Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Depois da piscina, o primeiro cuidado é não deixar o ouvido úmido
Quem já teve otite externa sabe o quanto ela incomoda. É a inflamação da pele do canal do ouvido, que causa dor e às vezes saída de secreção, e costuma aparecer depois de um dia de piscina ou de mergulho no mar. Para quem tem esse problema com frequência, existe um cuidado simples que ajuda a evitar novos episódios.
Toda vez que sair da piscina, do mar ou até do banho, pingue uma a duas gotas de álcool 70 comum em cada ouvido e deixe o líquido escorrer logo em seguida. Essa prevenção só vale para o ouvido normal, sem dor, incômodo ou secreção.
A ideia é não deixar o ouvido úmido. A otite externa acontece por excesso de umidade no canal, principalmente em quem tem predisposição, como um canal do ouvido mais estreito ou alguma outra alteração na orelha externa. Com o canal seco, é provável que as otites de repetição parem de acontecer.

Não use álcool em um ouvido que já está doendo, inflamado ou com secreção. Na pele inflamada, o álcool arde, pode doer muito na hora e a inflamação tende a piorar. Também não pingue nada se houver tubo de ventilação, perfuração do tímpano ou dúvida sobre a integridade do ouvido. Nesses casos, o ouvido precisa de avaliação antes de qualquer gota.
Por que a umidade favorece a otite externa?
Horas de piscina ou de mar alteram o pH do canal do ouvido e deixam a pele encharcada. Esse ambiente favorece a proliferação de bactérias e fungos, e a pele que reveste o canal perde parte da sua proteção. Por isso, os episódios são comuns depois de piscina, mergulho e banho de mar.
Em quem tem predisposição, até o banho de chuveiro conta. Mesmo com cuidado, um pouco de água acaba entrando no ouvido durante o banho, e essa umidade já basta para inflamar o canal de algumas pessoas.
A cera do ouvido também participa dessa defesa, porque protege a pele contra o excesso de água. Retirá-la por conta própria deixa o canal mais exposto, e o cotonete ainda machuca a pele, como explicado adiante.
Se a queixa é a sensação de água presa logo depois do banho, veja as formas seguras de tirar água do ouvido. Esta orientação trata da prevenção, voltada principalmente a quem já tem otite externa de repetição.
Quem tem maior predisposição?
Algumas pessoas têm otite externa várias vezes, enquanto outras entram na piscina sem problema nenhum. Tem mais predisposição quem tem o canal do ouvido mais estreito ou alguma alteração na orelha externa, quem nada muito ou passa bastante tempo na piscina e quem sente que a água fica presa no ouvido depois do banho.
Segundo o Manual MSD e a diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia, também aumentam o risco as doenças de pele que atingem o ouvido, como eczema, psoríase e dermatite seborreica, as alergias, os pequenos machucados feitos por cotonete ou outros objetos, o uso de aparelho auditivo ou de tampão, principalmente quando estão mal limpos ou mal ajustados, e os produtos químicos de spray de cabelo e tintura. Tratar a doença de pele e evitar que esses produtos entrem no ouvido fazem parte da prevenção.
Ter predisposição não quer dizer que toda ida à piscina vai terminar em otite. Os cuidados desta página servem justamente para quem já reconhece esse padrão.
Quando os episódios continuam mesmo com o ouvido seco, o exame procura a causa da repetição, como cera que segura a água, doença da pele, formato do canal ou fungos. Na OtoCare, a consulta examina o canal e o tímpano e define a prevenção de cada caso.
Em pessoas mais velhas com diabetes e em quem tem a imunidade baixa, a otite externa pode, raramente, se espalhar para o osso ao redor do ouvido, na chamada otite externa maligna. Dor muito forte e profunda no ouvido, que piora à noite, secreção com mau cheiro que não para e fraqueza de um lado do rosto precisam de avaliação médica sem demora.
Como usar álcool 70 para prevenir otite externa?
A técnica é rápida e pode ser feita logo depois de sair da piscina, do mar ou do banho, sempre com o ouvido normal.
- Confira se o ouvido está normal. Ele não pode estar doendo, incomodando, inflamado ou com secreção.
- Incline a cabeça de lado. O ouvido que vai receber as gotas fica virado para cima.
- Puxe levemente a orelha. A tração suave do pavilhão ajuda o álcool a entrar no canal.
- Pingue uma a duas gotas de álcool 70. Use o álcool comum, de farmácia, sem encher nem lavar o ouvido.
- Vire a cabeça para o álcool sair. Deixe o ouvido virado para baixo e espere o líquido escorrer.
- Repita do outro lado. Faça o mesmo procedimento no outro ouvido.
O álcool tira o excesso de água que ficou no ouvido e também limpa a região, retirando bactérias e até fungos. Assim, as otites diminuem. Uma a duas gotas bastam, e o álcool precisa escorrer logo depois, sem ficar parado dentro do canal.
A dica é voltada a quem já teve otite externa ou sofre com episódios de repetição. Quem tem otites depois do banho de chuveiro pode usar o álcool também depois do banho.
Quando não usar álcool 70 no ouvido?
O álcool só entra no ouvido normal. Se o ouvido já está doendo ou incomodando, não faça a prevenção. Na pele inflamada ou machucada, o álcool irrita, incomoda mais, pode doer muito na hora e deixa a inflamação pior.
Também existe um momento certo para o álcool, que é logo depois da água, enquanto a umidade ainda está no canal. Se o ouvido está tampado há dias, ou começou a doer depois da piscina, já não é hora de pingar nada, porque o quadro pode ser uma otite que começou.
Quem tem perfuração do tímpano, tubo de ventilação, otite crônica ou saída de líquido pelo ouvido também não pode pingar álcool. Se já houve cirurgia no ouvido ou não há certeza de que o tímpano está íntegro, a conduta é definida depois do exame.
Não vale trocar o álcool por receitas caseiras, óleo, remédios antigos ou gotas prescritas para outra pessoa. A orientação sobre pingar gotas em um ouvido dolorido mostra por que o diagnóstico muda o que pode ir para dentro do ouvido.
Vinagre e outras gotas previnem otite externa?
O Manual MSD cita, para quem nada, pingar, assim que a pessoa sai da água, umas gotas de álcool misturado com a mesma quantidade de vinagre branco, com a condição de o tímpano estar íntegro. O álcool ajuda a água a evaporar, e o vinagre deixa o canal mais ácido, o que dificulta o crescimento de bactérias. A diretriz americana de otorrinolaringologia também menciona gotas prescritas pelo médico, usadas antes ou depois de nadar ou na hora de dormir. São possibilidades que podem ser avaliadas caso a caso, na consulta.
Sem essa avaliação, o que se usa em casa é só o álcool 70. Vinagre, seja branco, de maçã ou qualquer outro, fica fora do ouvido quando a decisão é da própria pessoa.
As gotas com antibiótico e corticoide ficam fora da prevenção. Elas tratam a otite que já começou, com receita, e a escolha depende de ver o canal e o tímpano no exame.
Como secar o ouvido depois da água
Quem tem otite de repetição ganha muito em secar a entrada do ouvido depois de toda exposição à água. A cabeça inclinada para cada lado e a ponta de uma toalha limpa encostada na entrada do canal, sem empurrar, tiram a maior parte da água.
O secador de cabelo completa a secagem e é especialmente útil para quem tem o canal estreito ou termina todos os banhos sentindo água no ouvido. A regulagem é temperatura morna e velocidade média, a um palmo de distância, com a orelha puxada levemente para trás. Em quem tem otite externa de repetição, esse cuidado depois do banho pode entrar no dia a dia. O passo a passo está na orientação sobre como tirar água do ouvido.
Tampão de ouvido e touca: quem precisa?
O tampão de ouvido é indicado para quem tem mais predisposição à otite externa, como quem inflama o canal sempre que nada muito ou fica muito tempo na piscina. Para essas pessoas, proteger o canal com tampão, como as bolinhas de silicone, reduz a entrada de água. Quem nada e nunca teve problema no ouvido pode continuar nadando normalmente, sem proteção. Para quem tem asma, rinite ou sinusite, a natação continua indicada, e os cuidados com o nariz e o cloro estão na orientação sobre natação para asma, rinite e sinusite.
O CDC, órgão de saúde dos Estados Unidos, recomenda touca, tampão ou molde sob medida para manter os ouvidos secos ao nadar, e o NHS, serviço de saúde do Reino Unido, também cita a touca sobre as orelhas. A necessidade de proteção para quem nunca teve otite pode ser avaliada caso a caso, na consulta.
O tampão só protege quando fecha bem a entrada do canal sem entrar fundo nele. A forma de encaixar está na orientação sobre como usar tampão de silicone no ouvido. Ele é feito para o tempo da atividade. O Manual MSD lembra que o próprio tampão, mal limpo ou mal ajustado, pode irritar a pele do canal, por isso ele precisa ficar limpo e bem encaixado.
Quando o ouvido não pode molhar de jeito nenhum, como na otite em tratamento ou na perfuração do tímpano, a proteção para o banho é outra, com algodão e óleo, e está em como proteger o ouvido no banho.
Cera e cotonete: o que não fazer
A cera não é sujeira. Ela é produzida na parte mais externa do canal e tem funções importantes. Tem ação antibacteriana e antifúngica, hidrata a pele do ouvido e protege contra a retenção excessiva de água e contra a pele encharcada pela umidade. Tirar a cera para evitar otite é um engano, porque ela é uma das defesas do canal.
O cotonete faz o contrário do que se espera. Ele provoca pequenas lesões na pele do canal, que é muito sensível, e empurra a cera para dentro, de onde ela não consegue mais sair sozinha. Uma pele ferida que ainda fica úmida abre caminho para a otite externa, e dedo, grampo ou outros objetos causam o mesmo dano. Entenda por que não se deve usar cotonete no canal do ouvido.
A limpeza do ouvido é feita no banho, com água e sabão só na parte de fora, e a secagem com a ponta da toalha. Quando a cera se acumula e tampa o ouvido, a retirada é feita no consultório, como explicam as orientações sobre cera de ouvido e quando lavar o ouvido.
Álcool 70 previne, mas não trata a otite que já começou
A técnica serve para o ouvido normal depois da água. Ela não trata dor, secreção ou inflamação. Quando a otite já começou, o tratamento costuma usar gotas específicas, escolhidas depois do exame da pele do canal e do tímpano.
A grande diferença entre água no ouvido e otite é a dor que persiste. Água presa causa um abafamento que some em pouco tempo. Quando a dor fica, aumenta ou aparece ao apertar a cartilagem da frente da orelha, o mais provável é que a otite já tenha começado. Os cuidados dessa fase estão na orientação sobre otite externa: como identificar e o que fazer em casa.
Dor que tira o sono, que se arrasta por dias ou que vem com secreção pede exame. Ele diferencia a otite externa de cera, otite média e outras causas de dor de ouvido, e na OtoCare o tratamento é indicado depois desse exame.
Vídeo: técnica para evitar otite externa
O vídeo abaixo mostra a posição da cabeça, a tração suave do pavilhão, a quantidade de uma a duas gotas e a drenagem do álcool depois da aplicação.
Perguntas frequentes
Como evitar otite em criança e bebê?
Depende do tipo de otite. A otite externa, a do canal do ouvido, também acontece em crianças, e a prevenção segue os mesmos cuidados, com a entrada do ouvido seca depois do banho e da piscina e sem cotonete. Na criança com otite externa de repetição e ouvido normal, o álcool pode ser usado do mesmo jeito. No bebê, o uso é combinado na consulta. Como a criança pequena nem sempre diz que o ouvido dói, choro, mão na orelha ou secreção pedem que nada seja pingado. Nas crianças com otite externa de repetição, a Sociedade Brasileira de Pediatria cita os tampões próprios para natação, indicados na consulta. Já a otite mais comum no bebê é a otite média, atrás do tímpano, que costuma vir depois de gripes e resfriados e tem outra prevenção, como mostram as orientações sobre sintomas e tipos de otite e mamar deitado e otite.
Pode pingar álcool 70 no ouvido todos os dias?
Pode, em quem tem otite externa de repetição e o ouvido normal, sempre logo depois do contato com a água. Para quem inflama o ouvido até com a água do chuveiro, isso inclui o banho de todo dia. Sem contato com a água, as gotas não têm função. Se o álcool arder, ou se aparecer dor, coceira ou secreção, pare e deixe o ouvido ser examinado.
O secador de cabelo substitui o álcool depois da piscina?
Os dois se completam. O secador tira a umidade sem colocar nada dentro do canal. O álcool, além de tirar o excesso de água, limpa a região. Quem tem otite externa de repetição e o ouvido normal pode usar os dois depois da água. Quando o ouvido começou a doer e o álcool fica de fora, a toalha na entrada do ouvido e o secador ainda podem ser usados.
Depois de uma otite externa, quando dá para voltar a nadar?
Segundo a diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia, a natação costuma ser liberada dois a três dias depois do fim do tratamento, se a dor já passou, com o uso de tampão de ouvido. Durante o tratamento, o ouvido fica longe da água. A liberação é confirmada no exame, com o canal já sem inflamação.
A qualidade da água da piscina faz diferença?
Faz. A diretriz americana registra mais otite externa em quem nada em piscina com água mal tratada e em quem vive em lugares quentes, onde se passa mais tempo na água. Em qualquer água, o mais importante continua sendo não deixar o ouvido úmido depois, com a entrada seca e, em quem tem predisposição, o álcool ou o tampão.
Fone de ouvido ou aparelho auditivo pode causar otite externa?
Pode contribuir. O Manual MSD cita o aparelho auditivo e o tampão, sobretudo quando estão mal limpos ou mal ajustados, entre os fatores ligados à otite externa, porque ficam em contato com a pele do canal. Fones que entram no canal ficam na mesma posição, e a diretriz americana recomenda limitar o uso de fones e de aparelho durante uma otite, até a dor e a secreção passarem. Quem usa aparelho auditivo e sente coceira encontra os cuidados na orientação sobre coceira no ouvido com aparelho auditivo.
Referências
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