Tosse crônica por refluxo: a tosse que não passa pode vir do estômago

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

A tosse que não passa há semanas pode ser refluxo, mesmo sem azia

O refluxo é hoje uma das grandes causas de tosse no consultório de otorrinolaringologia. O conteúdo ácido do estômago sobe, chega à laringe e a deixa inflamada, e essa inflamação provoca a tosse. Muitas vezes a pessoa não sente o alimento voltar e tem pouca ou nenhuma azia e queimação.

Essa forma recebe o nome de refluxo faringolaríngeo, também escrito laringofaríngeo, e muita gente a conhece como refluxo oculto ou refluxo alto. A tosse por refluxo costuma chegar junto com pigarro, rouquidão e uma irritação na garganta que volta sempre.

Médica acompanha paciente idosa que tosse com a mão na boca e a outra mão sobre o peito

O caso da Dona Maria: três meses de tosse sem resposta

Dona Maria tinha 72 anos quando chegou ao consultório tossindo havia mais de três meses. Estava cansada de procurar médicos. Já tinha tomado antibiótico e xarope para tosse, e nada resolvia.

Além da tosse, havia pigarro, a impressão de ter alguma coisa presa na garganta e, muitas vezes, rouquidão. Os sintomas pioravam muito ao acordar, com a garganta incomodando, irritada e com um leve ardor, e à noite a tosse também era forte. Essa sensação de algo preso, que se arrasta por semanas, é diferente da pontada que começa de repente durante uma refeição, como acontece com a espinha de peixe na garganta.

Não havia nenhuma outra queixa importante. O nariz não incomodava, ela não tinha histórico de doença no pulmão, e no dia da consulta não havia febre nem sinal de infecção.

Uma tosse que resistiu a antibiótico e a xarope, sem queixa no nariz e sem doença do pulmão, mas com pigarro e rouquidão, leva a investigação para a laringe.

Por que o refluxo provoca tosse

A garganta não foi feita para receber ácido. A mucosa do esôfago resiste melhor, e por isso o refluxo precisa ser forte para causar azia. Na laringe, pequenas quantidades que sobem com frequência já bastam para inflamar, e essa inflamação dispara a tosse. A explicação completa de por que o refluxo alto costuma vir sem azia está na orientação sobre refluxo laringofaríngeo.

Uma revisão brasileira sobre a tosse crônica na rotina do otorrino descreve dois caminhos. No primeiro, o material que sobe do estômago toca diretamente a laringe e as vias aéreas e as inflama. No segundo, o ácido que fica no esôfago estimula um reflexo, conduzido pelo nervo vago, que também termina em tosse. Os autores lembram ainda que a gravidade do refluxo não acompanha os sintomas da laringe, e que pode haver até mais tosse nos quadros de refluxo menos intensos.

Segundo uma revisão de 2024, o refluxo laringofaríngeo aparece em cerca de 20% das pessoas com tosse crônica. Entre os pacientes com sintomas fora do esôfago, como a tosse e a rouquidão, mais de 75% não têm azia nem regurgitação, e a endoscopia digestiva deles não mostra alterações. Por isso, uma endoscopia normal não afasta a possibilidade de a tosse vir do refluxo.

Como reconhecer a tosse por refluxo

Geralmente a tosse do refluxo vem acompanhada de outras queixas de garganta, mais do que de estômago:

SintomaComo costuma aparecer
TosseSeca, frequente ao deitar, à noite e logo depois das refeições
PigarroNecessidade frequente de limpar a garganta
RouquidãoVoz que fica rouca com frequência
Algo preso na gargantaImpressão de bola ou de alguma coisa parada ali
Garganta irritadaArdor e incômodo, principalmente ao acordar

A azia, a dor no estômago, a queimação ou a salivação reflexa, chamada de sialorreia, podem aparecer junto, e aí o diagnóstico fica ainda mais fácil. Quando elas faltam, a suspeita vem do conjunto da garganta. Sem azia, o refluxo continua possível.

Duas outras causas frequentes de tosse arrastada também estão na área do otorrino, a rinite e a rinossinusite. Nelas, a secreção produzida no nariz e nos seios da face escorre por trás e chega à garganta, que tosse para se limpar, como mostra a orientação sobre tosse de sinusite. Por isso o nariz também é examinado.

A tosse que acompanha gripes e resfriados tem prazo para acabar, e nesse período cabem medidas de alívio como o mel para tosse. Quando ela passa desse prazo e continua, deixa de ser um incômodo passageiro e pede investigação. O marco de tempo e a ordem em que as causas são procuradas estão na orientação sobre tosse crônica.

Por que antibiótico e xarope não resolvem a tosse por refluxo

O antibiótico combate bactérias. Na tosse por refluxo não há infecção bacteriana, e o remédio não alcança a causa. O xarope para tosse age sobre o sintoma, enquanto a laringe continua inflamada pelo ácido que sobe.

No caso da Dona Maria, a falha dos dois tratamentos foi justamente uma das pistas. Quando a tosse não melhora com nenhum deles, a laringe precisa ser examinada.

O que o exame da laringe mostra

A avaliação é feita com a fibronasolaringoscopia flexível, também chamada de nasofibrolaringoscopia. Um tubo fino com câmera passa pelo nariz e desce até a laringe, no próprio consultório.

O exame começa pelo nariz e pelos seios da face, para ver se existe alergia ou sinusite bacteriana. No caso da Dona Maria, não havia nada ali. Em seguida, a câmera desce até a laringe, no meio do pescoço. A região de trás da laringe, junto da abertura do esôfago, estava muito inchada e muito vermelha. Esse inchaço e essa vermelhidão na parte posterior da laringe sugerem fortemente o refluxo faringolaríngeo, quadro que também recebe o nome de laringite crônica por refluxo.

O diagnóstico é fechado com esse achado somado à história contada na consulta. A revisão brasileira considera o exame de grande valor para as manifestações do refluxo na garganta, porque é pouco invasivo, não usa radiação e permite ver toda a mucosa, do nariz até a laringe. Na OtoCare, ele é feito durante a consulta.

Como é o tratamento da tosse por refluxo

O tratamento começa pela alimentação e pelos hábitos de vida. Não adianta tomar remédio e manter uma alimentação desregrada, cheia do que piora o refluxo, ou hábitos que facilitam a volta do ácido. Os cuidados do dia a dia incluem:

  • ajustar a alimentação, tirando o que dispara os sintomas;
  • respeitar o horário das refeições e não se deitar logo depois de comer;
  • evitar beber muito líquido junto com a comida;
  • fazer atividade física com regularidade.

O porquê de cada cuidado e o modo de colocá-lo em prática aparecem na orientação sobre como evitar o refluxo.

A medicação que reduz a acidez do estômago, em geral da classe dos inibidores da bomba de prótons, entra junto com a dieta, principalmente nos momentos de crise, quando a tosse não dá trégua. Ela alivia enquanto os hábitos mudam, e não ocupa o lugar deles. A escolha do remédio e a duração ficam para a consulta, e ninguém deve começar por conta própria.

Dona Maria recebeu a medicação, porque estava numa crise muito desconfortável e não parava de tossir, e também orientação sobre a alimentação. Duas semanas depois, voltou sem tosse. A tosse dela vinha só do refluxo.

Nem toda resposta é tão rápida. Se a tosse não melhora com o tratamento inicial, o caso é reavaliado e a investigação continua.

Quando o gastroenterologista entra

Depois do diagnóstico, o primeiro tratamento já começa na consulta com o otorrino, e o paciente sai da crise sem precisar esperar outros exames. Em muitos casos, o acompanhamento segue só com o otorrinolaringologista.

Quando é preciso olhar o esôfago e o estômago com mais detalhe, o otorrino pede a endoscopia digestiva ou encaminha ao gastroenterologista, e há pacientes que os dois especialistas acompanham juntos. A endoscopia entra principalmente quando a tosse não melhora com o tratamento ou quando surgem sinais fora do padrão, descritos mais abaixo.

Quando a tosse continua depois de tratar o refluxo

Se o refluxo foi tratado e a tosse não cedeu, outras causas precisam ser revistas. A rinite, a rinossinusite, a asma, a DPOC e outras doenças pulmonares fazem parte dessa investigação. Na diretriz americana de tosse crônica por refluxo, de 2016, os estudos que seguiram um roteiro por etapas, causa por causa, resolveram a tosse crônica em 82% ou mais dos casos.

Quando tudo isso foi afastado, resta a laringe irritada, ou hipersensibilidade laríngea, em que a laringe passa a reagir a estímulos pequenos. É uma causa menos comum, e o diagnóstico só chega por exclusão.

Sinais que pedem avaliação sem demora

Alguns sinais saem do padrão da tosse por refluxo e pedem uma investigação mais detalhada, mesmo em quem já tem o diagnóstico. São eles os engasgos, a dificuldade para engolir e a perda de peso sem explicação. A rouquidão que não passa também merece atenção própria, como explica a orientação sobre rouquidão.

Tossir sangue, sentir falta de ar ou dor no peito e notar um lado do pescoço inchado e dolorido são sinais que, segundo o serviço público de saúde britânico, o NHS, precisam de avaliação médica sem demora.

Vídeo: o caso de tosse crônica por refluxo

O vídeo abaixo apresenta o caso completo, da queixa inicial ao achado da laringoscopia, e explica por que o refluxo pode se manifestar só com sintomas de garganta.

Perguntas frequentes

Tosse por refluxo tem catarro?

Em geral, é uma tosse seca. O refluxo, porém, também inflama a laringe e faz surgir uma pequena secreção, o pigarro, que dá vontade de limpar a garganta. Catarro em quantidade, escorrendo do nariz para o fundo da garganta, aponta mais para rinite ou sinusite, e essas causas são procuradas no mesmo exame.

Quanto tempo dura a tosse por refluxo?

Enquanto o refluxo continuar chegando à garganta, a tosse tende a continuar, e por isso ela pode se arrastar por meses. Com o tratamento, a melhora pode ser rápida ou levar mais tempo, e a reavaliação mostra o caminho. A revisão brasileira sobre tosse crônica considera que a melhor confirmação de que a tosse vinha do refluxo é a melhora depois do tratamento.

Tosse por refluxo tem cura?

Tem tratamento, e a tosse costuma desaparecer quando o refluxo fica controlado. O cuidado é manter os hábitos, porque o erro alimentar, sozinho, já pode provocar refluxo, mesmo em quem tem a endoscopia normal. Se a alimentação desregrada volta, o refluxo e a tosse podem voltar junto.

Só o remédio para refluxo resolve a tosse?

Sozinho, costuma não bastar. A diretriz do American College of Chest Physicians sobre tosse crônica por refluxo em adultos, de 2016, analisou os estudos disponíveis e concluiu que os remédios que reduzem a acidez, usados isoladamente, não mostraram benefício na tosse. Os estudos que incluíram mudança na dieta e perda de peso tiveram resultados melhores. Por isso o remédio entra junto com a alimentação, e nunca no lugar dela.

Por que a tosse do refluxo piora à noite?

Comer muito e deitar logo em seguida está entre os hábitos de alimentação e de postura que favorecem o refluxo. Por isso a tosse aparece muito quando a pessoa se deita e durante a noite, padrão também descrito pela revisão brasileira sobre tosse crônica. O peso da posição do corpo e o jeito certo de levantar a cabeceira estão explicados na orientação sobre como evitar o refluxo.

A tosse pode piorar o refluxo?

Pode. A revisão brasileira sobre tosse crônica explica que a tosse forte e repetida muda a pressão entre o tórax e o abdômen e mexe com o diafragma, e isso favorece o retorno do que está no estômago para o esôfago. Assim, a tosse e o refluxo podem se alimentar um do outro.

Tosse com engasgo pode ser refluxo?

Engasgar não faz parte do quadro clássico da tosse por refluxo. Quando os engasgos aparecem, a investigação vai além, com a endoscopia para olhar o esôfago e a avaliação de como a pessoa engole. Na OtoCare, a videoendoscopia da deglutição mostra como o alimento passa pela garganta. Os sinais de dificuldade para engolir estão na orientação sobre disfagia.

Criança também pode ter tosse por refluxo?

Pode, mas essa relação é discutida na infância. A diretriz do American College of Chest Physicians sobre tosse crônica e refluxo na criança, de 2019, orienta não usar tratamento para refluxo quando a criança não tem sinais de refluxo. Na única análise conjunta de estudos, com dois ensaios, a tosse não melhorou mais com o tratamento do que com placebo, e os remédios que reduzem a acidez trouxeram mais efeitos adversos graves. O tratamento da criança é definido na consulta.

Referências

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Tosse que não passa merece avaliação

Quando a tosse já dura semanas, vem com pigarro ou rouquidão e não respondeu aos tratamentos habituais, uma consulta com otorrino em Brasília permite examinar a laringe e definir a causa.

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