Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Como saber se é dengue, gripe ou covid?
O primeiro sinal que separa os três quadros é o nariz. A dengue não entope o nariz, não dá dor de garganta e não dá tosse — ela é uma doença febril sem sintomas de vias respiratórias. Gripe e covid começam justamente por aí: garganta que arranha, nariz entupido, secreção, espirros e, logo depois, tosse.
Quando essa primeira separação já foi feita, o que confirma a suspeita de dengue é o conjunto seguinte: febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos ao movimentá-los, dor nas articulações e uma prostração fora do comum. Diferenciar gripe de covid apenas pelos sintomas, por outro lado, é muito difícil — e nenhuma tabela resolve isso com honestidade.

Esta página serve para orientar a decisão de procurar atendimento e para evitar os erros mais caros do período — tomar o remédio errado e fazer o exame errado no dia errado. Ela não substitui a avaliação médica, que é o que fecha o diagnóstico.
A tabela que resume as diferenças
| Sinal | Dengue | Gripe | Covid |
|---|---|---|---|
| Como transmite | Picada do mosquito Aedes aegypti | Gotículas respiratórias | Gotículas respiratórias |
| Febre | Alta, muitas vezes 39 a 40 °C | Alta, em geral até 38 a 39 °C | Variável, pode ser baixa |
| Nariz entupido e secreção | Não | Sim | Sim |
| Dor de garganta | Não | Sim | Sim |
| Tosse | Não | Sim | Sim, com frequência seca |
| Dor atrás dos olhos | Muito característica | Incomum | Incomum |
| Dor nas articulações | Muito característica | Dor no corpo, sem foco articular | Dor no corpo, sem foco articular |
| Manchas vermelhas que coçam | Sim, tronco, braços e pernas | Não | Não |
| Prostração intensa | Muito característica | Presente, mais leve | Presente, mais leve |
| Perda de olfato e paladar | Não | Pode ocorrer por obstrução | Possível, hoje bem menos frequente |
A tabela orienta a suspeita; ela não fecha diagnóstico. Quadros iniciais se sobrepõem, e a mesma pessoa pode ter dengue e uma virose respiratória na mesma semana.
Dengue: febre alta, dor atrás dos olhos e dor nas articulações
A dengue costuma começar de forma abrupta, com febre alta — não é raro chegar a 39 ou 40 °C. Junto vêm o cansaço e o mal-estar desproporcionais, a dor de cabeça e dois sinais que praticamente assinam o quadro:
- Dor atrás dos olhos, que piora ao movimentá-los. É a queixa que mais aparece na consulta e a que menos aparece em gripe e covid.
- Dor nas articulações — cotovelos, joelhos, punhos — ao mexer, e não apenas a dor muscular difusa que qualquer virose provoca.
Depois dos primeiros dias podem surgir manchas vermelhas no tronco, nos braços e nas pernas, e que costumam coçar bastante. Náuseas e vômitos são comuns. E há a prostração: o paciente com dengue costuma ficar acamado de um jeito que o paciente com gripe não fica.
Gripe: começa na garganta e desce para o nariz e a tosse
A gripe tem uma sequência bastante reconhecível. Começa com febre e calafrios — em geral uma febre mais baixa que a da dengue —, logo aparece a dor de garganta, em seguida o nariz entope e passa a haver secreção e espirros, e por último vem a tosse.
Dor no corpo e dor de cabeça acontecem, mas sem o foco articular e sem a dor ocular típicos da dengue. O quadro é desconfortável e limita o dia, sem a prostração profunda que caracteriza a dengue.
A diferença entre gripe e resfriado comum, que muda a conduta e o tempo de recuperação, está detalhada na orientação sobre como curar gripes e resfriados.
Covid: por que a perda de olfato já não é o sinal que era
A covid se parece mais com a gripe do que com a dengue: febre, calafrios, dor de garganta, nariz entupido, secreção e tosse, com frequência seca. E aqui cabe uma correção importante, porque quase toda orientação disponível ainda está desatualizada neste ponto.
Perder o olfato deixou de ser um bom critério para suspeitar de covid. Nas variantes iniciais, a alteração do olfato era um sinal marcante. Com a ômicron e as linhagens que a sucederam, uma revisão sistemática de 62 estudos estimou disfunção olfatória em cerca de 3,7% dos casos — de duas a dez vezes menos do que nas variantes anteriores. Não sentir cheiro continua sendo compatível com covid; sentir cheiro normalmente já não afasta a doença.
Além disso, nem toda perda de olfato em quadro viral é lesão do nervo. Boa parte é obstrução: o nariz entupido impede que o ar chegue à região onde o olfato é captado, e o cheiro volta quando a obstrução cede. Isso acontece na gripe e no resfriado comum tanto quanto na covid.
A conclusão prática é a mesma que o exame clínico impõe: separar gripe de covid apenas pelos sintomas não é confiável. Quem precisa da resposta — por risco pessoal, por convívio com idosos ou por indicação de tratamento — precisa de teste, não de tabela.
Sinais de alarme da dengue: quando é emergência
Este é o trecho mais importante da página. Na dengue, a piora grave não costuma acontecer no auge da febre — acontece quando a febre cede, entre o terceiro e o sétimo dia, exatamente quando a pessoa se acha melhor e relaxa a vigilância.
Procure atendimento de urgência imediatamente diante de qualquer um destes sinais de alarme: dor abdominal intensa e contínua; vômitos persistentes; sangramento de mucosas, como gengiva e nariz; sonolência, letargia ou irritabilidade fora do comum; tontura ou desmaio ao levantar; queda importante da quantidade de urina; ou dificuldade para respirar. Em criança, recusa de líquidos e prostração pesam ainda mais.
Enquanto durar o quadro febril, beber líquido é tratamento, e não conselho genérico: a hidratação por via oral, em volume orientado pelo médico, é a medida que mais reduz a chance de a dengue evoluir mal.
O que não tomar enquanto houver suspeita de dengue
Este é o erro mais frequente e o mais perigoso do período de surto, e ele nasce de um hábito comum: sentir dor no corpo ou dor de garganta e tomar por conta própria um anti-inflamatório.
Enquanto houver suspeita de dengue, não use ácido acetilsalicílico (AAS) nem anti-inflamatórios como ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida ou naproxeno. Eles interferem na função das plaquetas e irritam a mucosa gástrica, o que aumenta o risco de sangramento justamente na doença em que o sangramento é a complicação temida. Corticoide também não tem indicação nesse cenário.
Para febre e dor, os medicamentos considerados seguros nesse contexto são paracetamol e dipirona, nas doses orientadas por um médico. Vale lembrar que muitos antigripais de farmácia trazem anti-inflamatório na fórmula: enquanto a dengue não estiver afastada, é preciso ler o rótulo antes de tomar qualquer coisa.
Antibiótico não trata nenhum dos três quadros — todos são virais — e antiviral específico para influenza tem indicação médica e janela definida, o que está explicado na orientação sobre tratamento de gripes e resfriados.
Exames: cada um tem a sua janela
Fazer o exame certo no dia errado produz um resultado negativo que não significa nada. As janelas são estas:
- Dengue, antígeno NS1 — detectável do primeiro ao quinto dia de sintomas. Pedido depois disso, tende a vir negativo mesmo com a doença presente.
- Dengue, sorologia IgM — indicada a partir do sexto dia de sintomas, quando os anticorpos já se tornaram detectáveis.
- Hemograma — não fecha o diagnóstico, mas acompanha plaquetas e hematócrito, que são o que orienta a gravidade e a necessidade de reavaliação.
- Covid e influenza — teste de antígeno ou RT-PCR de amostra nasal, com melhor desempenho nos primeiros dias de sintomas.
Um exame negativo colhido fora da janela não afasta a doença. Se a suspeita clínica continua, o que muda é o exame e o dia, não a suspeita.
Quando procurar avaliação médica
Diante de febre com dor atrás dos olhos, dor nas articulações e prostração importante, a conduta é procurar avaliação para confirmar o diagnóstico por exame laboratorial — não é esperar para ver. Um resfriado simples, ao contrário, costuma permitir repouso em casa e observação da evolução.
Procure atendimento também quando houver:
- qualquer sinal de alarme da dengue, e nesse caso de imediato;
- febre por mais de três dias, ou febre que retorna depois de um período de melhora;
- falta de ar, dor no peito ou respiração rápida;
- sintomas que passam de dez dias sem melhora, ou que pioram depois de terem melhorado;
- gestação, idade avançada, criança pequena ou doença crônica — situações em que a avaliação deve ser mais precoce.
Quando o otorrino entra nessa conversa
O quadro agudo é conduzido por clínico, pediatra ou emergência. A avaliação otorrinolaringológica entra depois, quando o episódio viral deixa consequências nas vias aéreas superiores:
- Perda de olfato que não volta. Passada a fase aguda e desobstruído o nariz, o olfato deve retornar. Alteração persistente merece exame, porque existe avaliação específica e conduta de reabilitação olfatória.
- Sinusite após o quadro viral — dor e pressão na face, secreção espessa e sintomas que pioram depois de já terem melhorado. A conduta está na orientação sobre lavagem nasal para sinusite.
- Dor de ouvido, ouvido tampado ou queda de audição após o resfriado.
- Rouquidão persistente por mais de duas a três semanas depois do quadro.
- Episódios muito frequentes, que às vezes revelam um componente obstrutivo ou alérgico de fundo — a lógica está em quem precisa fazer lavagem nasal, e a prevenção em crianças, em prevenir gripes e resfriados em crianças na escola.
Vídeo: dengue, gripe ou covid
O vídeo percorre o quadro clássico da dengue, a sequência típica da gripe e o que aproxima a covid do quadro gripal, e explica por que a confirmação depende de avaliação médica e de exame.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre dengue, gripe e covid?
A separação mais útil é a via respiratória alta. A dengue não entope o nariz, não dá dor de garganta e não dá tosse: ela se manifesta por febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dor nas articulações, manchas vermelhas que coçam e prostração intensa. Gripe e covid começam exatamente pelos sintomas respiratórios que faltam na dengue.
Dengue dá dor de garganta ou nariz entupido?
Não é o esperado. A dengue é uma doença febril sem sintomas de vias respiratórias altas. Quando há dor de garganta, coriza, espirros ou tosse, o quadro aponta muito mais para gripe, resfriado ou covid — ainda que as duas coisas possam coexistir na mesma semana.
Dor atrás dos olhos é sinal de dengue?
É um dos sinais mais característicos. A dor costuma piorar ao movimentar os olhos e, junto com a dor nas articulações e a febre alta, forma o conjunto que mais levanta a suspeita de dengue. Em gripe e covid, esse tipo de dor ocular é incomum.
Perda de olfato ainda indica covid?
Já não é um bom critério. Nas variantes iniciais, a alteração do olfato era marcante; com a ômicron e as linhagens seguintes, uma revisão de 62 estudos estimou disfunção olfatória em cerca de 3,7% dos casos. Não sentir cheiro continua compatível com covid, mas sentir cheiro normalmente não afasta a doença. Boa parte da perda em quadro viral também vem apenas da obstrução do nariz.
Quais são os sinais de alarme da dengue?
Dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, sonolência ou irritabilidade fora do comum, tontura ao levantar, queda importante da urina e dificuldade para respirar. Eles costumam aparecer quando a febre cede, entre o terceiro e o sétimo dia, e exigem atendimento de urgência imediato.
Qual remédio não pode tomar com suspeita de dengue?
Ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios como ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida e naproxeno devem ser evitados, porque interferem nas plaquetas e irritam o estômago, aumentando o risco de sangramento. Corticoide também não tem indicação. Para febre e dor, paracetamol e dipirona são os medicamentos considerados seguros, sempre com orientação médica.
Quando fazer o exame de dengue?
Depende do dia de sintomas. O antígeno NS1 é detectável do primeiro ao quinto dia; a sorologia IgM é indicada a partir do sexto dia. Um exame colhido fora da sua janela pode vir negativo mesmo com a doença presente, e por isso o pedido precisa considerar há quantos dias a febre começou.
Dá para diferenciar gripe de covid só pelos sintomas?
Não de forma confiável. Os dois quadros começam de maneira muito parecida, com febre, dor de garganta, obstrução nasal e tosse. Quem precisa da resposta por risco pessoal, convívio com pessoas vulneráveis ou indicação de tratamento específico precisa de teste laboratorial, e não de comparação de sintomas.
Perdi o olfato depois de uma virose e ele não voltou. O que fazer?
Vale avaliação otorrinolaringológica. Passada a fase aguda e desobstruído o nariz, o olfato tende a retornar; quando isso não acontece, existe exame específico para medir a perda e conduta de reabilitação olfatória. Quanto mais cedo a avaliação, melhor a condução do caso.
Referências
- VILELA, Larissa. Como saber se tenho dengue, gripe ou covid? YouTube, 8 fev. 2024. 1 vídeo (4 min 53 s). Disponível em: https://youtu.be/-GXma63c4mo. Acesso em: 4 set. 2026.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/dengue/dengue-diagnostico-e-manejo-clinico-adulto-e-crianca. Acesso em: 4 set. 2026.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Dengue: quais são os sinais de alarme? Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/dengue/faq/dengue/quais-sao-os-sinais-de. Acesso em: 4 set. 2026.
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- VON BARTHELD, Christopher S.; WANG, Lingchen. Prevalence of olfactory dysfunction with the omicron variant of SARS-CoV-2: a systematic review and meta-analysis. Cells, Basileia, v. 12, n. 3, art. 430, 2023. DOI: 10.3390/cells12030430. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9913864/. Acesso em: 4 set. 2026.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Influenza (seasonal). Genebra: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/influenza-(seasonal). Acesso em: 4 set. 2026.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Coronavirus disease (COVID-19). Genebra: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/coronavirus-disease-(covid-19). Acesso em: 4 set. 2026.
- ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Dengue. Washington: OPAS, 2024. Disponível em: https://www.paho.org/en/topics/dengue. Acesso em: 4 set. 2026.
Avaliação com otorrino em Brasília
Perda de olfato que não voltou, sinusite depois do quadro viral, ouvido tampado ou rouquidão persistente merecem exame das vias aéreas superiores. Essa avaliação é feita em consulta com otorrino em Brasília. A Clínica OtoCare atende adultos e crianças no Setor Noroeste.
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