Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Imunodeficiência primária é uma falha do sistema imunológico que causa infecções de repetição
As imunodeficiências primárias são doenças genéticas em que alguma peça do sistema de defesa não funciona como deveria. O corpo fica mais vulnerável a bactérias e fungos, e o resultado aparece como infecções que voltam sempre, demoram a ceder ou se tornam graves.
Mais de 300 doenças diferentes já foram descritas dentro desse grupo, e os quadros variam muito entre si. Algumas se manifestam nos primeiros meses de vida; outras só chamam atenção anos depois, pela repetição das infecções. Por isso existe uma lista de sinais de alerta: ela não fecha diagnóstico, apenas indica quem precisa de uma investigação mais detalhada.

Dois desses sinais aparecem no consultório do otorrino: otites bacterianas que se repetem e lesões de boca que não cicatrizam. Quem conta os episódios costuma ser quem trata o ouvido e a garganta.
Quatro ou mais otites bacterianas em um ano pedem investigação
Esse é o primeiro sinal de alerta otorrinolaringológico. Uma criança que apresenta quatro ou mais otites bacterianas ao longo de doze meses deve ser avaliada quanto à possibilidade de imunodeficiência primária, mesmo quando cada episódio isolado responde bem ao tratamento.
O que pesa aqui é a frequência, não a gravidade de um episódio único. Vale registrar as datas, o que foi observado no exame do ouvido e qual tratamento foi usado em cada vez. Sem esse registro, a contagem se perde entre consultas e serviços diferentes, e o critério deixa de ser aplicado.
A orientação sobre otite descreve os tipos e o que muda no tratamento de cada um. As decisões sobre medicação estão em otite e sinusite precisam de antibiótico? e em azitromicina para otite, sinusite e amigdalite.
Aftas de repetição e sapinho que não passa também ligam o alerta
O segundo sinal da área é oral. Estomatites recorrentes, com aftas e lesões dolorosas na boca voltando de tempos em tempos, entram na lista de alerta.
A candidíase oral, o sapinho, merece atenção quando o quadro se arrasta por mais de dois meses apesar do tratamento correto. Sapinho é comum em bebês e costuma responder rápido à medicação; o que chama atenção é a persistência, não o aparecimento.
Lesões orais de repetição e candidíase arrastada raramente são investigadas como problema de imunidade, porque parecem incômodos menores. Quando aparecem junto de infecções respiratórias frequentes, o conjunto vale mais do que cada achado isolado.
Quais são os outros sinais de alerta?
- Pneumonias: duas ou mais pneumonias bacterianas em um ano.
- Infecções graves: dois ou mais episódios de infecção sistêmica grave, como meningite ou septicemia.
- Pele: abscessos cutâneos de repetição.
- Intestino: infecções intestinais frequentes ou diarreia crônica.
- Asma grave, doenças autoimunes e doenças do colágeno.
- História familiar: algum familiar com imunodeficiência já diagnosticada.
A presença de um único sinal já justifica investigar. Não é necessário acumular vários itens da lista para levar a suspeita adiante, e a história familiar positiva vale mesmo quando a criança ainda tem poucos episódios.
Nem toda infecção de repetição é imunidade baixa
Essa é a parte que costuma faltar. A maioria das crianças que vive com otite, sinusite e resfriado não tem imunodeficiência: tem uma causa local ou uma exposição que explica a repetição.
- Adenoide aumentada: obstrui a ventilação do ouvido e funciona como reservatório de bactérias. O tema está em como tratar adenoide.
- Rinite alérgica mal controlada: mantém o nariz inflamado e favorece otite e sinusite. As opções estão em tratamento da rinite alérgica.
- Convívio em creche e escola: aumenta muito o número de viroses respiratórias, e cada virose pode terminar em otite. O que ajuda está em como prevenir gripes e resfriados em crianças na escola.
- Imaturidade da tuba auditiva: na primeira infância, o canal que ventila o ouvido ainda é curto e horizontal. A posição durante a mamada também entra nessa conta, como mostra a orientação sobre mamar deitado e otite.
Quando a sinusite é o quadro que mais se repete, o recorte está em sinusite de repetição. A investigação de imunidade não substitui o tratamento dessas causas, e o tratamento dessas causas não dispensa a investigação quando os sinais de alerta estão presentes. As duas linhas caminham juntas.
Como a investigação é feita?
A porta de entrada costuma ser um exame de sangue. A triagem inicial avalia o hemograma e a dosagem das imunoglobulinas, e o resultado orienta se a avaliação precisa continuar e em qual direção.
Conforme a suspeita, o estudo pode se estender à resposta às vacinas, às subpopulações de células de defesa, ao sistema complemento e, em casos selecionados, à análise genética. Essa etapa é conduzida pelo imunologista ou pelo alergista e imunologista.
O papel do otorrino é reconhecer o padrão, documentar os episódios, tratar o que é local e encaminhar no momento certo. Suspeita levantada e não encaminhada não vira diagnóstico.
Por que o diagnóstico precoce muda o desfecho
As doenças desse grupo tendem a ser graves quando não são reconhecidas. Infecções sucessivas podem deixar sequelas, e quadros sistêmicos podem evoluir mal.
Cada tipo de imunodeficiência primária tem um tratamento próprio, e há opções bem estabelecidas, da reposição de anticorpos à profilaxia de infecções e, em situações específicas, a procedimentos de maior complexidade. O objetivo do alerta é chegar a esse tratamento o mais cedo possível, e não transformar cada infecção comum em motivo de preocupação.
Vídeo: sinais de alerta das imunodeficiências primárias
O vídeo abaixo percorre os sinais de alerta, começa pelos dois achados otorrinolaringológicos e explica em quais crianças a investigação laboratorial precisa ser aprofundada.
Perguntas frequentes
Imunodeficiência primária só aparece na infância?
Não. A alteração genética está presente desde o nascimento, mas algumas formas se manifestam apenas na adolescência ou na vida adulta. Um adulto com sinusites e pneumonias que se repetem, sem causa local que explique o quadro, também pode precisar de avaliação da imunidade.
Qual é a diferença entre imunodeficiência primária e secundária?
A primária decorre de uma falha genética do próprio sistema imunológico. A secundária é consequência de outra situação que reduz a defesa, como uso prolongado de certos medicamentos, desnutrição ou doenças que comprometem a imunidade. Os sinais de alerta podem ser parecidos, mas a investigação e a conduta seguem caminhos diferentes.
Referências
- VILELA, Larissa. Imunodeficiência primária: otites de repetição e candidíase oral podem ligar um alerta! YouTube, 6 nov. 2024. 1 vídeo (4 min 29 s). Disponível em: https://youtu.be/u6fUoFqmxD8. Acesso em: 18 set. 2026.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. SBP divulga 10 alertas sobre imunodeficiência primária para orientar na detecção precoce da doença. Rio de Janeiro: SBP, 2 maio 2018. Disponível em: https://www.sbp.com.br/sbp-divulga-10-alertas-sobre-imunodeficiencia-primaria-para-orientar-na-deteccao-precoce-da-doenca/. Acesso em: 18 set. 2026.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ALERGIA E IMUNOLOGIA. Mais de 400 doenças representam as imunodeficiências primárias. São Paulo: ASBAI. Disponível em: https://asbai.org.br/mais-de-400-doencas-representam-as-imunodeficiencias-primarias/. Acesso em: 18 set. 2026.
- TANGYE, Stuart G. et al. Human Inborn Errors of Immunity: 2022 Update on the Classification from the International Union of Immunological Societies Expert Committee. Journal of Clinical Immunology, v. 42, n. 7, p. 1473-1507, 2022. DOI: 10.1007/s10875-022-01289-3. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35748970/. Acesso em: 18 set. 2026.
- ROSENFELD, Richard M. et al. Clinical Practice Guideline: Tympanostomy Tubes in Children (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 166, supl. 1, p. S1-S55, 2022. DOI: 10.1177/01945998211065662. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35138954/. Acesso em: 18 set. 2026.
Avaliação de infecções de repetição em Brasília
Se as otites, as sinusites ou as lesões de boca voltam com frequência, uma consulta com otorrino em Brasília permite examinar ouvido, nariz e garganta, tratar o que é local, organizar a contagem dos episódios e encaminhar a investigação de imunidade quando ela estiver indicada.
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