Estimulador do nervo hipoglosso para ronco e apneia: o que é e quem pode fazer

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é o estimulador do nervo hipoglosso

Entre os tratamentos novos para a apneia do sono e para o ronco está o estimulador do nervo hipoglosso. Ele ainda não está disponível no Brasil, mas os Estados Unidos e a Europa já o usam há bastante tempo.

Trata-se de um pequeno implante, colocado por cirurgia junto ao nervo que movimenta a língua. Durante o sono, ele envia impulsos elétricos leves a esse nervo, a língua vai para a frente e sobra mais espaço para o ar passar no fundo da garganta. A indicação atual é para adultos com apneia moderada ou grave que tinham indicação de CPAP e não se adaptaram a ele.

O tratamento também aparece escrito como estimulador do nervo hioglosso, e nas notícias é chamado de marca-passo para apneia. Ele é estudado desde os anos 1990 e teve a primeira aprovação nos Estados Unidos em 2014. O que o torna tão interessante é atuar numa das bases do ronco e da apneia, a flacidez dos músculos da garganta durante o sono.

Dra. Larissa Vilela ao lado da ilustração de uma mulher dormindo com o estimulador do nervo hipoglosso implantado sob o queixo e a unidade externa que o ativa durante o sono

Apneia do sono e ronco: por que a língua importa

A apneia do sono é uma parada, ou uma redução muito importante, da respiração durante o sono, causada por alguma obstrução na via respiratória. É uma condição muito comum. Estima-se que cerca de 30% das pessoas entre 30 e 70 anos tenham algum grau de apneia, e ela costuma vir acompanhada de ronco.

O ronco é a vibração dos tecidos moles da garganta quando o ar passa por um caminho estreitado. Ele é uma consequência desse estreitamento, e não um problema à parte. Os graus da apneia e o diagnóstico estão na orientação sobre apneia do sono, e as causas do ronco na orientação sobre ronco.

À noite, os músculos da garganta relaxam. Quando ficam flácidos demais, em vez de manter a passagem aberta, deixam a via respiratória estreitar. A queda da língua para trás é um dos principais motivos desse estreitamento, e é justamente nela que o estimulador atua.

Como o estimulador mantém a garganta aberta

O nervo hipoglosso comanda os músculos da língua. O mais importante deles para respirar à noite é o genioglosso, que puxa a língua para a frente e ajuda a manter a via aérea aberta.

O estimulador é um eletrodo colocado junto a esse nervo. Cada impulso faz o genioglosso contrair, e a língua fica mais anteriorizada, ou seja, mais para a frente. Com isso, o espaço atrás da língua aumenta bastante e o ar volta a passar. Em vez de abrir a garganta com pressão de ar, como faz o CPAP, o estimulador devolve à musculatura parte do tônus que ela perde durante o sono.

O aparelho só funciona enquanto a pessoa dorme. Acordada, ela não recebe estímulo, e a língua não se mexe sozinha durante o dia.

Inspire e Genio: quais são as diferenças

Inspire. Foi o primeiro sistema aprovado pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, em 2014, e está no mercado americano e no europeu há mais de 11 anos. Estimula o nervo hipoglosso de um lado só. A cirurgia usa dois cortes, um no pescoço, para o eletrodo junto ao nervo, e outro no tórax, onde fica o gerador dos impulsos elétricos. A bateria desse gerador não precisa ser recarregada. O aparelho evoluiu muito desde a primeira versão, e o modelo atual se chama Inspire V.

Genio. Foi aprovado pela FDA em agosto de 2025. É um sistema mais novo, com implante bem menor, colocado por um corte único abaixo do queixo, sem o segundo corte no tórax. Ele estimula os dois nervos hipoglossos, o direito e o esquerdo, o que dá uma contração mais completa do músculo que abre a garganta. Não há bateria dentro do corpo. À noite, a pessoa coloca sobre a pele, sob o queixo, uma pequena unidade externa recarregável, que alimenta e controla o implante.

Os dois sistemas têm o mesmo objetivo. A escolha entre eles depende da avaliação de cada paciente e, nos países em que já são usados, também do que cada agência aprovou.

Um terceiro sistema, aprovado em 2026

Em 2026, a FDA aprovou o aura6000, da LivaNova. Ele também estimula um lado só e usa dois cortes, mas o eletrodo fica num ponto mais alto do nervo hipoglosso. É o primeiro aprovado nos Estados Unidos sem a exigência da sonoendoscopia antes do implante e sem a restrição para quem tem a garganta fechando em anel durante o sono.

No estudo randomizado que levou à aprovação, publicado em 2026, 58% dos pacientes tratados atingiram a meta de melhora da apneia em sete meses, contra 13,5% no grupo que ainda não recebia o estímulo. Não houve evento grave ligado ao procedimento.

O estimulador funciona? O que mostram os estudos

Funciona, e com bom embasamento científico. Os estudos mostram uma redução muito importante da apneia, que em muitos casos chega a normalizar o índice, e uma grande eficácia sobre o ronco. A melhora aparece no dia a dia e também nos exames do sono, como a polissonografia, junto com um ganho real na qualidade de vida e na qualidade do sono.

No estudo multicêntrico que levou à aprovação do Inspire, com 126 pacientes que não se adaptavam ao CPAP, o índice de apneia caiu 68% em 12 meses, de 29,3 para 9,0 eventos por hora. Quando o aparelho foi desligado em parte dos pacientes, a apneia voltou, o que confirma que a melhora vem do estímulo.

O mesmo grupo foi acompanhado por cinco anos. Entre os que repetiram a polissonografia, 75% continuavam respondendo ao tratamento, e a proporção de pacientes com sonolência normal passou de 33% para 78%. Com o Genio, o estudo inicial mostrou queda do índice de apneia de 23,7 para 12,9 eventos por hora em seis meses, e os parceiros que relatavam ronco muito alto caíram de 96% para 35%.

O resultado varia de pessoa para pessoa, e nem todos chegam à faixa normal. Por isso a seleção do paciente é tão importante.

Quem pode fazer

Nem todo mundo que tem apneia e ronco pode usar o estimulador. Hoje a indicação é bem limitada a quem tinha indicação de CPAP e não conseguiu usá-lo, de modo que o estimulador entra como alternativa ao CPAP. Os critérios habituais são:

  • apneia obstrutiva no mínimo moderada, com índice de apneia e hipopneia acima de 15 eventos por hora na polissonografia;
  • indicação de CPAP sem adaptação ao aparelho;
  • idade acima de 18 anos;
  • índice de massa corporal, o IMC, abaixo de 32 ou de 37, limite que varia um pouco conforme a referência;
  • anatomia compatível na avaliação da garganta durante o sono.

Com IMC acima de 37, e mais ainda acima de 40, a resposta ao estimulador costuma ser fraca, porque nesses casos a apneia tende a ser muito mais complexa. Nos Estados Unidos, o limite aprovado muda conforme o aparelho. O Inspire teve o teto ampliado para IMC de até 40 em 2023, o aura6000 vai até 35 e o Genio até 32.

A avaliação anatômica é feita com a sonoendoscopia, que mostra como a garganta se fecha durante um sono induzido por sedação. Quando ela se fecha por igual em toda a volta, como um anel, no chamado colapso concêntrico, o estimulador da língua não costuma funcionar.

A indicação é tão restrita porque o dispositivo ainda é novo. Na medicina, é comum que uma tecnologia recente comece com uma indicação muito focada, e 11 anos de mercado são pouco tempo. A tendência é que a indicação se amplie à medida que os aparelhos evoluem e a cirurgia fica ainda mais efetiva e segura, já que o estimulador age numa das bases da apneia do sono.

Como é a cirurgia e a ativação do aparelho

O implante é feito por uma cirurgia pequena, com um corte no Genio e dois cortes no Inspire. Nos Estados Unidos, em geral é um procedimento ambulatorial, e a maior parte das pessoas volta às atividades leves em poucos dias, com analgésicos comuns.

O aparelho não é ligado logo depois da cirurgia. A ativação acontece numa consulta de retorno, em geral cerca de um mês depois do implante.

O estímulo é totalmente ajustável. Começa muito fraco e vai aumentando de acordo com a necessidade e a tolerância de cada paciente. Com o estimulador ligado, as avaliações da via respiratória mostram a garganta mais aberta, e o ajuste continua até o ponto ideal, em que o ar passa bem e a pessoa não sente o estímulo incomodar durante a noite. No geral, a adaptação é muito boa, e poucos pacientes sentem algum desconforto pelo estímulo durante o sono.

No dia a dia, o sistema é ligado na hora de dormir. No Inspire, isso é feito com um pequeno controle remoto. No Genio, com a colocação da unidade externa sob o queixo.

A cirurgia é segura?

Sim, a cirurgia se mostrou segura. As complicações descritas foram menores e totalmente reversíveis. Nenhum paciente teve complicação mais grave, e os eventos adversos foram locais. Alguns pacientes sentem desconforto no momento do impulso elétrico. Outros têm pequenas lesões na língua, por causa da contração muscular. Isso não é comum, e o quadro se resolve com a adaptação e o ajuste do equipamento.

Nos acompanhamentos mais longos, uma pequena parte dos pacientes, cerca de 6% em cinco anos no estudo do Inspire, teve eventos ligados ao aparelho que exigiram ajuste do eletrodo ou do próprio dispositivo. É um ponto conversado caso a caso, antes da cirurgia.

O estimulador do hipoglosso já existe no Brasil?

Ainda não para uso regular. No início de 2026, a Anvisa ainda não tinha liberado o dispositivo, e por isso ele não estava disponível no país.

A chegada deve ser uma questão de pouco tempo. A tecnologia já está bem estabelecida nos Estados Unidos e na Europa, e há estudos de longo prazo mostrando eficácia e segurança, o que favorece a liberação pela Anvisa.

Enquanto isso, quem não se adapta ao CPAP tem outras opções, como perda de peso, inclusive com ajuda de medicação, dormir de lado, aparelho intraoral, fonoterapia e cirurgias. A comparação entre elas está na orientação sobre tratamento para ronco e apneia. Na consulta com otorrino na OtoCare, a avaliação do ronco e da apneia mostra quais dessas opções fazem sentido em cada caso.

Vídeo: estimulador do nervo hipoglosso, Inspire e Genio

O vídeo, de janeiro de 2026, mostra como o estimulador age na via respiratória, as diferenças entre o Inspire e o Genio, quem pode usar, a segurança da cirurgia e a situação no Brasil. Depois dele, ainda em 2026, a FDA aprovou um terceiro sistema, o aura6000.

Perguntas frequentes

O estimulador do hipoglosso substitui o CPAP?

Ele é indicado justamente como alternativa para quem precisa do CPAP e não conseguiu usá-lo. Para quem se adapta bem ao CPAP, o aparelho de pressão continua sendo o tratamento de referência. Como o aparelho funciona e como é a adaptação está na orientação sobre o CPAP para apneia do sono.

Quem tem ronco sem apneia ou apneia leve pode colocar?

Pelos critérios atuais, não. O implante é reservado para apneia moderada ou grave. Ronco sem apneia e apneia leve costumam responder a medidas mais simples.

A pessoa sente o estímulo na língua?

Alguns pacientes percebem. É um estímulo de baixa intensidade, que faz a língua avançar, e só acontece com o sistema ligado, durante o sono. Quando incomoda, a intensidade é reajustada.

O estimulador acaba com o ronco?

Na maioria dos casos, o ronco diminui bastante, porque a passagem do ar deixa de estreitar. Segundo o fabricante do Inspire, 9 em cada 10 parceiros de quarto relatam ronco leve ou nenhum ronco com a terapia. O implante, porém, é indicado para tratar a apneia, e não o ronco isolado.

Quanto tempo dura a bateria do estimulador?

No Inspire, a bateria do gerador implantado dura cerca de 10 anos, e a troca é feita num procedimento ambulatorial. No Genio, a unidade externa é recarregada todos os dias, e no aura6000 a recarga é feita a cada dois dias.

Quem tem o estimulador pode fazer ressonância magnética?

Depende do modelo. O Inspire V e o Genio permitem ressonância em aparelhos de 1,5 e 3 tesla, sob condições específicas, enquanto um modelo antigo do Inspire não permite. Para o aura6000 ainda não há essa liberação. Antes de qualquer ressonância, quem tem o implante informa o modelo à equipe do exame.

Criança ou adolescente pode colocar o estimulador?

Em regra, não, porque a indicação é para adultos. Nos Estados Unidos existe uma exceção, aprovada em 2023, para adolescentes a partir de 13 anos com síndrome de Down e apneia grave, que não conseguem usar o CPAP e não podem resolver a apneia com a retirada das amígdalas e da adenoide.

É preciso fazer polissonografia e sonoendoscopia antes do implante?

Em geral, sim. Os dois exames não se excluem, eles se complementam. A polissonografia fecha o diagnóstico e mostra a gravidade da apneia, e a sonoendoscopia mostra o que acontece na via respiratória para causar a apneia e o ronco. Por isso, primeiro vem a polissonografia e depois a sonoendoscopia.

Referências

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