acumula atrás do tímpano?
Uma causa frequente é a permanência de secreção depois de uma otite média aguda. Outra possibilidade é a obstrução ou o mau funcionamento da tuba auditiva durante gripes, resfriados, rinite alérgica intensa ou sinusite. O nariz fica congestionado, a ventilação da orelha média piora e o líquido se acumula.
Quando a inflamação se prolonga, a mucosa da orelha média pode manter o processo ativo e dificultar a resolução. A pressão negativa também pode puxar o tímpano para dentro. Por isso, um quadro persistente merece acompanhamento, mesmo quando não dói.
Em algumas crianças, uma adenoide aumentada participa da obstrução da tuba auditiva. A necessidade de tratar ou operar a adenoide depende do conjunto de sintomas, do exame e da resposta ao tratamento clínico.
Por que a otite média secretora é mais comum em crianças?
Na infância, a tuba auditiva é mais curta, mais horizontal e ainda imatura. Essa anatomia facilita a chegada de secreções da região do nariz à orelha média e dificulta a ventilação. As crianças também apresentam mais gripes, resfriados e episódios de otite média aguda do que os adultos.
A posição completamente deitada durante a alimentação pode acrescentar risco em bebês. Esse tema está detalhado na orientação sobre por que mamar deitado pode favorecer otite.
A perda auditiva provocada pelo líquido costuma ser condutiva e pode variar de leve a moderada. Quando se prolonga justamente na fase em que a criança aprende a falar e a compreender sons, pode interferir no desenvolvimento da linguagem, na aprendizagem e no processamento auditivo.
Quais sintomas e sinais podem aparecer?
- sensação de ouvido tampado ou abafado;
- diminuição da audição;
- zumbido;
- sensação de desequilíbrio;
- fala mais alta do que o habitual;
- pedidos frequentes para repetir o que foi dito;
- volume da televisão, do celular ou do tablet mais alto.
Nem todos os sinais aparecem ao mesmo tempo. Bebês e crianças pequenas podem não conseguir explicar o abafamento, e a ausência de dor pode atrasar a percepção do problema. A observação dos responsáveis faz parte da identificação precoce.
Como o diagnóstico é feito?
O primeiro passo é examinar o ouvido com o otoscópio. O tímpano pode estar mais opaco, com menos brilho, vascularização aumentada ou líquido visível atrás dele.
A audiometria verifica se existe perda auditiva e qual é a intensidade. A impedanciometria avalia o funcionamento do tímpano e ajuda a identificar alteração da ventilação ou presença de líquido na orelha média.
A investigação também pode incluir videoendoscopia nasal para observar rinite, sinusite, adenoide aumentada ou outra alteração que esteja obstruindo a região da tuba auditiva. O objetivo é entender não apenas o líquido no ouvido, mas o que está mantendo esse acúmulo.
Como é feito o tratamento?
O tratamento começa pela causa. Uma otite média aguda precisa ser tratada adequadamente. Rinite, sinusite e congestão nasal também devem ser controladas quando estão prejudicando o funcionamento da tuba auditiva. Com a melhora do quadro nasal ou infeccioso, o líquido muitas vezes desaparece espontaneamente.
Quando a secreção persiste por mais de três meses, a audição e o desenvolvimento da criança precisam ser reavaliados. Em uma parcela menor dos casos, pode ser indicado colocar um tubo de ventilação no tímpano para drenar o líquido e permitir a entrada de ar na orelha média.
O tubo é conhecido popularmente como carretel. Em situações selecionadas, a cirurgia pode ser associada à remoção da adenoide. Essa decisão considera duração, audição, sintomas, idade, alterações nas duas orelhas e a causa identificada; não é definida apenas pelo tempo.
O que ajuda a prevenir?
- Amamentação: o aleitamento materno transfere anticorpos e pode reduzir infecções respiratórias e otites.
- Ambiente sem cigarro: não permita que fumem perto da criança nem dentro de casa.
- Menos chupeta: evite o uso, principalmente antes de 1 ano e meio, quando possível.
- Vacinação: mantenha a vacina pneumocócica e o calendário infantil atualizados.
- Higiene das mãos: lave as mãos regularmente para reduzir a transmissão de infecções respiratórias.
- Lavagem nasal adequada: use volume e pressão compatíveis com a idade. A orientação sobre lavagem nasal em crianças explica como escolher o método.
A lavagem nasal é útil, mas pressão ou volume inadequados podem levar solução e secreção em direção à tuba auditiva. Se houver dor, ouvido tampado ou piora da audição durante a lavagem, interrompa e procure orientação.
Vídeo: otite média secretora, sintomas, tratamento e prevenção
O vídeo abaixo usa um modelo anatômico para mostrar onde o líquido se acumula, por que as crianças são mais vulneráveis, quais sinais observar, como o diagnóstico é feito e quando pode ser necessário um tubo de ventilação.
Perguntas frequentes
É seguro viajar de avião com otite média secretora?
Mudanças de pressão podem provocar dor e lesão quando a tuba auditiva não ventila bem. Se houver viagem marcada, confirme antes se o quadro está estável e se é melhor adiar. Bebês, crianças pequenas e pessoas que não conseguem equalizar a pressão precisam de orientação individual.
Líquido persistente em apenas um ouvido do adulto precisa ser investigado?
Sim. Em adultos, a otite média secretora é menos comum, e um quadro persistente de um lado só exige avaliação do ouvido, do nariz e da região onde a tuba auditiva se abre. O objetivo é identificar a causa da obstrução e não apenas acompanhar o líquido.
Referências
- VILELA, Larissa. Otite média secretora: o que é, como acontece, como tratar, como prevenir? YouTube, 26 jun. 2024. 1 vídeo (19 min 21 s). Disponível em: https://youtu.be/ukRC_RYzaTM. Acesso em: 18 set. 2026.
- SOCIEDADE DE PEDIATRIA DE SÃO PAULO. Desafios frente à otite média secretora. São Paulo: SPSP, 9 dez. 2024. Disponível em: https://spsp.org.br/documento-cientifico-desafios-frente-a-otite-media-secretora/. Acesso em: 18 set. 2026.
- JAN, Taha A.; LUSTIG, Lawrence R. Otite média serosa. Manual MSD Versão Saúde para a Família, abr. 2025. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-do-ouvido-nariz-e-garganta/doen%C3%A7as-do-ouvido-m%C3%A9dio/otite-m%C3%A9dia-serosa. Acesso em: 18 set. 2026.
- ROSENFELD, Richard M. et al. Clinical Practice Guideline: Otitis Media with Effusion (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 154, supl. 1, p. S1-S41, 2016. DOI: 10.1177/0194599815623467. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26832942/. Acesso em: 18 set. 2026.
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