Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Meu filho fica gripado todo mês. Isso é normal?
É, sim — e essa costuma ser a informação que mais tranquiliza. Estima-se que uma criança em idade escolar tenha de 7 a 10 episódios de gripe ou resfriado por ano. Concentrados nos meses frios e secos, esses episódios dão exatamente a impressão de “todo mês”, e essa impressão está correta.
Um adulto, para comparação, tem de 2 a 5 episódios por ano. A diferença não indica que a criança tenha imunidade fraca: indica que ela passa o dia inteiro em um ambiente com muitas outras crianças, e que o sistema imunológico dela ainda está construindo o repertório de defesas que o adulto já construiu. É a exposição que mudou, não a defesa que falhou.

O primeiro ano de escola ou de creche costuma ser o pior, e a frequência tende a cair nos anos seguintes. O que se pode fazer não é zerar a conta — é reduzi-la, e reduzir a chance de que um resfriado simples evolua para uma complicação.
Por que a escola multiplica os resfriados
Os vírus chegam ao organismo por dois caminhos, e entender os dois é o que faz as medidas de prevenção pararem de parecer arbitrárias:
- Transmissão direta — gotículas contaminadas que uma pessoa gripada libera ao falar, tossir ou espirrar, e que outra pessoa próxima respira.
- Transmissão indireta — o vírus depositado em superfícies. Uma criança gripada leva a mão ao nariz e depois toca a mesa, o brinquedo ou a maçaneta; outra criança toca o mesmo lugar e leva a mão aos olhos, ao nariz ou à boca. Copos, garrafas e talheres compartilhados fazem o mesmo caminho.
Na sala de aula, quase sempre há uma criança em quadro viral, e as duas rotas funcionam ao mesmo tempo durante horas seguidas. É por isso que as medidas mais eficazes agem sobre a rota indireta, que é a que se pode interromper em casa.
A rotina de chegada em casa
Esta é a orientação mais simples e a que faz mais diferença no dia a dia. Chegou da escola: tira o uniforme, banho e lavagem nasal.
- Tirar o uniforme e mandar lavar. A roupa passou o dia em contato com colegas, chão, mesas e brinquedos. Trocar de roupa na chegada impede que esse material circule pelo sofá, pela cama e pelos irmãos.
- Dar um banho. Retira das mãos, do rosto e dos cabelos o que foi acumulado durante o dia — e as mãos são a principal via de entrada dos vírus.
- Lavar o nariz com solução salina. Remove mecanicamente da mucosa nasal partículas, vírus e bactérias que a criança inalou ao longo do dia, antes que eles tenham tempo de se estabelecer.
A ordem importa menos do que a constância. Uma rotina feita todos os dias, sempre no mesmo momento, rende muito mais do que um esforço intenso e ocasional nas semanas de surto — inclusive porque a criança passa a fazer sozinha.
A forma de lavar o nariz muda conforme a idade, e é o que determina se a criança vai aceitar ou resistir. As opções por faixa etária, o volume e o posicionamento estão na orientação sobre lavagem nasal em crianças. A solução pode ser comprada pronta ou preparada em casa, nas proporções corretas.
Lavar o nariz: o que a evidência mostra
Existe um ensaio clínico feito exatamente nesta faixa etária. 401 crianças de 6 a 10 anos foram acompanhadas por 12 semanas no inverno: metade recebeu o tratamento habitual, e a outra metade acrescentou a lavagem nasal com solução salina. O grupo que lavou o nariz teve menos recorrências de sintomas nasais, menos dias de doença, menos faltas na escola, menos complicações e menor uso de antitérmicos, descongestionantes e antibióticos.
Um ensaio mais recente, apresentado em congresso europeu em 2024, testou gotas nasais de solução hipertônica em crianças de até 6 anos já resfriadas: a duração do quadro caiu de 8 para 6 dias, e — o dado que interessa a uma casa com mais de um filho — houve menos transmissão do resfriado para os outros moradores. É um estudo de tratamento, não de prevenção, mas mostra que lavar o nariz de quem já está doente reduz o que sobra para os demais.
Vale manter a expectativa calibrada: em quadros virais agudos, o benefício medido da lavagem nasal é modesto e a evidência ainda é limitada. O que a sustenta como primeira escolha é a combinação de benefício real, custo baixo e ausência de efeitos adversos relevantes — o que nenhuma medicação preventiva oferece. Quem se beneficia e com que frequência está detalhado em quem precisa fazer lavagem nasal.
Lavar as mãos: a medida mais bem estudada
Entre todas as medidas físicas de prevenção, a higiene das mãos é a que tem a melhor evidência: programas estruturados de lavagem de mãos reduzem o número de pessoas que adoecem com quadros respiratórios. Para a criança em idade escolar, isso se traduz em momentos fixos:
- ao chegar em casa, antes de qualquer outra coisa;
- antes das refeições e do lanche;
- depois de usar o banheiro;
- depois de assoar o nariz, tossir ou espirrar.
Água e sabão, esfregando por cerca de 20 segundos, incluindo entre os dedos e sob as unhas. Álcool em gel resolve quando não há pia por perto, com supervisão nas crianças menores. Vale ensinar junto o gesto de tossir e espirrar na dobra do cotovelo, que preserva a mão que vai tocar tudo em seguida.
Vacina da gripe: o que ela previne e o que não previne
A vacina contra a influenza é recomendada anualmente, a partir dos 6 meses de idade. Na primeira vez em que a criança é vacinada, o esquema é de duas doses com intervalo de 30 dias; nos anos seguintes, uma dose por ano. A revacinação anual não é excesso: a composição muda a cada temporada, acompanhando os vírus em circulação.
A vacina protege contra a gripe, não contra os resfriados. Ela age sobre o vírus influenza, e os resfriados são causados por mais de 200 vírus diferentes. A criança vacinada continuará tendo resfriados — o que a vacina evita é justamente o quadro mais grave e o que mais leva à internação.
A distinção entre os dois quadros, e por que ela muda a conduta, está na orientação sobre o tratamento de gripes e resfriados.
O que mais ajuda — e o que não muda nada
Ajuda:
- Não compartilhar copos, garrafas, talheres e chupetas. É a rota indireta em sua forma mais direta, e é fácil de cortar.
- Ventilar os ambientes. Ar renovado dilui a concentração de partículas suspensas; ambientes fechados fazem o contrário.
- Sono suficiente e alimentação variada. Não são fórmula mágica de imunidade, mas criança dormindo mal e comendo mal adoece mais e se recupera pior.
- Casa livre de fumo. Este é o item que quase nenhuma lista de prevenção menciona, e tem peso: viver com alguém que fuma aumenta em cerca de 37% o risco de doença do ouvido médio na criança, e o risco é maior ainda quando quem fuma é a mãe. Fumar na varanda ou no carro com o vidro aberto não elimina a exposição.
- Manter em casa a criança doente nos primeiros dias, quando a transmissão é maior — o que protege a turma inteira e, no fim das contas, a própria criança.
Não muda nada:
- Vitamina C como preventivo. A revisão sistemática de referência mostra que a vitamina C não previne resfriados na população geral. Ela reduz discretamente a duração do episódio, o que é diferente de evitar que ele aconteça.
- Suplementos e xaropes “para aumentar a imunidade”. Não existe respaldo para o uso rotineiro com essa finalidade em criança saudável. Suplementação é decisão do pediatra, a partir de uma indicação concreta.
- Agasalhar mais. Friagem e vento não causam virose: vírus causam virose. O frio importa porque aproxima as pessoas em ambientes fechados e resseca a mucosa, não porque a criança “pegou friagem”.
- Antibiótico ao primeiro sinal. Não previne nada, não trata quadro viral e cobra o preço dos efeitos adversos e da resistência bacteriana.
Quando manter em casa e quando procurar o médico
Um resfriado sem febre, com a criança ativa e se alimentando, não exige afastamento prolongado — mas os primeiros dias, que são os de maior transmissão, e qualquer dia com febre pedem repouso em casa. O retorno à escola costuma ser possível após 24 horas sem febre e sem antitérmico.
Nem toda febre da estação é respiratória. Quando vem alta, acompanhada de dor atrás dos olhos, dor nas articulações e prostração, e sem nariz entupido nem dor de garganta, o quadro pede outra leitura — o que está detalhado na orientação sobre como diferenciar dengue, gripe e covid.
Procure avaliação quando houver:
- febre por mais de três dias, ou febre que retorna depois de um período de melhora;
- sintomas que passam de 10 dias sem melhora, ou que pioram depois de terem melhorado;
- dor de ouvido, criança pequena que leva a mão à orelha e chora, ou saída de secreção pelo ouvido;
- falta de ar, chiado, respiração rápida ou afundamento das costelas ao respirar;
- prostração, recusa de líquidos ou redução importante da urina.
Há ainda um padrão que merece avaliação otorrinolaringológica mesmo fora do quadro agudo: otites de repetição, ronco, respiração pela boca durante o sono, sono agitado ou fala anasalada. Nesses casos, a frequência das infecções pode não ser só exposição escolar — pode haver um componente obstrutivo, como o aumento da adenoide, que se investiga com exame.
Vídeo: prevenção de gripes e resfriados em crianças
O vídeo explica as duas formas de transmissão dos vírus respiratórios, por que a frequência é tão alta em crianças em idade escolar e a rotina de chegada em casa que reduz esses episódios.
Perguntas frequentes
É normal criança na escola ficar gripada todo mês?
É. A média esperada para uma criança em idade escolar é de 7 a 10 episódios de gripe ou resfriado por ano, concentrados nos meses frios e secos — o que dá a impressão de um episódio por mês. Isso reflete a exposição no ambiente escolar e um sistema imunológico ainda em formação, não uma imunidade fraca.
O que fazer quando a criança chega da escola?
Tirar o uniforme e mandar lavar, dar banho e fazer a lavagem nasal com solução salina. O uniforme e as mãos concentram o que foi acumulado durante o dia, e a lavagem nasal remove da mucosa partículas, vírus e bactérias inalados antes que se estabeleçam.
Lavar o nariz previne gripes e resfriados em crianças?
Ajuda a reduzir. Um ensaio com 401 crianças de 6 a 10 anos acompanhadas por 12 semanas mostrou menos recorrências, menos dias de doença, menos faltas escolares e menor uso de medicações no grupo que fazia lavagem nasal com solução salina. O benefício é real e modesto, com a vantagem de ser uma medida barata e segura.
Com que idade a criança pode começar a lavar o nariz?
Desde bebê, mudando a forma conforme a idade: nos menores, com soro em pequenos volumes e a criança posicionada corretamente; nos maiores, com dispositivos de volume maior. A escolha por faixa etária está detalhada na orientação sobre lavagem nasal em crianças.
A vacina da gripe evita resfriados?
Não. A vacina protege contra o vírus influenza, causador da gripe, e os resfriados são causados por mais de 200 vírus diferentes. A criança vacinada continuará tendo resfriados; o que a vacina evita é o quadro grave de gripe e suas complicações. É recomendada anualmente a partir dos 6 meses.
Vitamina C previne resfriado em criança?
Não previne. A revisão sistemática de referência mostra que a vitamina C não reduz a chance de ter resfriados na população geral; ela reduz discretamente a duração do episódio quando usada de forma regular. Suplementos e xaropes vendidos para aumentar a imunidade não têm respaldo para uso rotineiro em criança saudável.
Criança gripada pode ir para a escola?
Nos primeiros dias, quando a transmissão é maior, e em qualquer dia com febre, o indicado é ficar em casa. O retorno costuma ser possível após 24 horas sem febre e sem uso de antitérmico, com a criança ativa e se alimentando bem.
Cigarro em casa aumenta as infecções da criança?
Aumenta. Viver com alguém que fuma eleva em cerca de 37% o risco de doença do ouvido médio na criança, e o risco é maior quando quem fuma é a mãe. Fumar na varanda ou no carro com o vidro aberto não elimina a exposição.
Quando as infecções repetidas do meu filho merecem investigação?
Quando vêm acompanhadas de otites de repetição, ronco, respiração pela boca durante o sono, sono agitado ou fala anasalada. Esse conjunto sugere um componente obstrutivo, como o aumento da adenoide, que precisa ser avaliado com exame — e não apenas atribuído à exposição escolar.
Referências
- VILELA, Larissa. O que fazer para prevenir gripes e resfriados em crianças que frequentam escola? YouTube, 10 out. 2023. 1 vídeo (3 min 44 s). Disponível em: https://youtu.be/yCcHm9Laq58. Acesso em: 4 set. 2026.
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- HEMILÄ, Harri; CHALKER, Elizabeth. Vitamin C for preventing and treating the common cold. Cochrane Database of Systematic Reviews, Chichester, n. 1, art. CD000980, 2013. DOI: 10.1002/14651858.CD000980.pub4. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD000980.pub4/full. Acesso em: 4 set. 2026.
Avaliação com otorrino infantil em Brasília
Infecções respiratórias muito frequentes, otites de repetição, ronco ou respiração pela boca merecem exame das vias respiratórias da criança. Essa avaliação é feita em consulta com otorrino em Brasília. A Clínica OtoCare atende adultos e crianças no Setor Noroeste.
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