Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Tontura recorrente ou diária não é normal
Sentir tontura de forma constante, frequente ou todos os dias não deve ser considerado normal. Desequilíbrio ao caminhar, necessidade de apoio para se deslocar ou sensação de que tudo gira ao deitar são sintomas que merecem avaliação, mesmo quando já fazem parte da rotina há muito tempo.
Um episódio leve e eventual ao levantar muito rápido, com duração de poucos segundos e sem sensação de rotação, pode acontecer. O cenário muda quando a tontura se repete, aparece diariamente, limita a caminhada ou traz medo de cair. Nessas situações, é importante investigar a causa em vez de simplesmente se acostumar com o sintoma.

Tontura recorrente não é uma consequência que precisa ser aceita. O diagnóstico correto permite identificar o mecanismo responsável e escolher o tratamento adequado para cada caso.
O que a palavra tontura pode descrever?
A palavra “tontura” é usada para sensações diferentes. Algumas pessoas percebem instabilidade ou desequilíbrio ao caminhar. Outras sentem a cabeça estranha, enjoo ou insegurança para ficar em pé. Quando existe a impressão de que o ambiente ou o próprio corpo está girando, o sintoma recebe o nome de vertigem.
Descrever a sensação com detalhes ajuda a direcionar a avaliação: se tudo gira ou há apenas instabilidade, quanto tempo dura, o que desencadeia o episódio e com que frequência ele aparece. A tontura que começa ao deitar ou virar na cama, por exemplo, tem um padrão diferente daquela que surge somente ao ficar de pé. Conheça também as possíveis causas de tontura ao levantar.
Por que a tontura ao deitar pode ser VPPB?
O vídeo apresenta o caso de uma paciente de 82 anos que procurou atendimento inicialmente por perda auditiva. Durante a conversa, relatou que convivia havia oito anos com tontura. Ao deitar e virar para qualquer um dos lados, sentia tudo rodar por alguns segundos. Também tinha desequilíbrio ao caminhar e evitava andar sem alguém ou sem uma parede por perto.
Como o sintoma se tornou parte da rotina, ela passou a acreditar que fosse apenas consequência da idade e que não existisse tratamento. As manobras diagnósticas mostraram, porém, uma vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) nos canais posteriores dos dois ouvidos.
A VPPB é conhecida popularmente como “tontura dos cristais”. Pequenas partículas do labirinto saem da posição e provocam crises breves de rotação quando a cabeça muda de posição. Veja em detalhes o que acontece quando os cristais do labirinto ficam fora do lugar.
Como a VPPB é confirmada e tratada?
O diagnóstico é feito por meio de avaliação clínica e manobras posicionais. Elas ajudam a reconhecer o padrão da vertigem e a identificar qual lado e qual canal do labirinto estão envolvidos. Não basta apenas sentir tontura ao deitar para concluir, por conta própria, que os cristais saíram do lugar.
Quando a VPPB é confirmada, o tratamento utiliza manobras específicas de reposicionamento para conduzir as partículas de volta à posição correta. No caso apresentado, os dois lados foram tratados. Depois do reposicionamento, a paciente deixou de sentir tontura ao deitar e também melhorou do desequilíbrio e do medo de cair.
A direção da manobra depende do diagnóstico. Por isso, a manobra para VPPB deve ser escolhida conforme o canal afetado, e não reproduzida apenas porque os sintomas parecem semelhantes aos de outra pessoa.
Quais outras causas podem provocar tontura?
Nem toda tontura começa no labirinto. A avaliação otorrinolaringológica procura identificar ou excluir causas vestibulares. Quando o padrão aponta para outra origem, pode ser necessário investigar fatores cardiovasculares, metabólicos ou hormonais e encaminhar o cuidado para outra especialidade. Na infância, as causas e os sinais são outros, e estão reunidos na orientação sobre tontura em crianças: causas, sinais e tratamento.
A forma como o sintoma aparece ajuda a organizar esse caminho. Tontura rotatória desencadeada por movimento da cabeça, desequilíbrio ao caminhar e sensação de desmaio ao levantar não representam necessariamente o mesmo problema e não devem receber automaticamente o mesmo tratamento.
Também não é correto chamar toda tontura de labirintite. A orientação sobre por que nem toda tontura é labirintite explica essa diferença, enquanto a página sobre tontura metabólica ou hormonal apresenta outros caminhos de investigação.
Tontura tem tratamento?
Sim, muitas causas de tontura têm tratamento, mas a escolha depende do diagnóstico. Na VPPB, o reposicionamento dos cristais pode trazer melhora rápida. Em outros quadros, a conduta pode envolver estratégias diferentes. O ponto de partida não é escolher um remédio genérico para tontura, e sim compreender o que está produzindo o sintoma.
Mesmo quando a tontura já dura anos, ainda vale procurar avaliação. Conviver por muito tempo com o problema não transforma o sintoma em algo normal. O caso sobre tontura há anos e VPPB mostra outra situação em que o diagnóstico correto mudou o tratamento depois de um longo período de sintomas.
Qual médico procurar para avaliar tontura?
O otorrinolaringologista pode realizar a avaliação inicial da tontura, examinar o sistema vestibular e investigar causas relacionadas ao labirinto. Conforme os achados, pode indicar exames complementares, como o vHIT, realizar manobras diagnósticas ou orientar a avaliação por outra especialidade quando a origem provável não for vestibular.
Na consulta, relate como a tontura é sentida, quanto tempo cada episódio dura, quais movimentos ou situações a desencadeiam e se há dificuldade para caminhar. Esses detalhes ajudam a diferenciar os padrões e a escolher os próximos passos.
Vídeo: sentir tontura é normal e tem tratamento?
O vídeo abaixo apresenta por que a tontura recorrente não deve ser naturalizada, o caso da paciente que conviveu com VPPB durante oito anos e o papel da avaliação otorrinolaringológica:
Perguntas frequentes
Tontura e vertigem são a mesma coisa?
Não. Tontura é um termo amplo que pode descrever desequilíbrio, sensação de desmaio, instabilidade ou desorientação. Vertigem é um tipo de tontura em que existe falsa sensação de movimento, como se o corpo ou o ambiente estivesse girando.
Uma pessoa pode ter mais de uma causa de tontura?
Sim. Mais de um fator pode participar do mesmo quadro, especialmente quando existem outras doenças ou uso de medicamentos. A avaliação considera o início, a duração, os gatilhos e os sintomas associados para evitar atribuir tudo a uma única causa sem confirmação.
Quando a tontura exige atendimento imediato?
Procure atendimento hospitalar imediato quando a tontura vier acompanhada de dor de cabeça recente ou intensa, dificuldade importante para andar, desmaio ou alterações para enxergar, falar, engolir ou movimentar um braço ou uma perna. Sintomas graves e contínuos, especialmente com vômitos persistentes, também precisam de avaliação urgente.
Referências científicas
- VILELA, Larissa. Sentir tontura é normal? O que pode ser? Tem tratamento? YouTube, 31 jul. 2024. 1 vídeo (5 min 41 s). Disponível em: https://youtu.be/kSqxGimIio8. Acesso em: 15 set. 2026.
- MANUAL MSD. Tontura e vertigem. Versão Saúde para a Família. Revisado em jan. 2025. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-do-ouvido-nariz-e-garganta/sintomas-das-doen%C3%A7as-dos-ouvidos/tontura-e-vertigem. Acesso em: 15 set. 2026.
- BHATTACHARYYA, Neil et al. Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 156, n. 3_suppl, p. S1-S47, 2017. DOI: 10.1177/0194599816689667. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28248602/. Acesso em: 15 set. 2026.
Avaliação de tontura em Brasília
Se a tontura é recorrente, aparece ao deitar, causa desequilíbrio ou limita sua rotina, a avaliação ajuda a identificar o padrão e a definir o tratamento. Na Clínica OtoCare, no Setor Noroeste de Brasília, a consulta com otorrino pode incluir exame do equilíbrio, manobras posicionais e indicação de testes complementares quando necessários.
Veja todas as orientações aos pacientes da OtoCare.