Estimulador do nervo hipoglosso para ronco e apneia: o que é e quem pode fazer

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é o estimulador do nervo hipoglosso

O estimulador do nervo hipoglosso é um implante que, durante o sono, envia pequenos impulsos elétricos ao nervo que movimenta a língua. A língua avança, a garganta fica aberta e o ar passa. É indicado para adultos com apneia moderada ou grave que não se adaptaram ao CPAP, e ainda não está disponível para uso regular no Brasil.

O tratamento também aparece escrito como estimulador do nervo hioglosso, e em notícias é chamado de marca-passo para apneia. Ele é estudado desde os anos 1990 e é usado nos Estados Unidos e na Europa há mais de dez anos. A ideia é atuar numa das bases do ronco e da apneia: a flacidez dos músculos da garganta durante o sono.

Dra. Larissa Vilela ao lado da ilustração de uma mulher dormindo com o estimulador do nervo hipoglosso implantado sob o queixo e a unidade externa que o ativa durante o sono

Como o estimulador mantém a garganta aberta

O nervo hipoglosso comanda os músculos da língua, principalmente o genioglosso, que puxa a língua para a frente. Durante o sono, esses músculos relaxam, a língua cai para trás e estreita a passagem do ar. O estreitamento faz os tecidos moles vibrarem, o que gera o ronco, e o fechamento maior provoca as pausas da apneia.

O estimulador é um eletrodo colocado junto ao nervo. Cada impulso contrai o genioglosso, a língua fica mais anteriorizada e o espaço atrás dela aumenta. O aparelho só funciona enquanto a pessoa dorme: acordado, não gera estímulo nem movimenta a língua.

Inspire e Genio: quais são as diferenças

Inspire. Foi o primeiro sistema aprovado pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, em 2014. Estimula o nervo hipoglosso de um lado só. A cirurgia usa dois cortes: um no pescoço, para o eletrodo, e outro no tórax, onde fica o gerador de impulsos, com bateria que não precisa ser recarregada. O sistema passou por várias gerações desde a primeira versão.

Genio. Foi aprovado pela FDA em agosto de 2025. O implante é bem menor, colocado por um corte único abaixo do queixo, e estimula os dois nervos hipoglossos, o que dá uma contração mais completa da língua. Não há bateria dentro do corpo: à noite, a pessoa cola sobre a pele uma pequena unidade externa, recarregável, que alimenta e controla o implante.

Os dois sistemas têm o mesmo objetivo. A escolha entre eles depende da avaliação e, fora do Brasil, também do que cada país aprovou.

O estimulador funciona? O que mostram os estudos

Os resultados são consistentes. No estudo multicêntrico que levou à aprovação do Inspire, com 126 pacientes que não se adaptavam ao CPAP, o índice de apneia caiu 68% em 12 meses, de 29,3 para 9,0 eventos por hora, com melhora da sonolência e da qualidade de vida. Quando o aparelho foi desligado em parte dos pacientes, a apneia voltou, o que confirma o efeito do estímulo.

O mesmo grupo foi acompanhado por cinco anos. Entre os que repetiram a polissonografia, 75% continuavam respondendo ao tratamento, e a proporção de pacientes com sonolência normal passou de 33% para 78%. Com o Genio, o estudo inicial mostrou queda do índice de apneia de 23,7 para 12,9 eventos por hora em seis meses, e os parceiros que relatavam ronco muito alto caíram de 96% para 35%.

Em muitos casos o índice chega à faixa normal, mas o resultado varia de pessoa para pessoa. Por isso a seleção do paciente é tão importante.

Quem pode fazer

Hoje a indicação é restrita, como costuma acontecer com tecnologias novas. Os critérios habituais são:

  • apneia obstrutiva no mínimo moderada, com índice de apneia e hipopneia de 15 ou mais eventos por hora na polissonografia;
  • indicação de CPAP sem adaptação ao aparelho, ou seja, o estimulador entra como alternativa ao CPAP;
  • idade acima de 18 anos;
  • peso dentro de um limite de índice de massa corporal, que varia conforme o dispositivo e a referência, em geral entre 32 e 40;
  • anatomia compatível na avaliação da garganta durante o sono.

Acima desses limites de peso a resposta costuma ser fraca, porque a apneia tende a ser mais complexa. A avaliação anatômica é feita com a sonoendoscopia, que mostra como a garganta se fecha durante o sono; quando ela se fecha por igual em toda a volta, como um anel, o estimulador não costuma funcionar. O que cada grau de apneia significa está na orientação sobre apneia do sono.

A cirurgia é segura?

Sim, os estudos mostram um procedimento seguro. No estudo do Inspire, eventos graves ligados à cirurgia ocorreram em menos de 2% dos pacientes. Os efeitos mais comuns são locais, menores e reversíveis: desconforto no momento do estímulo e pequenas lesões na língua, causadas pela contração muscular, que se resolvem com o ajuste do equipamento.

O estímulo é totalmente ajustável. Começa bem fraco e é aumentado aos poucos, conforme a necessidade e a tolerância, até o ponto em que a via aérea abre bem sem incomodar durante a noite. Na maioria dos pacientes a adaptação é boa.

O estimulador do hipoglosso já existe no Brasil?

Ainda não para uso regular. Os sistemas aguardam liberação da Anvisa, e o que houve no país foram implantes isolados, autorizados em caráter excepcional. Como a tecnologia já tem estudos longos de eficácia e segurança, a expectativa é que chegue ao Brasil nos próximos anos.

Enquanto isso, quem não se adapta ao CPAP tem outras opções, como perda de peso, dormir de lado, aparelho intraoral, medicação para perda de peso, fonoterapia e cirurgias. A comparação entre elas está na orientação sobre tratamento para ronco e apneia.

Vídeo: estimulador do nervo hipoglosso, Inspire e Genio

O vídeo abaixo apresenta como o estimulador age na via respiratória, as diferenças entre os dois sistemas, quem pode usar e a situação no Brasil.

Perguntas frequentes

O estimulador do hipoglosso substitui o CPAP?

Ele é indicado justamente como alternativa para quem precisa do CPAP e não conseguiu usá-lo. Para quem se adapta bem ao CPAP, o aparelho de pressão continua sendo o tratamento de referência.

Quem tem ronco sem apneia ou apneia leve pode colocar?

Pelos critérios atuais, não. O implante é reservado para apneia moderada ou grave. Ronco sem apneia e apneia leve costumam responder a medidas mais simples.

A pessoa sente o estímulo na língua?

Alguns pacientes percebem o estímulo no início. A intensidade é ajustada aos poucos até abrir a garganta sem incomodar, e o aparelho só funciona durante o sono.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Estimulador do nervo hioglosso para tratar ronco e apneia (Inspire® e o Genio®). YouTube, 21 jan. 2026. 1 vídeo (13 min 22 s). Disponível em: https://youtu.be/UPSVAkqNUSo. Acesso em: 16 set. 2026.
  2. STROLLO, P. J. et al. Upper-airway stimulation for obstructive sleep apnea. The New England Journal of Medicine, v. 370, n. 2, p. 139-149, 2014. DOI: 10.1056/NEJMoa1308659. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24401051/. Acesso em: 16 set. 2026.
  3. WOODSON, B. T. et al. Upper airway stimulation for obstructive sleep apnea: 5-year outcomes. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 159, n. 1, p. 194-202, 2018. DOI: 10.1177/0194599818762383. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29582703/. Acesso em: 16 set. 2026.
  4. EASTWOOD, P. R. et al. Bilateral hypoglossal nerve stimulation for treatment of adult obstructive sleep apnoea. European Respiratory Journal, v. 55, n. 1, 1901320, 2020. DOI: 10.1183/13993003.01320-2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31601716/. Acesso em: 16 set. 2026.
  5. AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE. Nyxoah receives FDA approval for Genio system. Darien, 15 ago. 2025. Disponível em: https://aasm.org/nyxoah-receives-fda-approval-for-genio-system/. Acesso em: 16 set. 2026.

Avaliação de ronco e apneia em Brasília

Uma consulta com otorrino em Brasília permite examinar o nariz e a garganta com a nasofibrolaringoscopia, indicar a polissonografia e definir quais tratamentos fazem sentido no seu caso, inclusive para quem não se adaptou ao CPAP.

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