Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Sim: a apneia pode aumentar a pressão e favorecer arritmias
Muita gente descobre a apneia do sono por causa do coração. A pessoa faz um check-up, o exame da pressão ou dos batimentos mostra uma alteração característica e o cardiologista encaminha para o otorrino investigar o sono. Esse tipo de encaminhamento tem sido muito comum no consultório.
A apneia do sono pode, sim, ser uma causa importante de aumento da pressão arterial e de arritmias cardíacas, principalmente durante o sono. Por isso, quem ronca e está com alguma alteração na pressão ou no ritmo do coração deve investigar se não está tendo apneia.

Pressão alta e arritmia não confirmam apneia sozinhas. Elas são pistas. A suspeita fica mais forte quando aparecem junto de ronco, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, engasgos durante a noite, sono que não descansa ou sonolência durante o dia.
O que acontece com o coração durante uma pausa respiratória
A apneia do sono é uma dificuldade de respirar ao longo da noite. A via respiratória estreita, o ar passa com mais dificuldade e chega um ponto em que a respiração para. Essas pausas se prolongam, e a oxigenação do sangue cai.
O organismo responde com uma descarga de hormônios adrenérgicos, da família da adrenalina. A frequência cardíaca aumenta e a pressão arterial sobe. Tudo isso é consequência da parada da respiração durante o sono, e o ciclo se repete a cada nova pausa.
Na apneia obstrutiva, o peito continua fazendo força para puxar o ar contra a garganta fechada. Segundo a American Heart Association, essa pressão negativa dentro do tórax, a falta de oxigênio, o acúmulo de gás carbônico e os despertares curtos, que a pessoa nem percebe, mexem com o coração várias vezes por noite e criam um terreno favorável às arritmias.
A diferença entre ronco, hipopneia e apneia e a forma como o diagnóstico é fechado estão na orientação sobre apneia do sono.
A apneia do sono causa pressão alta também durante o dia?
Os picos de pressão começam à noite, mas o efeito não fica só no sono. Um estudo que acompanhou 709 adultos nos Estados Unidos por quatro anos mostrou que quem tinha mais pausas respiratórias no início tinha mais chance de estar com pressão alta no fim do acompanhamento. Quanto mais grave a apneia, maior foi o risco. Nas formas moderada e grave, a chance chegou a quase três vezes a de quem não tinha pausas.
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 coloca a apneia obstrutiva do sono entre as causas secundárias de pressão alta, aquelas em que outra doença ajuda a elevar a pressão. Na hipertensão resistente, a pressão que continua alta mesmo com vários remédios, a diretriz recomenda investigar a apneia, porque ela pode estar presente em até 80% desses pacientes.
Nem toda pessoa com apneia tem pressão alta, e nem toda pressão alta vem da apneia. Quando as duas aparecem juntas, a apneia passa a ser mais uma causa a tratar.
Por que a pressão deveria cair durante o sono
Quando a pessoa dorme, o corpo tende a se acalmar e relaxar. A frequência cardíaca fica mais baixa e a pressão arterial também cai. Essa queda natural se chama descenso noturno da pressão. Nos estudos, o padrão considerado normal é uma queda de pelo menos 10% da pressão média da noite em relação à do dia.
Na apneia, cada pausa respiratória volta a acelerar o organismo. A pressão pode ter picos durante a noite ou simplesmente deixar de cair. O laudo descreve então um padrão sem descenso noturno, chamado em inglês de non-dipper.
Esse padrão não é exclusivo da apneia e não fecha o diagnóstico sozinho. Ele mostra que vale olhar para o sono, principalmente quando a pessoa ronca.
O que o MAPA pode mostrar
O MAPA é a monitorização ambulatorial da pressão arterial. Um aparelho preso ao braço mede a pressão várias vezes ao longo de 24 horas, inclusive enquanto a pessoa dorme. Para o período do sono, a diretriz brasileira considera adequada uma média abaixo de 120 por 70 mmHg, mais baixa do que a aceita para as horas em que a pessoa está acordada.
No consultório de otorrino, um caso típico começa com um paciente que procurou o cardiologista porque a pressão começou a ficar mais alta. No MAPA, a pressão só aumentava na hora do sono. Além dos picos à noite, ela também não tinha a queda natural esperada. Essa alteração é muito característica de quem tem apneia, e o paciente foi encaminhado para investigar o sono.
Picos de pressão durante o sono ou a falta da queda noturna levantam a suspeita de algum grau de apneia. O MAPA, porém, mede a pressão e não registra as pausas respiratórias. Por isso, o resultado precisa ser relacionado aos sintomas e, quando indicado, a um exame do sono.
Arritmia no Holter também pode ser uma pista
O Holter acompanha os batimentos do coração ao longo do dia e da noite. Quando ele mostra arritmias, principalmente no período do sono, a apneia do sono também pode estar por trás.
Um estudo feito com uma amostra representativa da população da cidade de São Paulo analisou o ritmo do coração de 767 adultos durante a polissonografia. As arritmias noturnas foram mais frequentes à medida que a apneia era mais grave, e 92,3% das pessoas com apneia grave tiveram algum tipo de arritmia durante o sono. Nas formas moderada e grave, os batimentos extras isolados, chamados de extrassístoles, apareceram mais do que nas pessoas sem apneia.
A fibrilação atrial é a arritmia mais lembrada nessa relação. A American Heart Association também descreve arritmias ventriculares e batimentos lentos ligados às pausas respiratórias.
Quais sinais reforçam a suspeita de apneia
O ronco é um fator de risco para a apneia do sono. A apneia é um quadro mais grave do que o ronco, com paradas da respiração e uma série de efeitos sobre o coração e a circulação. Quando o MAPA ou o Holter trazem alterações noturnas, vale observar se também existem estes sinais:
- ronco frequente;
- pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado;
- acordar engasgado ou com sensação de sufoco;
- sonolência ou cansaço durante o dia;
- acordar indisposto ou com dor de cabeça;
- memória mais fraca e dificuldade de concentração;
- levantar várias vezes à noite para urinar;
- pressão alta ou arritmia difícil de controlar.
A combinação dessas pistas aumenta a importância de investigar o sono. A falta de sonolência, porém, não exclui a doença, porque a apneia pode ser confirmada no exame mesmo em quem não sente nada. O questionário STOP-Bang ajuda numa primeira estimativa do risco, sem substituir o exame. As causas do ronco e a forma de tratá-lo estão na orientação sobre ronco.
Quando a palpitação precisa de avaliação sem demora
Na palpitação, a pessoa passa a sentir o coração bater acelerado, forte ou fora do ritmo. Segundo o serviço público de saúde do Reino Unido (NHS), ela é comum e na maioria das vezes não indica nada grave.
Palpitação que não passa, ou que vem junto com dor no peito, falta de ar, sensação de desmaio ou desmaio, precisa de avaliação médica sem demora.
Como confirmar se existe apneia
A apneia é confirmada pela polissonografia, o exame do sono. Ela registra a respiração, a oxigenação do sangue, os batimentos e outros sinais durante a noite e mostra se existem pausas respiratórias e qual é a gravidade. Muitas vezes, o próprio cardiologista já pede a polissonografia quando vê no MAPA ou no Holter alterações típicas da apneia.
Na consulta, o otorrino procura no nariz e na garganta os pontos em que a passagem do ar fica estreita, avalia o ronco e os sintomas e indica os exames necessários. A OtoCare não realiza a polissonografia. A consulta avalia a indicação do exame e interpreta o resultado junto com o exame físico.
Enquanto o sono é investigado, o tratamento da pressão alta ou da arritmia continua como foi prescrito.
Tratar a apneia ajuda a proteger o coração
Não dá para deixar a apneia sem tratamento, porque ela desencadeia uma série de problemas no organismo, entre eles os do coração e da circulação. Existem diversas formas de tratar, como o CPAP, as cirurgias, a fonoterapia e o aparelho intraoral.
A escolha depende da gravidade, da anatomia e das condições de cada pessoa. A American Heart Association recomenda oferecer o CPAP nas apneias graves e considera o aparelho intraoral nas leves e moderadas ou para quem não se adapta ao CPAP. Perda de peso e mudança de hábitos entram quando indicadas, e em situações selecionadas a perda de peso pode envolver remédio, como mostra a orientação sobre Mounjaro® para apneia do sono. A terapia posicional e as demais opções estão reunidas em tratamento para ronco e apneia.
Na hipertensão resistente, um estudo espanhol com 194 pacientes com apneia moderada ou grave mostrou que 12 semanas de CPAP baixaram a pressão média de 24 horas em cerca de 3 mmHg e aumentaram o número de pacientes que voltaram a ter a queda normal da pressão à noite. Quanto mais horas por noite o aparelho era usado, maior foi a queda.
A queda é modesta, por isso o tratamento da apneia não substitui o remédio da pressão ou da arritmia. Os dois cuidados se somam.
Vídeo: pressão alta e arritmia por apneia do sono
O vídeo abaixo parte de um caso de encaminhamento do cardiologista para mostrar como as pausas respiratórias elevam a frequência cardíaca e a pressão e por que alterações noturnas no MAPA e no Holter chamam atenção para a apneia.
Perguntas frequentes
Quem tem apneia do sono sempre tem pressão alta?
Não. Muitas pessoas com apneia têm a pressão normal, principalmente nas formas leves. A apneia aumenta o risco de desenvolver pressão alta ao longo dos anos, mas isso não quer dizer que ela vá aparecer em todos.
Pressão normal no consultório exclui alteração durante o sono?
Não. A medida do consultório mostra a pressão naquele momento. O MAPA acompanha as variações por 24 horas e pode revelar pressão elevada ou ausência do descenso apenas durante o sono.
Toda arritmia que aparece à noite é causada por apneia?
Não. No estudo de São Paulo citado acima, 53,3% das pessoas sem apneia também tiveram algum batimento fora do ritmo durante o sono. Quando a arritmia predomina à noite e vem com ronco, pausas respiratórias ou sonolência, a apneia passa a ser uma possibilidade importante, e a investigação completa define a causa.
Quem tem fibrilação atrial deve investigar apneia?
A American Heart Association recomenda investigar a apneia em quem tem fibrilação atrial que volta depois da cardioversão ou da ablação, os tratamentos que recolocam o coração no ritmo. Ronco, pausas na respiração e crises que aparecem à noite também reforçam a suspeita, e a necessidade da polissonografia é avaliada na consulta.
Acordar com o coração acelerado pode ser apneia?
Pode. Durante a pausa respiratória, a falta de oxigênio e a descarga de adrenalina aceleram o coração, e a pessoa pode despertar com sensação de engasgo ou de sufoco. Quando isso se repete e vem com ronco ou com um sono que não descansa, vale investigar a apneia.
A apneia do sono pode deixar o coração lento ou com pausas?
Pode. Além das arritmias aceleradas, a American Heart Association descreve batimentos lentos e pausas do coração ligados às apneias. Esses achados no Holter noturno pedem atenção ao sono.
O CPAP ajuda a controlar a arritmia?
Pode ajudar. Estudos observacionais sugerem que tratar a apneia diminui a volta da fibrilação atrial depois da cardioversão ou da ablação. Segundo a American Heart Association, ainda faltam ensaios clínicos maiores para confirmar esse benefício.
Apneia do sono aumenta o risco de infarto e AVC?
Sim. Sem tratamento, a apneia do sono é um fator de risco importante para as doenças do coração e da circulação. Segundo a American Heart Association, ela aparece em 40% a 80% das pessoas com pressão alta, insuficiência cardíaca, doença das coronárias, fibrilação atrial ou AVC, e quem tem angina, infarto ou arritmia durante a noite tem mais chance de ter apneia associada.
Ronco sem apneia também faz mal?
Os efeitos sobre a pressão e o ritmo descritos nesta página estão ligados às pausas da apneia. O ronco sozinho, chamado de ronco primário, também não é inofensivo. Ele deixa o sono mais superficial e, com os anos, a vibração da garganta lesa a musculatura e a deixa mais flácida, o que piora o ronco e pode levar à apneia. Por isso, roncar nunca deve ser considerado normal.
Referências
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Avaliação de ronco e apneia em Brasília
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