Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Por que um ouvido bom não resolve
Quem tem perda auditiva em um ouvido só sofre algumas dificuldades bem características no dia a dia. Elas existem mesmo quando o outro ouvido é perfeito e escuta tudo muito bem. Com os dois ouvidos, o cérebro compara o que chega de cada lado. Assim ele descobre de onde vem o som e consegue separar a conversa do barulho ao redor.

Ouvir só de um lado traz dificuldades reais, mesmo com o outro ouvido normal. As principais são localizar de onde vem o som e compreender a conversa em lugares barulhentos.
Por muito tempo, quem perdia toda a audição de um lado era visto como alguém que se ajustava bem. A criança desenvolvia a fala, e o adulto convivia com quem ouve dos dois lados sem grandes queixas. Hoje se percebe que essas pessoas têm muitas dificuldades no dia a dia, e o tema passou a ser discutido nos congressos de otorrinolaringologia, junto com as formas de ajudar.
A surdez unilateral costuma passar despercebida por anos, principalmente nas crianças. Com o ouvido bom, elas entendem bem a fala num lugar silencioso, e muitas vezes a família e a escola acham que a audição está normal. As dificuldades aparecem na rua, na sala de aula, na reunião e na festa.
Na visão, todo mundo entende que perder um olho atrapalha. Na audição, a dificuldade não aparece à vista e costuma ser subestimada. Os estudos mostram que o prejuízo no dia a dia e na qualidade de vida causado pela perda de um lado pode ser parecido com o de quem tem perda nos dois ouvidos, ou até maior.
O que é surdez unilateral
Surdez unilateral, ou perda auditiva unilateral, é a diminuição da audição de um lado só. O outro ouvido escuta normalmente ou quase. A perda pode ser de qualquer grau, da leve à total, e pode existir desde o nascimento ou surgir ao longo da vida, aos poucos ou de repente.
Nos estudos, o nome surdez unilateral total costuma incluir a perda severa ou profunda de um lado, em que o aparelho auditivo comum já não ajuda aquele ouvido. A diferença entre perda profunda e perda total, que pesa na lei, está na orientação sobre surdez unilateral profunda e PCD.
A perda de um lado também pode ser condutiva, quando o som é barrado antes de chegar à orelha interna, neurossensorial, quando o problema fica na cóclea ou no nervo auditivo, ou mista. O exame mostra qual é o tipo, como explica a orientação sobre tipos de perda auditiva.
Sinais de que um ouvido escuta menos
Os sinais mais típicos da surdez unilateral são as próprias dificuldades descritas nas seções seguintes. Outros sinais também chamam a atenção.
- Não perceber quando alguém fala do lado do ouvido com perda.
- Virar a cabeça ou trocar de lugar para que o ouvido que escuta fique do lado de quem está falando.
- Parecer distraído ou desatento, principalmente na criança.
- Zumbido no ouvido que escuta menos.
Dificuldade de saber de onde vem o som
Uma das razões de termos dois ouvidos é localizar de onde vem o som. Quando alguém fala à esquerda, o som chega primeiro ao ouvido esquerdo e, uma fração mínima de segundo depois, ao direito. Esse pequeno intervalo mostra ao cérebro de que lado está a fonte do som, sem precisar olhar.
O som também chega um pouco mais forte ao ouvido mais próximo, porque a própria cabeça abafa o que vai para o outro lado. A diferença de tempo e a diferença de intensidade, juntas, tornam a localização pelo som rápida e muito precisa em quem ouve dos dois lados.
Quando um ouvido perde a audição, essa diferença mínima entre os dois lados deixa de existir, e o cérebro fica um pouco perdido. Na prática, isso aparece em cenas do dia a dia.
- Na mesa de reunião, com várias pessoas falando, fica difícil identificar quem começou a falar.
- Na rua, muitas vezes a pessoa não sabe direito de que lado vem o carro apenas pela audição.
- Em casa ou no trabalho, quando alguém chama de longe, ela procura de onde veio a voz.
Essa é uma das características mais importantes da surdez unilateral. Com o tempo, parte das pessoas aprende a usar outras pistas, como o volume do som, e consegue apontar a direção de forma aproximada, sobretudo dos sons que chegam pelo lado que ouve. A precisão, porém, não volta a ser a de quem ouve dos dois lados, e em lugares com muitos sons essas pistas não bastam.
Dificuldade de entender no barulho
A outra dificuldade aparece em ambientes com muito ruído, com várias pessoas falando ou vários sons ao mesmo tempo. Numa festa, com música tocando e muitas conversas, quem ouve de um lado só costuma ter dificuldade para entender bem a fala de quem está ao lado. Num escritório cheio de gente, o barulho pode atrapalhar do mesmo jeito o entendimento no trabalho.
Ouvir com os dois ouvidos traz três vantagens, e todas se perdem juntas.
| Vantagem de ouvir dos dois lados | O que ela faz |
|---|---|
| Sombra da cabeça | A cabeça funciona como barreira. Com dois ouvidos, um deles sempre fica do lado da voz que interessa. Com um só, a voz que vem do lado surdo precisa contornar a cabeça e chega mais fraca ao ouvido bom. |
| Separação do ruído | O cérebro compara o que chega aos dois ouvidos e abafa parte do barulho de fundo, o que destaca a fala. Com uma entrada só, não há o que comparar. |
| Somação | O mesmo som, captado pelos dois lados, parece mais alto e mais claro do que quando chega por um lado só. |
A sombra da cabeça pesa mais nos sons agudos, que podem perder 20 dB ou mais até chegar ao ouvido do outro lado. Muitos sons que diferenciam uma palavra de outra, como o do s, são agudos. Quando a fala vem do lado surdo, palavras parecidas ficam confusas, mesmo que a pessoa perceba que alguém falou. Somadas, as vantagens de ouvir dos dois lados valem de 4 a 10 dB a favor da fala em lugares barulhentos.
Por isso, a pessoa entende bem no silêncio, cara a cara, e mal no barulho.
O cansaço de ouvir com um ouvido só
Existe um terceiro efeito, menos visível, o esforço. Sem as pistas dos dois lados, o cérebro precisa trabalhar mais para acompanhar a conversa. A pessoa presta atenção redobrada e completa pelo contexto o que não ouviu.
Esse esforço constante leva ao cansaço auditivo no fim do dia de aula ou de trabalho. Os estudos descrevem esse cansaço em adultos e também em crianças.
No trabalho, esse desgaste se soma às dificuldades nas reuniões e no barulho, e o rendimento pode cair. As revisões sobre o tema apontam também menos oportunidades de emprego e pior qualidade de vida, ligadas a essas dificuldades.
Na escola, o impacto é medido
Na sala de aula, com muitos colegas falando ao mesmo tempo, a criança com surdez unilateral pode ter dificuldade para entender a professora, escutar os comandos e acompanhar as lições. Como consequência, pode ter dificuldade de aprendizado.
A ideia de que a criança com um ouvido normal acompanha a turma sem prejuízo não se sustenta nos estudos. Numa revisão de 2004, que reuniu as pesquisas publicadas até então, de 22% a 35% das crianças com perda unilateral tinham repetido pelo menos um ano escolar, e de 12% a 41% recebiam apoio educacional extra. Atraso de fala e linguagem apareceu em parte dos estudos, mas não em todos.
Nem toda criança é afetada da mesma forma, e algumas se adaptam bem a ouvir de um lado só. Saber quais crianças vão precisar de mais ajuda ainda é uma pergunta em aberto nos estudos.
Medidas simples ajudam muito. A Sociedade Brasileira de Otologia recomenda que a criança com surdez unilateral sente perto da professora, com o ouvido bom voltado para ela, de preferência numa sala com bom isolamento do barulho. De que lado da sala sentar e outras formas de facilitar a conversa estão na orientação sobre como se comunicar com pessoas com perda auditiva. Numa revisão de 2017, os sistemas de microfone sem fio, que levam a voz da professora direto ao ouvido do aluno, foram os que mais ajudaram a entender a fala no barulho.
O grau da perda muda o tamanho da dificuldade
A surdez unilateral pode ser leve, moderada, severa, profunda ou completa, sem nenhum resíduo de audição. As dificuldades de localizar o som e de entender no barulho estão presentes em praticamente todos esses graus. O que muda é a intensidade, maior nos graus mais avançados.
Na perda leve de um lado, a dificuldade costuma ser pequena. Conforme a audição daquele ouvido piora, as dificuldades se acentuam, e a pessoa passa a ter mais limitação no dia a dia para localizar a fonte do som e compreender a fala. Como cada grau é definido está na orientação sobre graus de surdez.
O grau é medido pela audiometria. Em bebês e crianças pequenas, que ainda não respondem ao exame convencional, o BERA mede a resposta do nervo auditivo e confirma a perda. O grau e o lado afetado ficam registrados por escrito no laudo de surdez.
Como facilitar o dia a dia com a surdez unilateral
Algumas atitudes simples reduzem as dificuldades. A principal é manter o lado que escuta na direção da pessoa que está falando, à mesa, na sala de aula e nas reuniões, de preferência perto da pessoa. Diminuir o barulho do ambiente também ajuda, porque no ruído a compreensão cai mais.
Na rua, como a audição não mostra com segurança de onde vem o carro, olhar para os dois lados antes de atravessar ganha ainda mais importância.
Quando a perda de um lado não pode esperar
Quando a audição de um ouvido cai de repente, de um dia para o outro ou em poucos dias, não dá para esperar. Pode ser uma surdez súbita, que tem tratamento com prazo, e o resultado costuma ser melhor quando o tratamento começa cedo. Ao agendar pelo WhatsApp, conte que a audição caiu de repente, para receber atendimento prioritário na OtoCare.
O teste caseiro para surdez súbita, o teste do hum, dá uma pista para separar uma rolha de cera ou um ouvido tampado na gripe de uma possível surdez súbita, mas não substitui o exame.
A surdez unilateral que existe há anos não tem essa pressa, mas a causa merece investigação.
O que pode causar a surdez unilateral
As causas da surdez de um lado são muitas. Entre as mais citadas estão infecções, trauma no osso temporal, onde fica a orelha, doença de Ménière, alterações da orelha interna, problemas de circulação e doenças autoimunes. Em muitos casos, nenhuma causa é encontrada.
Na criança que nasce com a perda, as causas principais são a falta de desenvolvimento do nervo auditivo e a infecção pelo citomegalovírus na gestação. A caxumba também aparece entre as causas da surdez de um lado na criança.
Mais raramente, a perda vem de um tumor benigno do nervo, o neurinoma vestibular (schwannoma). Por isso a perda que atinge um ouvido só, ou que é bem pior de um lado, precisa ser investigada. Quando ela vem com zumbido, a relação entre audição e zumbido está explicada em aparelho auditivo ajuda no zumbido.
Tem tratamento? Depende da causa e do grau
Quando a perda vem de algo que barra a passagem do som, como cera obstruindo o canal, secreção na orelha média ou perfuração do tímpano, tratar a causa pode devolver a audição daquele lado. Quando a lesão é definitiva, na cóclea ou no nervo auditivo, não há como regenerar a estrutura, e o objetivo passa a ser levar ao cérebro o som que chega pelo lado surdo.
Na perda total de um lado existem hoje três caminhos, o sistema CROS, as próteses de condução óssea e o implante coclear. A escolha depende da causa, do grau, da idade e do quanto o dia a dia está prejudicado. Como cada um funciona e quando é indicado está no guia sobre tratamento da surdez unilateral. O modelo de condução óssea preso à haste dos óculos tem orientação própria, sobre o óculos com aparelho auditivo.
Na consulta da OtoCare, a otoscopia e a audiometria mostram que tipo de perda existe e qual é o grau, ajudam a investigar a causa e apontam o caminho de cada caso. A indicação do implante coclear é avaliada na consulta.
O ouvido bom também merece cuidado, porque com os anos ele também pode perder audição, como explica a orientação sobre surdez com a idade.
Surdez unilateral dá direito de PCD?
Depende do grau. Desde o fim de 2023, a lei federal reconhece como deficiência auditiva a surdez total em um ouvido. Ficam de fora as perdas leves, moderadas ou severas em um ouvido, mesmo quando atrapalham bastante. A perda profunda tem uma leitura própria, explicada na orientação sobre perda unilateral profunda e PCD. Quem se enquadra, o que muda no Distrito Federal e quais direitos passam a valer estão na orientação sobre se a surdez unilateral é considerada PCD. O critério das frequências para perdas nos dois ouvidos está na orientação sobre o cálculo do PCD auditivo, e a calculadora de PCD auditivo faz a média da sua audiometria.
Vídeo: as dificuldades da surdez unilateral
O vídeo abaixo explica, em cerca de cinco minutos, por que localizar o som e entender no barulho dependem dos dois ouvidos e como o grau da perda muda o tamanho dessas dificuldades.
Perguntas frequentes
Surdez unilateral é doença grave?
A surdez unilateral não é uma doença em si. Ela é a consequência de uma alteração em um ouvido, que pode ter muitas causas. Algumas pedem atenção rápida, como a surdez súbita, que tem tratamento com prazo, e outras precisam ser investigadas, como o neurinoma vestibular, um tumor benigno. Qualquer que seja a causa, as dificuldades para ouvir são reais e merecem cuidado.
Surdez unilateral pode ser temporária?
Pode. A rolha de cera e o ouvido tampado na gripe abafam a audição de um lado de forma passageira, e ela volta quando a causa é resolvida. Na surdez súbita, o tratamento feito cedo pode trazer de volta parte ou toda a audição. Já a perda que vem de uma lesão antiga da cóclea ou do nervo costuma ser permanente.
Qual a diferença entre surdez unilateral e bilateral?
Na surdez unilateral, a perda atinge um ouvido só, e o outro escuta normalmente. Na bilateral, os dois ouvidos perdem audição, às vezes em graus diferentes. Quando a diferença entre os lados é grande, a pessoa passa a depender do ouvido melhor, e as dificuldades se parecem com as da surdez unilateral. O laudo informa o grau de cada ouvido.
Surdez unilateral com zumbido: o que pode ser?
O zumbido no ouvido que escuta menos pode acompanhar a perda. Quando os dois aparecem de repente, a hipótese de surdez súbita precisa ser avaliada logo. Quando surgem aos poucos em um lado só, a investigação inclui o neurinoma vestibular.
Surdez de um ouvido com tontura: o que pode ser?
Quando a audição de um lado cai junto com tontura, a orelha interna, que também cuida do equilíbrio, pode estar envolvida. Isso acontece, por exemplo, na surdez súbita e na doença de Ménière, em que a tontura vem em crises e a audição oscila. Se a perda e a tontura começaram de repente, agende pelo WhatsApp e conte os dois sintomas, para que a consulta seja marcada com prioridade.
A surdez de um ouvido pode passar para o outro?
Em parte dos casos, sim. Numa revisão de 2018 sobre crianças com perda de um lado de grau leve a severo, a perda do ouvido pior pode progredir em até 40% delas, e o risco de passar a ter perda nos dois ouvidos chega perto de 20%. Por isso o outro ouvido é acompanhado com audiometrias ao longo do tempo.
Criança com surdez unilateral precisa de acompanhamento?
Precisa. A Sociedade Brasileira de Otologia recomenda identificar a perda o mais cedo possível, avaliar a fala logo no começo e repetir a avaliação da audição com regularidade. No adulto com perda leve em um ouvido e audição normal no outro, o aparelho costuma trazer pouco ganho e em geral não é usado. Na criança, a conduta é diferente, e até a perda leve de um ouvido já pode levar à indicação do aparelho auditivo. As adaptações na sala de aula vêm junto, e cada tratamento é discutido caso a caso.
Qual é o termo técnico para surdez em um ouvido?
O nome técnico é perda auditiva unilateral, também chamada de surdez unilateral. Quando o ouvido afetado não escuta nada, os médicos falam em anacusia unilateral. Nos estudos em inglês, o termo mais usado é single-sided deafness, às vezes abreviado como SSD.
Referências
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Avaliação da audição em Brasília
Ouvir de um lado só tem explicação, tem grau e tem conduta. Na consulta com otorrino em Brasília, o ouvido é examinado e a causa é investigada. A audiometria é feita em cabina acústica, no Setor Noroeste, e mostra o grau da perda em cada ouvido. Os outros exames auditivos na OtoCare completam a avaliação quando indicados.
Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479
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