Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O café pode piorar o zumbido em algumas pessoas, não em todas
Muita gente com zumbido já percebeu que, num dia de café demais, o apito no ouvido apareceu ou ficou mais alto. Logo vem a dúvida se é preciso cortar o café de vez. A cafeína pode piorar ou até desencadear o zumbido em quem é sensível a ela, mas não muda nada no zumbido de muitas outras pessoas.
Por isso, a pergunta se quem tem zumbido pode tomar café não tem uma resposta única. A sensibilidade é individual. Em vez de proibir o café para todos, o caminho mais confiável é um teste de restrição de cafeína por duas semanas, explicado passo a passo mais abaixo.
O zumbido é qualquer som percebido em um ou nos dois ouvidos, ou dentro da cabeça, sem nada no ambiente que o produza. Muitas vezes a pessoa nem sabe dizer de onde vem o som, só que ele está ali. Ele pode lembrar um apito, um chiado, um rádio fora de sintonia ou uma panela de pressão. O apito que aparece depois de uma festa com som alto é um exemplo passageiro. Em outras pessoas, o zumbido é contínuo. Seja qual for o som, se não há fonte no ambiente, é zumbido.

O teste não substitui a investigação do zumbido. Zumbido em um ouvido só ou que pulsa no ritmo do coração precisa ser investigado, com ou sem café. Quando o zumbido vem junto com uma perda repentina da audição, ele precisa de avaliação médica sem demora. Os sinais da perda súbita estão na orientação sobre surdez súbita.
O que os estudos dizem sobre cafeína e zumbido?
Estudos novos sobre cafeína e zumbido aparecem o tempo todo, e a literatura continua muito dividida. Há trabalhos em que a cafeína do café piora o zumbido, trabalhos que não encontram relação nenhuma e até trabalhos em que pessoas que tomavam muito café pioraram depois de reduzir. Na literatura há de tudo, da piora à melhora, passando por nenhuma relação.
Os grandes estudos de população apontam, na média, para o lado contrário ao que muita gente imagina. Num acompanhamento de 65 mil enfermeiras nos Estados Unidos, por 18 anos, quem consumia mais cafeína teve menos casos novos de zumbido. Num levantamento nacional da Coreia do Sul, com mais de 13 mil adultos, quem tomava café com mais frequência tinha menos zumbido e menos perda auditiva. Esses estudos mostram associação, não provam que o café proteja o ouvido.
Em quem já tem zumbido, a conversa é outra. Uma revisão sistemática publicada na revista da Fundação Otorrinolaringologia reuniu os estudos disponíveis e concluiu que a evidência ainda é inconclusiva. Ela descreve melhora com a redução da cafeína num grupo de pacientes que tomava de 150 a 300 mL de café por dia. Num ensaio controlado com pessoas com zumbido, a retirada da cafeína não mudou a intensidade do sintoma na média do grupo, e os sintomas da abstinência foram marcantes, a ponto de os autores alertarem que podem somar ao incômodo do zumbido.
Isso não quer dizer que o café seja inofensivo para todos. A cafeína é um estimulante do sistema nervoso, e vários estudos mostram que ela também estimula as vias auditivas. Em algumas pessoas, ela mexe de fato com o sistema auditivo e pode piorar o zumbido. A média de um grupo grande esconde justamente essas pessoas. Até hoje, nenhum estudo comprova de forma definitiva que tirar a cafeína melhora, piora ou não muda o zumbido.
Por que é tão difícil comprovar essa relação?
A primeira razão é prática. Num estudo, é muito difícil ter certeza de que cada participante tirou mesmo toda a cafeína da alimentação, porque ela está em bebidas e alimentos pouco lembrados. O zumbido também oscila por outros motivos, como sono, estresse e exposição a ruído. Com tantas variáveis, uma resposta única para todos dificilmente aparece.
A segunda razão é que os pacientes não reagem todos do mesmo jeito. No acompanhamento de quem tem zumbido, três perfis se repetem:
- quem é sensível à cafeína e percebe o zumbido piorar com o consumo;
- quem não tem relação nenhuma e não nota mudança ao retirar a cafeína;
- quem piora ao parar, em geral depois de um consumo alto e regular.
Por isso, a sensibilidade à cafeína é uma questão individual, e não uma regra que vale para todo mundo com zumbido.
Onde existe cafeína além do café?
Quando se fala em tirar o café, na verdade se fala em tirar a cafeína, e ela não está só no café. Para o teste funcionar, é preciso retirar todas as fontes, não apenas o cafezinho:
- café de qualquer tipo, inclusive expresso, solúvel, cápsulas e café com leite;
- refrigerantes do tipo cola e bebidas energéticas, que muitas vezes trazem também guaraná;
- chocolate e alimentos com cacau;
- chás escuros, como chá preto, chá verde e chá mate, o que inclui chimarrão e tererê, e também o chá de hibisco;
- suplementos alimentares, como pré-treinos e termogênicos;
- alguns remédios vendidos sem receita, como analgésicos para dor de cabeça que trazem cafeína na fórmula.
Alguns chás de hibisco vendidos prontos são misturas com outras ervas, e algumas delas, como chá verde e mate, têm cafeína. Durante as duas semanas, o hibisco também fica de fora. A FDA, agência que regula alimentos e remédios nos Estados Unidos, lembra que a cafeína pode estar em barras de proteína, sorvetes, chicletes, suplementos e remédios sem receita. Confira o rótulo e a bula.
Remédio com cafeína receitado pelo médico não deve ser suspenso por conta própria. Leve a lista dos remédios à consulta, e o teste é ajustado a ela.
Como fazer o teste de restrição de cafeína
O teste é para quem tem zumbido e consome cafeína com regularidade, todos os dias ou quase.
- Retire todas as fontes de cafeína por duas semanas. Café, chocolate, chás escuros, refrigerantes do tipo cola, energéticos e suplementos com cafeína ficam de fora durante todo o período.
- Anote como está o zumbido. Registre no início e ao longo dos dias se ele melhorou, piorou ou continuou igual. O questionário THI ajuda a medir quanto o zumbido atrapalha a rotina antes e depois do teste.
- Avalie o resultado no fim das duas semanas. Não tire conclusões nos primeiros dias.
- Leve as anotações para a consulta na OtoCare. O resultado orienta o que fazer com a cafeína daqui para frente.
Feito direito, com duas semanas sem nenhuma fonte de cafeína, é um teste muito sensível. No fim dele, fica claro se a cafeína atrapalha ou não o zumbido daquela pessoa.
Quem toma muita cafeína pode sentir sintomas de abstinência nos primeiros dias sem ela. Os estudos registram dor de cabeça, cansaço e irritação nesse período. A FDA descreve a abstinência de cafeína como desagradável, mas não perigosa. Esses sintomas costumam passar e podem deixar o zumbido mais incômodo no começo, mais um motivo para julgar o resultado só no fim das duas semanas.
A FDA também sugere que quem quer cortar a cafeína faça isso aos poucos. Para quem consome muito, reduzir de forma gradual nos dias anteriores ao teste é uma possibilidade que pode ser avaliada caso a caso, na consulta.
O que fazer com o resultado do teste?
Se o zumbido melhorou muito ou desapareceu, com certeza existe relação com a cafeína. O ideal é tirá-la do dia a dia, se possível, ou reduzir ao máximo. Muitas pessoas conseguem reintroduzir a cafeína aos pouquinhos, observando o zumbido. Se ele voltar a aumentar, é sinal de exagero, e o consumo deve diminuir de novo até o zumbido ficar sob controle.
Se nada mudou, a cafeína não tem impacto sobre o seu zumbido. O consumo pode ser liberado, com equilíbrio e sem excessos. A cafeína não explica o zumbido nesse caso, e a investigação da causa continua na consulta.
Se o zumbido piorou e continuou pior até o fim do período, leve as anotações à consulta antes de decidir. É o perfil de quem piora ao parar, e a decisão sobre voltar à cafeína é tomada na consulta, junto com as anotações do teste.
Como os estudos não dão uma resposta que sirva para todos, nada substitui esse teste de duas semanas para saber se a cafeína atrapalha o seu zumbido.
A cafeína é apenas um dos hábitos que interferem no zumbido. As outras dicas para aliviar o zumbido no ouvido incluem o sono, que o excesso de cafeína pode atrapalhar, como explicado na orientação sobre como dormir melhor, e o cuidado com o açúcar, que muitas vezes vai junto com o café e aparece também em quem sente tontura depois de comer doce.
Vídeo: café pode causar ou piorar o zumbido?
O vídeo abaixo explica o que é o zumbido, por que os estudos sobre cafeína divergem e como fazer o teste de duas semanas sem cafeína.
Perguntas frequentes
Quem tem zumbido pode tomar café descafeinado?
Pode, mas o descafeinado não é livre de cafeína. Segundo a FDA, uma xícara de cerca de 240 mL de café descafeinado costuma ter de 2 a 15 mg de cafeína, bem menos que o café comum. Durante as duas semanas do teste, o ideal é deixá-lo de fora. Depois, ele pode voltar aos poucos, observando a resposta do zumbido.
Tomar muito café dá zumbido no ouvido?
Em algumas pessoas sensíveis, o excesso de cafeína parece desencadear o zumbido. Na população em geral, porém, o consumo habitual de café não se mostrou fator de risco. Um zumbido novo e que não passa precisa ser investigado, sem colocar a culpa no café antes da avaliação.
Quantas xícaras de café por dia quem tem zumbido pode tomar?
Não existe um número que sirva para todos. Quem não notou mudança no teste pode manter um consumo moderado. Quem melhorou sem cafeína deve evitar ou reduzir ao máximo e, se reintroduzir, achar o próprio limite aos poucos. Para adultos saudáveis em geral, a FDA considera que até 400 mg de cafeína por dia, cerca de duas a três canecas de 350 mL de café coado, não costumam trazer efeitos negativos. Esse limite não foi pensado para o zumbido, e a sensibilidade de cada pessoa pesa mais que ele.
Café com leite ou com açúcar faz diferença para o zumbido?
O leite só suaviza o sabor e não tira a cafeína do café, então no teste o café com leite conta como café. O açúcar é outra questão. O excesso de açúcar e de doces também pode piorar o zumbido em muitos pacientes, e o cafezinho adoçado várias vezes ao dia soma as duas coisas.
Chocolate também piora o zumbido?
O chocolate tem cafeína e por isso entra na lista do teste. Quem é sensível à cafeína pode notar o zumbido mais alto depois de exagerar no chocolate, e o açúcar do chocolate ao leite pesa junto. Quem fez o teste sem nenhuma mudança no zumbido não precisa cortar o chocolate por causa dele.
Energético e refrigerante de cola também contam no teste?
Contam. Pelos valores da FDA, uma lata de 355 mL de refrigerante com cafeína tem de 23 a 83 mg, e a mesma quantidade de energético tem de 41 a 246 mg, a faixa mais alta perto da de uma caneca de café coado. Os dois ficam de fora nas duas semanas e, depois, seguem a mesma regra do café.
Referências
- VILELA, Larissa. Café (cafeína) pode causar ou piorar o zumbido? YouTube, 29 mar. 2025. 1 vídeo (8 min 16 s). Disponível em: https://youtu.be/ZObNipcQVhQ. Acesso em: 3 out. 2026.
- GLICKSMAN, Jordan T.; CURHAN, Sharon G.; CURHAN, Gary C. A prospective study of caffeine intake and risk of incident tinnitus. The American Journal of Medicine, v. 127, n. 8, p. 739-743, 2014. DOI: 10.1016/j.amjmed.2014.02.033. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24608016/. Acesso em: 3 out. 2026.
- ST CLAIRE, Leslie et al. Caffeine abstinence: an ineffective and potentially distressing tinnitus therapy. International Journal of Audiology, v. 49, n. 1, p. 24-29, 2010. DOI: 10.3109/14992020903160884. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20053154/. Acesso em: 3 out. 2026.
- VILELA, Larissa. 7 dicas para melhorar o zumbido. YouTube, 26 set. 2023. 1 vídeo (3 min 8 s). Disponível em: https://youtu.be/mENwp4WXmys. Acesso em: 3 out. 2026.
- LEE, S. Y. et al. Association of coffee consumption with hearing and tinnitus based on a national population-based survey. Nutrients, v. 10, n. 10, 1429, 2018. DOI: 10.3390/nu10101429. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30287741/. Acesso em: 3 out. 2026.
- ALJUAID, S. M. et al. Does caffeine intake increase the incidence of tinnitus? A systematic review. International Archives of Otorhinolaryngology, v. 25, n. 4, p. e628-e632, 2021. DOI: 10.1055/s-0040-1718965. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34737834/. Acesso em: 3 out. 2026.
- TUNKEL, D. E. et al. Clinical practice guideline: tinnitus. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 151, n. 2, supl., p. S1-S40, 2014. DOI: 10.1177/0194599814545325. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25273878/. Acesso em: 3 out. 2026.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Spilling the beans: how much caffeine is too much? Silver Spring: FDA, 28 ago. 2024. Disponível em: https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/spilling-beans-how-much-caffeine-too-much. Acesso em: 3 out. 2026.
Avaliação do zumbido em Brasília
Se o zumbido persiste, com ou sem relação com o café, uma consulta com otorrino em Brasília permite investigar a causa e acompanhar o teste de restrição de cafeína.
A investigação pode incluir a audiometria e a acufenometria, que registra as características do zumbido e permite comparar a evolução. Conheça os exames otorrinolaringológicos e audiológicos realizados na OtoCare.
Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479
Veja todas as orientações aos pacientes da OtoCare.