Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O que são os cristais do labirinto e por que eles saem do lugar?
Muita gente conhece a vertigem posicional paroxística benigna, a VPPB, como tontura dos cristais. O apelido tem razão de ser. Essa tontura começa quando pequenos cristais que existem dentro do labirinto, no ouvido interno, saem da posição em que deveriam ficar.
Os cristais são reais. Numa região bem específica do labirinto, chamada mácula utricular, ficam partículas microscópicas de carbonato de cálcio, que os médicos chamam de otólitos ou otocônias. Elas ficam presas sobre uma camada gelatinosa e trabalham pelo equilíbrio. Ajudam o cérebro a saber onde o corpo está no espaço e a perceber quando ele acelera.
Por alguns motivos, essas partículas podem se fragmentar e se desprender. Soltas, migram para outra parte do mesmo labirinto, onde não deveriam estar, e passam a provocar tontura com movimentos que antes não incomodavam. Os cristais fora do lugar estão entre as causas de tontura que o otorrino mais encontra e, segundo o Manual MSD, a VPPB fica mais frequente à medida que a pessoa envelhece.

Tontura que gira por alguns segundos ao virar na cama, deitar ou olhar para cima costuma ser VPPB, causada por cristais do labirinto fora do lugar. Ela tem tratamento, com manobras feitas na consulta, e não com remédio.
O que acontece quando os cristais entram nos canais semicirculares?
São três canais semicirculares em cada ouvido, chamados posterior, lateral (ou horizontal) e anterior (ou superior). Por dentro eles são cheios de líquido e percebem os giros da cabeça. Normalmente, não há cristais dentro deles.
Quando se soltam da mácula, os cristais podem seguir dois caminhos. Podem cair dentro de um canal e ficar boiando no líquido, o que os médicos chamam de canalolitíase. Ou podem grudar na cúpula, a estrutura sensível que fica na ponta do canal, e aí o nome é cupulolitíase.
Com uma partícula no canal, cada movimento da cabeça arrasta o cristal, o cristal empurra o líquido, e o labirinto avisa o cérebro de um giro muito maior do que o real. Segundo o Manual MSD, esse excesso de estímulo nas células sensíveis do canal cria a falsa sensação de que tudo gira. Quando a partícula para, a vertigem também para.
O canal posterior recebe a maior parte dos cristais soltos. Pela posição que ocupa, ele fica no caminho da gravidade, sobretudo durante a noite, quando a pessoa está deitada. O lateral é atingido com menos frequência, e o anterior, raramente. A classificação da Sociedade Bárány, que reúne os critérios internacionais de diagnóstico, separa a VPPB conforme o canal envolvido e conforme os cristais estejam soltos ou presos à cúpula.
Como identificar os sintomas clássicos da VPPB
A tontura da VPPB tem um jeito próprio. Ela gira, chega de repente e dura poucos segundos. Os movimentos que a disparam são os do dia a dia.
- deitar na cama ou sair dela;
- rolar na cama para o outro lado;
- erguer o rosto para o alto, como ao pegar algo numa prateleira;
- inclinar a cabeça para a frente, como ao amarrar o sapato.
Quando a cabeça fica parada, a tontura passa, em geral em menos de um minuto. Enjoo e vômito podem aparecer, e durante a vertigem os olhos fazem um movimento rápido e involuntário, o nistagmo. Muitas crises acontecem logo cedo, quando a pessoa vira a cabeça no travesseiro ao acordar.
A audição fica de fora. Segundo o Manual MSD, a VPPB não traz perda auditiva nem zumbido. Sem tratamento, as crises podem continuar por semanas ou meses e, em algumas pessoas, por muito mais tempo, como mostra a orientação sobre tontura há anos pode ser VPPB não tratada.
Quais são as causas e fatores de risco para os cristais se soltarem?
Muitas vezes não existe um motivo identificável. Os cristais simplesmente se soltam, e essa forma recebe o nome de idiopática. Com o passar dos anos, as partículas também ficam mais sujeitas a se fragmentar e se desprender.
Batidas fortes na cabeça, em quedas ou acidentes, aparecem com frequência na história de quem tem VPPB, porque o impacto pode tirar os cristais do lugar. A orientação sobre tontura após traumatismo craniano trata desse caso.
Alterações metabólicas e hormonais também entram na lista. O labirinto é muito sensível ao que acontece no resto do corpo, como as subidas da glicose e da insulina, e esses desequilíbrios favorecem a VPPB, inclusive a que volta. A relação está na orientação sobre tontura metabólica ou hormonal. O Manual MSD acrescenta a pressão alta, o diabetes e o colesterol alto.
Como os cristais são feitos de carbonato de cálcio, a osteoporose e a osteopenia, que são a perda de massa dos ossos, estão entre as causas. A vitamina D baixa, ligada à saúde dos ossos, pesa sobretudo nas crises que se repetem, assunto da orientação a VPPB pode voltar?.
Doenças vasculares e cirurgias completam a lista. Uma cirurgia no ouvido pode soltar os cristais, e uma cirurgia em outra parte do corpo também. O Manual MSD lembra que ficar muito tempo imóvel, sob anestesia ou de repouso na cama, favorece a VPPB, e cita ainda as infecções do ouvido e outras doenças do ouvido interno. A orientação sobre a neurite vestibular mostra que ela também pode ser seguida de VPPB.
Cristais fora do lugar são a mesma coisa que labirintite?
Não. Labirintite virou nome popular para quase toda tontura, mas a VPPB não é uma inflamação. É um problema mecânico, de partículas no lugar errado, e por isso o tratamento também é mecânico. A orientação toda tontura é labirintite? explica de onde vem essa confusão.
As outras doenças do labirinto se comportam de outro jeito. Na labirintite verdadeira, a vertigem forte chega junto com perda súbita da audição. Na neurite vestibular, a vertigem é súbita, forte e dura dias, sem perda de audição. Na doença de Ménière, as crises duram bem mais que segundos e vêm acompanhadas de zumbido, pressão no ouvido e perda de audição. A enxaqueca vestibular costuma vir com dor de cabeça ou incômodo com luz e barulho.
Também confunde a tontura de quem só se sente mal ao ficar de pé. Ela costuma vir da pressão que cai ao levantar e não aparece ao virar na cama, deitado, como mostra a orientação sobre tontura ao levantar. Na VPPB, o que dispara a crise é a posição da cabeça, inclusive com a pessoa deitada.
Como é feito o diagnóstico e o reposicionamento com o médico otorrino
A VPPB é diagnosticada no próprio consultório, pela avaliação clínica. A história já levanta a suspeita, e a confirmação vem dos testes de posição na maca. O médico leva a cabeça e o corpo da pessoa a posições específicas e observa os olhos, que mostram se o cristal está fora do lugar.
Primeiro vêm os canais laterais. A pessoa deita de barriga para cima, com a cabeça um pouco elevada e solta nas mãos do médico, que a gira para um lado e depois para o outro. Em seguida, os canais posteriores, onde está a maioria dos casos. A pessoa sai de sentada para deitada, com o rosto girado para um dos lados e a cabeça pendente para fora da maca, no teste de Dix-Hallpike, recomendado pela diretriz americana de VPPB para esse canal.
Durante os testes os olhos ficam bem abertos. Se a tontura vier, ela era esperada e passa depois de alguns segundos, com a pessoa amparada na maca, sem risco de cair. Quando existe VPPB, a posição que mexe com o canal afetado desperta o nistagmo, e o sentido em que os olhos batem revela ao médico qual canal foi atingido e de que lado. O nistagmo faz parte da VPPB, mas não é exclusivo dela, e outras doenças também o provocam.
Com a história e o teste típicos, a diretriz americana desaconselha pedir exames de imagem ou testes do labirinto. O vHIT, feito na OtoCare, avalia como os canais semicirculares funcionam e entra quando a suspeita é de outra doença do labirinto, mas não substitui o teste na maca para os cristais.
Como os cristais voltam para o lugar?
Confirmado o canal, o tratamento é a manobra de reposicionamento. Ela é uma sequência de posições do corpo e da cabeça, e a gravidade leva os cristais para fora do canal, de volta à região de onde saíram. Cada canal e cada lado têm a sua manobra. A de Epley, a mais conhecida, serve para o canal posterior.
Na OtoCare, se o teste confirma a VPPB e nada contraindica o procedimento, a manobra é feita no mesmo atendimento. A página sobre a manobra para VPPB em Brasília descreve essa consulta. O procedimento é simples e feito na maca. Em cada posição, a pessoa espera cerca de 30 segundos, o tempo de a tontura passar.
Na maioria das pessoas, uma manobra resolve. Quando muitos cristais se soltaram, quando há mais de um canal envolvido ou quando uma partícula ficou presa, outras sessões completam o tratamento, como explica a orientação sobre quantas manobras a VPPB pode precisar.
Depois da manobra do canal posterior, não é preciso dormir sentado nem manter a cabeça imóvel, e a diretriz americana desaconselha essas restrições. Nos primeiros dias pode ficar uma impressão de flutuar, porque o cérebro ainda está se ajustando ao sinal certo que o labirinto voltou a mandar. Levantar devagar e com apoio, sem movimentos bruscos, diminui o risco de queda nesse período.
Por que você não deve tentar fazer a manobra em casa por vídeos da internet
Não é difícil achar na internet vídeos que ensinam a manobra para fazer sozinho. A recomendação é não fazer. Feita em casa, a manobra pode piorar a situação, e o caminho é procurar o otorrino.
Os cristais podem estar em seis lugares diferentes, três canais em cada ouvido, e cada lugar pede um movimento diferente. Sem o teste, ninguém sabe qual escolher. Mesmo a manobra certa pode se complicar, porque no meio dela os cristais às vezes passam para o canal lateral, que dá uma tontura bem mais violenta e pede outra manobra, totalmente diferente. Sozinho, ninguém resolve uma complicação dessas, e ela ainda pode atrapalhar a manobra feita depois no consultório. A orientação sobre a manobra de Epley em casa conta um caso real em que isso aconteceu.
Remédio para labirintite coloca os cristais no lugar?
Não. Os cristais estão num lugar errado, e nenhum comprimido os move de volta. A solução da VPPB é mecânica.
Os remédios mais usados contra tontura, como o dimenidrinato e a meclizina, agem reduzindo a atividade do labirinto e por isso se chamam supressores vestibulares. Servem para aliviar uma crise muito forte, por poucos dias, mas não tocam na causa. Tomados por semanas, meses ou anos, deixam o labirinto funcionando menos e produzem uma tontura de instabilidade, de cabeça aérea, que se soma à VPPB. A diretriz americana recomenda não tratar a VPPB de rotina com esses remédios, e a orientação remédio para tontura pode piorar detalha o problema.
A betaistina, usada em outros diagnósticos do labirinto, também não reposiciona os cristais e não substitui a manobra. Para os cuidados gerais enquanto a crise não passa, como cortar a cafeína e evitar giros bruscos da cabeça, veja o que fazer numa crise de tontura aguda.
Cristais do labirinto fora do lugar têm cura?
Têm. A VPPB tem cura com as manobras, sem remédio e sem cirurgia. Vale também para quem convive com a tontura há anos, até depois de um trauma grave na cabeça, e nesses casos a manobra certa costuma trazer uma melhora grande. Tontura tem diagnóstico e tem tratamento.
Curar a crise não impede que, no futuro, outros cristais se soltem. A maioria das pessoas não volta a ter VPPB, e quem tem uma nova crise trata da mesma forma, com novo teste e nova manobra. Crises que se repetem muito pedem investigação da causa, assunto da orientação sobre a volta da VPPB.
Quem sente o mundo girar ao virar na cama, deitar ou olhar para cima não precisa esperar a tontura ir embora sozinha. A consulta com otorrino confirma ou afasta a VPPB, mostra o canal envolvido e já permite tratar. Ajuda chegar sabendo em quais movimentos a tontura aparece, quanto tempo ela dura, desde quando existe e se houve pancada na cabeça ou cirurgia recente.
Quando a tontura não combina com os cristais?
Na VPPB, o nistagmo do teste aparece depois de alguns segundos, diminui e some, e fica mais fraco quando a posição é repetida. Segundo o Manual MSD, numa doença do cérebro, como um derrame, a tontura vem logo, continua enquanto a cabeça fica parada na posição e não enfraquece com a repetição. Essa diferença é uma das razões de o teste na maca ser feito por quem sabe interpretá-lo.
Alguns sinais não combinam com cristais fora do lugar. O Manual MSD aponta como motivo de preocupação a tontura acompanhada de dor de cabeça intensa ou recente, desmaio, dor no pescoço, um andar que ficou difícil de repente, problemas novos de visão, de audição, de fala ou para engolir e dificuldade para movimentar um dos braços ou uma das pernas. Se algum deles aparecer, é caso de avaliação médica sem demora.
Vídeo: tontura por cristais que saem da posição (VPPB)
No vídeo abaixo, a explicação parte de um modelo do labirinto para mostrar onde ficam os cristais, por que eles se soltam, quais são as causas da VPPB e como o diagnóstico e a manobra são feitos no consultório.
Perguntas frequentes
Os cristais do labirinto voltam sozinhos para o lugar?
Podem. Segundo o Manual MSD, a VPPB muitas vezes desaparece sozinha, depois de semanas ou meses de crises que vão ficando mais fracas. Até lá, cada virada na cama pode trazer a vertigem de volta, e o risco de cair continua. Com a manobra certa, a melhora costuma ser bem mais rápida.
VPPB é grave?
Não ameaça a vida. A palavra benigna no nome quer dizer justamente que o problema, em si, não é perigoso. Os sintomas, porém, podem levar a quedas, principalmente nos mais velhos, e a acidentes quando a crise chega numa situação de risco, como ao dirigir. Por isso a tontura posicional merece tratamento, e não só paciência.
Qual médico trata os cristais do labirinto?
O otorrinolaringologista, de preferência com experiência nas manobras. Ele confirma o diagnóstico com os testes de posição, escolhe a manobra do canal envolvido e está preparado para resolver uma complicação, como a passagem dos cristais para outro canal. Na OtoCare, o teste na maca faz parte da consulta, e a manobra vem em seguida quando o diagnóstico se confirma.
VPPB é central ou periférica?
Periférica. A VPPB nasce no ouvido interno, no labirinto, e não no cérebro. As tonturas chamadas centrais vêm de problemas no tronco cerebral ou no cerebelo, como um derrame, e têm outro comportamento no teste na maca.
Otólitos e otocônias são a mesma coisa?
Sim, no uso do dia a dia. Otólitos e otocônias são nomes para os mesmos cristais de carbonato de cálcio que ficam no labirinto. Quando estão soltos dentro de um canal semicircular, o Manual MSD também os chama de canalitos.
Qual é o CID da VPPB?
Na CID-10, a VPPB fica no código H81.1, vertigem paroxística benigna, dentro do grupo dos transtornos da função vestibular. O código é registrado pelo médico depois de confirmado o diagnóstico.
VPPB deixa o ouvido entupido?
Não costuma. A VPPB mexe com o equilíbrio, e não com a audição, e o Manual MSD descreve o quadro sem perda auditiva e sem zumbido. Ouvido entupido junto de crises de tontura, com zumbido ou piora da audição, lembra mais a doença de Ménière, e nesse caso a audiometria entra na investigação.
VPPB pode ser causada por estresse?
O estresse não aparece na lista de causas da VPPB do Manual MSD. O que pode acontecer é outra coisa. Depois de uma VPPB, ou de um período de muita angústia, parte das pessoas passa a sentir uma instabilidade quase diária, sem giro, que dura meses. Os critérios da Sociedade Bárány citam as doenças do labirinto e o sofrimento emocional entre os gatilhos desse quadro, a tontura postural perceptual persistente.
Referências
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Avaliação e tratamento de VPPB em Brasília
Quem acorda com o quarto rodando ao virar de lado, ou sente tontura ao abaixar a cabeça, não precisa conviver com isso. Muitas vezes a causa são os cristais do labirinto fora do lugar, que têm tratamento sem remédio de uso contínuo.
Na Clínica OtoCare, no Noroeste, em Brasília, a consulta com otorrino avalia a tontura pela história e pelos testes de posição na maca. Quando a VPPB é confirmada e não há impedimento, a manobra de reposicionamento é feita no próprio atendimento. Agende sua consulta.
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