Descongestionante nasal vicia? Riscos, rinite medicamentosa e o que usar no lugar

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é descongestionante nasal

Muita gente já usou ou pelo menos já ouviu falar de descongestionante nasal. São aquelas gotinhas que parecem milagrosas e que muitas pessoas usam para desentupir o nariz na hora. Neosoro®, Aturgyl®, Naridrin®, Afrin® ou qualquer outro remédio para o nariz, em gota ou spray, que tenha ação descongestionante entram nessa lista.

Quem tem em casa um frasquinho pequeno de gotas para o nariz, comprado na farmácia para o nariz entupido, muito provavelmente tem um descongestionante nasal. E existem três razões muito sérias para não usar esse tipo de remédio por conta própria. A primeira delas é a mais importante.

Caixas de Afrin Pediátrico, Neosoro, Naridrin e Aturgyl com a tarja de venda sob prescrição médica e a Dra. Larissa Vilela segurando um frasco de descongestionante nasal

O descongestionante nasal é um vasoconstritor. Quando o nariz está inflamado, por gripe, resfriado, rinite ou sinusite, os vasos da mucosa se dilatam, a mucosa incha e fecha a passagem do ar. O remédio contrai esses vasos, a mucosa desincha e o ar volta a passar. Segundo a bula do Neosoro®, o efeito começa em cerca de 10 minutos e dura de 2 a 6 horas. Os produtos à base de oximetazolina, como Afrin® e Aturgyl®, são aplicados de 12 em 12 horas.

O alívio rápido faz o produto parecer inofensivo. O problema é o que acontece no restante do corpo e no próprio nariz quando o uso se repete.

Como saber se o remédio é um descongestionante

O nome do princípio ativo vem escrito na caixa, logo abaixo da marca. Os descongestionantes nasais vendidos no Brasil costumam ter uma destas substâncias.

  • nafazolina, presente no Neosoro® e no Naridrin®, que ainda leva um antialérgico e dexpantenol;
  • oximetazolina, presente no Afrin®, no Afrin® Pediátrico e no Aturgyl®;
  • outras substâncias da mesma família, menos comuns, como a fenoxazolina e a xilometazolina.

Nem todo frasco para o nariz é descongestionante. O soro fisiológico e as soluções para lavagem nasal não têm substância que contraia os vasos. Os hidratantes nasais servem para o nariz ressecado. Os sprays de corticoide tratam a inflamação da rinite e não causam o efeito rebote, como explica a orientação sobre como usar spray nasal corretamente. Na dúvida, o nome do princípio ativo resolve.

Também existem descongestionantes em comprimido, que agem pelo sangue e têm cuidados próprios. A pseudoefedrina é tratada na orientação sobre o Tylenol® Sinus, e a fenilefrina oral tem uma orientação só para ela. Esta página trata das gotas e sprays para o nariz.

Descongestionante nasal faz mal para o coração?

Esta é a primeira razão e a mais importante. O descongestionante nasal não fica só no nariz. Parte da substância é absorvida para o sangue e age no sistema cardiovascular. Ela pode aumentar a frequência cardíaca, predispor a arritmias e até aumentar a pressão arterial.

Esse risco é maior em quem já tem problema no coração ou pressão alta, mas não se restringe a essas pessoas. Mesmo quem não tem nenhuma doença cardiovascular pode sentir o impacto do remédio no coração.

A bula do Neosoro® registra relatos de pressão alta e de taquicardia com a nafazolina. As bulas do Afrin® e do Aturgyl® contraindicam a oximetazolina, salvo indicação médica, para quem tem:

  • doença do coração ou pressão alta;
  • doença da tireoide;
  • diabetes;
  • dificuldade para urinar por aumento da próstata.

As mesmas bulas contraindicam o uso no glaucoma de ângulo fechado e em quem toma, ou tomou nas duas semanas anteriores, antidepressivos do grupo dos inibidores da monoaminoxidase.

Por isso, quem tem pressão alta, arritmia ou qualquer doença do coração não deve usar descongestionante nasal sem que o otorrino avalie o caso e decida se existe um uso pontual seguro.

Por que o descongestionante nasal vicia

A segunda razão é que o descongestionante nasal vicia a mucosa do nariz. Não é preciso usar por meses. Com alguns dias seguidos de uso, já começa um mecanismo de vício da mucosa, conhecido como efeito rebote.

Logo depois que o efeito do remédio passa, a mucosa incha de novo e o nariz fica mais entupido do que estava antes. A pessoa então pinga mais uma vez, o alívio vem, passa, e o nariz volta a fechar. Esse ciclo faz a pessoa usar cada vez mais e ficar dependente do descongestionante.

Com o tempo, o alívio também dura menos. Um estudo sueco com voluntários saudáveis, que usaram o spray com o dobro da dose recomendada, mostrou que o uso contínuo por 30 dias encurtou o efeito de cada aplicação, e oito dos nove participantes passaram a ter o inchaço de rebote. Na prática, isso aparece como o frasco sempre por perto, na bolsa ou ao lado da cama, e doses cada vez mais próximas umas das outras.

Rinite medicamentosa: quando o remédio inflama o nariz

A terceira razão é a rinite medicamentosa. O nariz vai ficando inflamado e congestionado somente pelo uso do descongestionante. Nesse ponto, a obstrução já não é causada pela gripe ou pela rinite que levou ao primeiro frasco. Ela é causada pelo próprio remédio.

Os estudos da mucosa de pessoas com rinite medicamentosa mostram perda dos cílios que limpam o nariz, inchaço e descamação do revestimento e acúmulo de células inflamatórias. Os sintomas mais comuns são o nariz entupido o tempo todo, o ressecamento, as crostas e, em algumas pessoas, pequenos sangramentos. A bula da nafazolina cita ainda ardência, espirros, dor de cabeça e insônia entre as reações possíveis.

Uma revisão sobre o tema lembra que ninguém sabe ao certo a partir de quantos dias ou de qual dose a rinite medicamentosa começa. Por isso, quando o descongestionante é necessário, ele é usado pelo menor tempo possível.

Quantos dias pode usar descongestionante nasal

Por essas três razões, descongestionante nasal só deve ser usado com orientação muito criteriosa do médico. Em alguns casos o otorrino usa, sim. Ele pode ser usado de forma pontual, por poucos dias, como nas crises de sinusite aguda com o nariz muito obstruído, para as quais as bulas indicam o produto. Mas não é remédio para comprar na farmácia e usar por conta própria.

As bulas também limitam o tempo. A do Afrin® e a do Aturgyl® dizem para não usar por mais de três dias. A do Neosoro® fala em no máximo 3 a 5 dias, com intervalo mínimo de 3 horas entre as aplicações e até 24 gotas por dia. Usar mais vezes do que o indicado não prolonga o alívio e aumenta o risco de efeito rebote.

Quando o nariz continua entupido depois desses poucos dias, o descongestionante não é a resposta. O entupimento persistente tem uma causa, que pode ser uma rinite sem tratamento, um desvio de septo, cornetos aumentados ou pólipos, e essa causa precisa ser examinada.

Por que é tão fácil comprar descongestionante nasal

Infelizmente, esses remédios muitas vezes ficam expostos nas farmácias e são vendidos com muita facilidade. Nas bulas do Neosoro®, do Afrin®, do Aturgyl® e do Naridrin® está escrito venda sob prescrição médica. Na prática, a farmácia não retém a receita e costuma vender sem pedir nada.

Essa facilidade não torna o uso seguro. A recomendação é usar descongestionante nasal apenas com prescrição, com a dose e o número de dias definidos na consulta.

Como parar de usar descongestionante nasal

Parar costuma ser a parte mais difícil. Nos primeiros dias sem o remédio, o nariz tende a ficar ainda mais entupido, justamente por causa do rebote, e muita gente volta ao frasco antes de a mucosa se recuperar.

O tratamento da rinite medicamentosa começa pela suspensão do descongestionante. Para atravessar essa fase, o recurso mais estudado é o spray de corticoide nasal. Num estudo com 20 pacientes que pararam o descongestionante de uma vez, o nariz desinchou nas duas semanas seguintes nos dois grupos, mas desinchou mais e o alívio veio mais rápido com o corticoide do que com um spray sem remédio.

Uma revisão sistemática de 2019 concluiu que ainda não existe um protocolo único para tratar a rinite medicamentosa. Por isso, o modo de parar, de uma vez ou aos poucos, e o remédio que ajuda nessa fase são decididos caso a caso, na consulta.

Também é preciso tratar o motivo que levou ao primeiro frasco. Uma rinite alérgica sem controle, um desvio de septo ou cornetos aumentados continuam entupindo o nariz depois que o descongestionante sai, e cada um tem seu tratamento, que pode incluir a septoplastia quando o septo é a causa. A nasofibrolaringoscopia, feita no consultório da OtoCare, em Brasília, mostra o interior do nariz e ajuda a encontrar essa causa.

Nos casos em que os cornetos continuam muito aumentados mesmo com o tratamento clínico, uma cirurgia para reduzir os cornetos pode ajudar. Um artigo de 2026, que reuniu os estudos publicados e a experiência de um serviço com a redução dos cornetos por radiofrequência na rinite medicamentosa, relatou que 18 de 21 pacientes acompanhados conseguiram abandonar o descongestionante.

Lavagem nasal com soro: a alternativa ao descongestionante

Uma alternativa ao descongestionante nasal é fazer lavagem nasal com soro fisiológico. Com ela não há erro. Mais do que uma medicação saudável, a lavagem é uma forma saudável de cuidar do nariz, sem substância que contraia os vasos. Ela retira a secreção, hidrata a mucosa e ajuda o nariz a respirar melhor sem o risco de rebote.

Os métodos de lavagem, com seringa, frasco ou garrafinha, estão explicados em lavagem nasal: o melhor método na prática. Quando o nariz está muito entupido, a solução hipertônica para lavagem nasal, com mais sal, tende a desinchar a mucosa um pouco mais.

Quando a obstrução vem de uma rinite, o spray de corticoide receitado na consulta trata a inflamação sem viciar. Os descongestionantes em comprimido, como as gotas, também agem no coração e na pressão, e não são a escolha automática de todo mundo.

Descongestionante nasal em crianças

As crianças são ainda mais sensíveis ao efeito desses remédios no corpo, e a idade mínima muda de um produto para outro. Segundo as bulas, o Neosoro® é contraindicado para menores de 12 anos e o Naridrin® para menores de 10 anos. O Afrin® comum é para maiores de 6 anos. O Afrin® Pediátrico, mais diluído, é para crianças de 2 a 5 anos, e abaixo dos 2 anos a bula orienta usar somente com indicação médica.

Um estudo brasileiro da Unicamp acompanhou 72 crianças que tiveram contato com esses descongestionantes, com idade mediana de 2 anos. Quase todas as que foram expostas à nafazolina tiveram sinais de intoxicação e, no conjunto das crianças, os sinais apareceram tanto quando o remédio foi engolido quanto quando foi pingado no nariz. O frasco deve ficar guardado longe do alcance das crianças.

Para o nariz entupido da criança, a primeira escolha é a lavagem com soro fisiológico, explicada na orientação sobre lavagem nasal em crianças. Descongestionante nasal em criança só com prescrição, na dose e pelo tempo definidos na consulta.

Descongestionante nasal na gravidez e na amamentação

Na gravidez, o nariz entupido é uma queixa comum, e a vontade de pingar alguma coisa é grande. As bulas do Afrin® e do Aturgyl® dizem que a oximetazolina não deve ser usada por grávidas sem orientação médica, e que o uso frequente ou prolongado em doses altas pode reduzir o fluxo de sangue para a placenta. A bula do Neosoro® informa que os estudos em animais mostraram efeitos sobre o feto e que faltam dados em gestantes.

O mesmo cuidado vale para quem está amamentando. Tanto na gravidez quanto na amamentação, a lavagem nasal com soro fisiológico pode ser feita sem esse risco, e qualquer descongestionante só entra com prescrição.

Vídeo: descongestionantes nasais, 3 razões para não usar

O vídeo abaixo mostra como reconhecer um descongestionante nasal e explica as três razões para não usá-lo por conta própria.

Quem encontrar essas gotinhas em casa deve saber que provavelmente são descongestionantes, e que podem fazer muito mal. Elas não devem ser usadas por conta própria.

Perguntas frequentes

Qual descongestionante nasal não vicia?

Nenhum descongestionante vasoconstritor está livre do efeito rebote, seja nafazolina ou oximetazolina. O que não vicia são os produtos que não contraem os vasos, como o soro fisiológico, as soluções para lavagem nasal e os sprays de corticoide receitados para a rinite.

Quem tem pressão alta pode usar descongestionante nasal?

Não por conta própria. As bulas da oximetazolina contraindicam o uso em quem tem pressão alta, a menos que haja indicação médica. A bula do Naridrin® contraindica o uso na pressão alta, e a do Neosoro® pede cuidado. A absorção do remédio pode aumentar ainda mais a pressão e os batimentos.

Descongestionante nasal pode causar sangramento?

Pode. A bula da nafazolina cita o sangramento nasal entre as reações possíveis. O uso repetido também resseca a mucosa e forma crostas, o que deixa o nariz mais sujeito a sangrar.

Descongestionante nasal pode ser usado quantas vezes ao dia?

Depende do produto e da prescrição. A oximetazolina é usada de 12 em 12 horas. A nafazolina do Neosoro® tem intervalo mínimo de 3 horas e limite de 24 gotas por dia. Aplicar mais vezes não faz o nariz abrir por mais tempo e acelera o efeito rebote.

Afrin® é o mesmo que Naridrin®?

Não. O Afrin® tem oximetazolina, que dura mais, e o Naridrin® tem nafazolina junto com um antialérgico e dexpantenol. Os dois são descongestionantes vasoconstritores e têm os mesmos riscos de rebote e de efeito no coração.

Descongestionante nasal pode ser colocado na inalação?

Não. A bula da nafazolina diz para não utilizar o produto em inalação. O descongestionante nasal é feito para pingar ou borrifar no nariz, na dose da bula ou da receita.

Descongestionante nasal serve para sinusite?

Pode aliviar o nariz entupido numa crise de sinusite aguda, por poucos dias e com orientação médica. Ele não trata a sinusite. Quando a crise se prolonga, o uso repetido do descongestionante piora a obstrução em vez de resolvê-la.

Descongestionante nasal serve para desentupir o ouvido?

O descongestionante nasal não é tratamento para o ouvido tampado. O ouvido tampado por gripe ou rinite costuma vir da disfunção tubária, o mau funcionamento do canal que liga o nariz ao ouvido. Uma revisão da Cochrane não encontrou benefício dos descongestionantes na otite com secreção atrás do tímpano em crianças, e encontrou mais efeitos colaterais. O tratamento depende da causa, avaliada na consulta.

Rinite medicamentosa tem cura?

Tem tratamento. A mucosa costuma se recuperar depois que o descongestionante é suspenso, e o tratamento ajuda a atravessar os primeiros dias. Quem já tentou parar sozinho e não conseguiu costuma precisar de um plano feito na consulta, que também trata a causa da obstrução.

Quanto tempo dura a rinite medicamentosa?

Depende do tempo de uso e da causa do entupimento. No estudo com corticoide nasal, o inchaço da mucosa já tinha diminuído depois de uma e de duas semanas sem o descongestionante. Os primeiros dias são os mais difíceis.

Existe descongestionante nasal caseiro?

A opção feita em casa é a lavagem nasal com soro, que pode ser preparada com água, sal e bicarbonato nas medidas certas, explicadas em como fazer a solução caseira para lavagem nasal. Ela limpa e hidrata sem o risco de rebote.

Qual descongestionante nasal o bebê pode usar?

Nenhum, por conta própria. Para o bebê, o cuidado com o nariz entupido é a lavagem com soro fisiológico, explicada na orientação sobre como lavar o nariz do recém-nascido. Qualquer descongestionante abaixo dos 2 anos depende de indicação médica.

Spray de corticoide é descongestionante?

Não. O spray de corticoide trata a inflamação da mucosa e melhora o nariz entupido aos poucos, sem contrair os vasos e sem causar rinite medicamentosa. Ele é usado na dose e pelo tempo prescritos.

Referências

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