TPAC em criança menor de 7 anos: dá para diagnosticar e tratar?

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Por que o diagnóstico de TPAC é dado a partir dos 7 anos

O diagnóstico formal do transtorno do processamento auditivo central, o TPAC, só pode ser dado a partir dos 7 anos. Essa regra leva muitos pais a uma dúvida: uma criança menor pode ter TPAC? E uma criança que está demorando a falar pode ter essa dificuldade por causa de um problema de processamento auditivo?

Menina sentada no tapete com um ursinho de pelúcia, olhando para cima, e a Dra. Larissa Vilela pensativa, com o dedo na têmpora

Qualquer criança, em qualquer idade, pode ter uma alteração do processamento auditivo. O que muda com a idade é a possibilidade de confirmar o diagnóstico. Antes dos 7 anos, o cérebro ainda não amadureceu o suficiente para os testes, e a criança ainda não consegue entender e responder às tarefas do exame.

Isso não quer dizer que a criança pequena fica sem avaliação nem sem tratamento. Há testes que já podem ser feitos a partir dos 5 anos, fatores de risco que justificam um olhar mais atento e fonoterapia que pode começar antes do diagnóstico fechado.

Como o processamento auditivo se desenvolve

O processamento auditivo central é a habilidade de compreender o que se escuta. Por meio de uma região específica do cérebro, os sons que chegam ao ouvido são entendidos, decodificados e localizados.

Esse processo começa ainda na barriga da mãe. A partir de certo ponto do desenvolvimento, o feto já escuta alguns sons, e eles estimulam o sistema auditivo central do bebê. Ao nascer, a criança já processa qualquer som que escuta.

O amadurecimento continua ao longo de toda a infância e só se completa por volta do final da adolescência, no começo da vida adulta. Até lá, cada parte do processamento auditivo se desenvolve em um momento diferente.

Há, porém, um marco importante aos 7 anos. Nessa idade, uma região do cérebro chamada corpo caloso, que faz a comunicação entre os hemisférios esquerdo e direito, já está bem amadurecida. Com isso, as habilidades auditivas se desenvolvem mais, e a partir daí o processamento auditivo central pode ser avaliado com um exame detalhado.

O exame PAC e a idade mínima

O exame que avalia o processamento auditivo é o PAC, realizado na OtoCare, em Brasília. Ele foi normatizado em 2016 pela Academia Brasileira de Audiologia, com testes de compreensão auditiva, de localização dos sons e de diversas outras tarefas auditivas. O resultado mostra se o processamento auditivo central está dentro da normalidade ou se existe alteração.

A bateria completa desses testes, a que permite fechar o diagnóstico, só pode ser feita a partir dos 7 anos. Ela depende da maturação neurológica e também de um mínimo de amadurecimento da criança para entender as instruções e responder aos estímulos durante o exame.

O PAC é um exame complexo, feito em geral em duas sessões de cerca de 45 minutos cada, com uma série de avaliações. Mesmo para um adulto, muitas vezes é difícil. Com esse nível de exigência, uma criança muito pequena não consegue fazê-lo.

O guia de avaliação do processamento auditivo do Conselho Federal de Fonoaudiologia, de 2020, segue a mesma idade mínima de 7 anos. Ele acrescenta que, antes dessa idade, nem todos os testes têm valores de referência para comparar o resultado da criança.

Entre 5 e 7 anos: testes que sugerem o transtorno

Em crianças muito pequenas, o problema não é que elas não possam ter uma alteração do processamento auditivo. A questão é que ainda não existem testes padronizados para essa idade que consigam dizer com segurança se a criança tem ou não a alteração.

A partir dos 5 anos, alguns testes já podem ser feitos. Eles não fecham o diagnóstico, mas podem mostrar que o processamento auditivo da criança parece estar se desenvolvendo de forma alterada, com um amadurecimento abaixo do esperado, o que sugere um transtorno. A confirmação continua dependendo da idade de 7 anos.

O guia do Conselho Federal de Fonoaudiologia cita testes com valores de referência a partir dos 6 anos. Nessa faixa, o resultado indica risco para o transtorno ou um atraso no desenvolvimento das habilidades auditivas, sem confirmar o TPAC. Os testes usados em cada idade são escolhidos caso a caso.

Fonoterapia antes do diagnóstico

Quando a criança menor de 7 anos tem sinais que sugerem uma alteração do processamento auditivo, ela pode começar a fonoterapia mesmo sem o diagnóstico fechado. Os sinais que chamam atenção são, por exemplo:

  • atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem;
  • dificuldade para compreender o que escuta.

Nesses casos, a fonoterapia inclui estimulação auditiva para ajudar no desenvolvimento, em paralelo com as outras habilidades trabalhadas, como a linguagem. O atraso de fala também pode ter outras causas, como o transtorno do desenvolvimento da linguagem.

A terapia nessa idade é possível, mas não é tão focada quanto seria em uma criança maior. Depois dos 7 anos, com o exame feito, o quadro de cada criança fica mais bem definido, e a terapia pode ser desenhada para as habilidades que estão alteradas.

Fatores de risco: quando o PAC pode ser feito mais cedo

Algumas crianças têm mais chance de desenvolver um transtorno do processamento auditivo central e merecem um olhar mais cuidadoso. São fatores de risco:

  • história na família, como pais ou irmãos com TPAC, já que a genética é um fator de risco;
  • problemas neurológicos, como meningite ou traumatismo craniano;
  • falta de oxigênio no nascimento, chamada anóxia;
  • infecção congênita por citomegalovírus;
  • icterícia intensa no recém-nascido, a hiperbilirrubinemia;
  • prematuridade e baixo peso ao nascer;
  • otite média de repetição, com muita secreção na orelha média.

A mesma lista aparece no guia do Conselho Federal de Fonoaudiologia. Os estudos também reforçam dois desses fatores. Uma revisão de 2024 encontrou pior desempenho na maior parte dos testes de processamento auditivo em crianças que tiveram otite média secretora cedo. Um estudo russo de 2023, com 241 crianças de 6 a 11 anos, mostrou pior resultado em todos os testes aplicados nas que nasceram prematuras.

Nesse grupo de crianças com fatores de risco, o exame de PAC pode, algumas vezes, ser feito um pouco antes, para permitir um diagnóstico e uma reabilitação mais precoces.

E as crianças de 1, 2 ou 3 anos?

Crianças menores de 5 anos também podem ter alteração do processamento auditivo central. O difícil, nessa idade, é dar o diagnóstico. O que se percebe ao longo do desenvolvimento são sinais clínicos de que a criança tem uma dificuldade que vai precisar de uma abordagem mais adiante.

Nessa fase, pode haver uma suspeita, mas não um diagnóstico fechado. A criança precisa crescer um pouco para reunir o mínimo de elementos que permitam saber se é TPAC ou não. Enquanto isso, a avaliação da audição, a avaliação da fala e da linguagem e, quando indicada, a fonoterapia acompanham o desenvolvimento.

TPAC por faixa de idade

  • a partir dos 7 anos: diagnóstico formal de TPAC pelo exame PAC;
  • de 5 a 7 anos: alguns testes já podem ser feitos, e a terapia pode começar, mas de forma limitada e sem diagnóstico fechado;
  • antes dos 5 anos: o diagnóstico é difícil; pode haver sinais clínicos de uma dificuldade que vai precisar de abordagem mais adiante.

Vídeo: TPAC em criança menor de 7 anos

O vídeo abaixo explica por que o diagnóstico de TPAC é dado a partir dos 7 anos, o que pode ser feito antes e quais crianças merecem mais atenção.

Perguntas frequentes

TPAC é genético?

A genética é um fator de risco. Ter pais ou irmãos com TPAC aumenta a chance, mas não significa que a criança terá o transtorno.

TPAC pode ser adquirido?

Pode. Meningite, traumatismo craniano e otites de repetição na infância são fatores de risco que surgem depois do nascimento e aumentam a chance do transtorno.

TPAC pode ser confundido com autismo?

Pode haver confusão, porque os sinais do TPAC não são exclusivos dele e também aparecem em outras condições do desenvolvimento. Por isso a avaliação compara as possibilidades e verifica se há mais de uma condição ao mesmo tempo. O exame de PAC avalia só a parte auditiva.

O BERA diagnostica TPAC em criança pequena?

Sozinho, não. Os exames que registram a resposta elétrica da audição, como o BERA, ajudam a avaliar o caminho do som até o cérebro e são úteis em crianças menores de 7 anos, junto com a avaliação da audição e da linguagem.

Referências

  1. VILELA, Larissa. TPAC: menor de 7 anos de idade pode ter diagnóstico e tratamento? YouTube, 3 ago. 2024. 1 vídeo (10 min 56 s). Disponível em: https://youtu.be/uigu6MtS5tY. Acesso em: 28 set. 2026.
  2. CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA. Guia de orientação: avaliação e intervenção no processamento auditivo central. Brasília: CFFa, 2020. Disponível em: https://www.fonoaudiologia.org.br/wp-content/uploads/2020/10/CFFa_Guia_Orientacao_Avaliacao_Intervencao_PAC.pdf. Acesso em: 28 set. 2026.
  3. GYAWALI, B. R. et al. Impact of otitis media with effusion in early age on auditory processing abilities in children: a systematic review and meta-analysis. Ear, Nose & Throat Journal, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38561944/. Acesso em: 28 set. 2026.
  4. BOBOSHKO, M. Y. et al. Impact of prematurity on auditory processing in children. Pathophysiology, v. 30, n. 4, p. 505–521, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37987307/. Acesso em: 28 set. 2026.

Avaliação da audição da criança em Brasília

Atraso na fala, dificuldade para compreender o que escuta ou otites de repetição pedem avaliação. A OtoCare, no Noroeste de Brasília, faz a consulta com otorrino, os exames da audição da criança, o exame PAC a partir da idade indicada e a fonoterapia.

Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479

Veja todas as orientações aos pacientes da OtoCare.