Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Dá para evitar que a perda auditiva piore?
Muitos pacientes com perda auditiva chegam ao consultório com a mesma pergunta. A perda que já existe, na maioria das vezes, não tem como ser recuperada. Mas existe algo a fazer no dia a dia para que ela não piore, além de usar o aparelho auditivo?
Existe, sim. São quatro cuidados principais, que valem tanto para quem já tem perda auditiva quanto para quem quer manter a audição boa ao longo da vida: evitar o ruído excessivo, cuidar da alimentação, praticar atividade física e tratar bem as doenças crônicas.

Esses cuidados fazem diferença porque boa parte da perda de audição dos adultos não acontece por acaso nem vem só da herança genética. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que as causas mais comuns de perda auditiva no adulto, como a exposição a sons altos e alguns remédios que lesam o ouvido, podem ser prevenidas. A genética também tem o seu papel, inclusive em perdas que aparecem ou avançam mais tarde, mas a OMS não a coloca entre as causas mais comuns no adulto.
1. Evite o ruído excessivo
Este é talvez o cuidado mais importante. A perda auditiva que aparece ao longo dos anos se deve, em grande parte, a toda a exposição a ruído que a pessoa teve durante a vida. O ruído excessivo vai desgastando a orelha interna, a parte do ouvido responsável por transformar o som em sinal para o cérebro.
Esse desgaste acontece porque o barulho intenso provoca reações de estresse oxidativo nas células da cóclea, as células que captam o som. Uma revisão sobre os mecanismos da perda auditiva induzida por ruído descreve o acúmulo de radicais livres dentro dessas células como um dos caminhos que levam à sua morte. Segundo o NIDCD, instituto de saúde dos Estados Unidos, essas células não voltam a crescer no ser humano.
Hoje, com celulares, fones de ouvido, televisões e telas por toda parte, não é raro a perda auditiva começar mais cedo, justamente pelo excesso de exposição a ruído.
Volume sempre no mínimo necessário
A regra é escutar tudo no volume mais baixo possível que ainda permita ouvir bem: a música, a televisão, a reunião por videoconferência no computador ou no celular. Uma forma prática de seguir isso é olhar a barra de volume do aparelho e mantê-la sempre da metade para baixo. E quanto menos, melhor.
Ouvir com o volume mais alto dá, de fato, uma experiência sonora melhor, mas o ideal continua sendo reduzir o volume e escutar na menor intensidade possível. Se em algum momento a pessoa quiser escutar música mais alta, que seja de forma pontual, sem virar regra. Os detalhes de volume, tempo de uso e tipo de aparelho estão na orientação sobre o melhor fone de ouvido para a audição.
Shows, festas e caixas de som
Em festas e shows, o cuidado é não ficar perto das caixas de som. Quanto mais longe, melhor, porque quanto menor o volume que chega ao ouvido, menor o desgaste. A OMS faz a mesma recomendação e lembra que a intensidade do som cai à medida que a pessoa se afasta da fonte.
Por que o dano do ruído se acumula
O desgaste causado pelo ruído vai se acumulando ao longo do tempo. Existe, sim, um processo de recuperação depois de cada exposição, mas o que fica de desgaste se soma ao das exposições seguintes, por toda a vida. Por isso tudo o que reduzir a exposição a sons, barulhos e ruídos vale a pena.
Aquela sensação de ouvido abafado ou de zumbido depois de um show, que passa em um ou dois dias, não significa necessariamente que nada aconteceu. Em um estudo com camundongos, exposições a ruído que causaram uma perda totalmente reversível no exame deixaram uma lesão permanente nas fibras do nervo auditivo. O NIDCD lembra que o dano do ruído costuma ser gradual e passar despercebido, e que, somado ao envelhecimento, pode levar a uma perda importante.
Existe tempo seguro de exposição ao ruído?
Não existe uma regra que diga que até tantos minutos, em tal intensidade, a exposição é segura. O motivo é justamente o acúmulo, já que o que conta é a soma de tudo o que o ouvido recebe ao longo da vida. Por isso a orientação é evitar música muito alta, sempre.
A OMS trabalha com uma conta semanal. Ela considera que 80 decibéis podem ser ouvidos por até 40 horas por semana e que, a 90 decibéis, esse tempo cai para 4 horas por semana. Pela mesma tabela, 85 decibéis cabem em cerca de 12 horas e meia por semana, bem menos do que as oito horas por dia que às vezes circulam como seguras para o fone de ouvido. Essas oito horas vêm do limite de uma jornada de trabalho, não de uma recomendação para o lazer. A conta da OMS mostra como a margem encolhe depressa quando o volume sobe, e é uma referência que pode ser avaliada caso a caso, na consulta.
Ruído no trabalho: use o protetor auricular
Quem trabalha em locais com muito barulho precisa usar o equipamento de proteção individual (EPI) adequado, como o protetor auricular. Muitos acham que ficar um tempo sem o EPI não tem problema. Tem, sim. Todo o tempo de proteção conta.
No Brasil, a Norma Regulamentadora 15 (NR-15), do Ministério do Trabalho, fixa o limite de 85 decibéis para uma jornada de oito horas, e esse tempo cai para quatro horas a 90 decibéis. Acima de 115 decibéis, a norma não permite exposição sem proteção adequada. Ela também soma as exposições de níveis diferentes ao longo do dia, o mesmo raciocínio de acúmulo.
Adolescentes e música alta
Para os adolescentes que gostam de ouvir música muito alta, fica o alerta: isso pode levar a uma perda auditiva induzida por ruído. Uma revisão de estudos com jovens de 12 a 34 anos, somando mais de 19 mil participantes, estimou que cerca de 1 em cada 4 usa celular e fone em níveis considerados inseguros. A audição das crianças e dos adolescentes tem um calendário próprio de exames, descrito na orientação sobre audiometria em crianças.
2. Cuide da alimentação
Como em tudo na medicina, a alimentação é a base de uma boa saúde, e isso vale também para a audição. A orelha interna, a região da cóclea e do labirinto, é extremamente sensível a variações metabólicas e hormonais do organismo.
Açúcar e picos de glicemia
Os picos de glicemia, que é o açúcar no sangue, afetam diretamente a orelha interna. Ao longo do tempo, eles geram desgaste e estresse oxidativo nas células auditivas e se tornam um fator de risco importante para a perda auditiva. Por isso uma alimentação com menos açúcar, doces e carboidratos simples ajuda a manter a glicemia em níveis bons e a proteger a audição.
Um estudo australiano acompanhou 2.956 pessoas com 50 anos ou mais. Entre as que ainda não tinham perda auditiva, quem tinha a dieta de maior carga glicêmica, rica em carboidratos que elevam o açúcar no sangue, teve um risco 76% maior de desenvolver perda auditiva nos anos seguintes do que quem tinha a dieta de menor carga. Os autores apontam os picos de glicemia depois das refeições como um possível mecanismo.
Gordura, colesterol e a circulação do ouvido
Também é importante evitar o excesso de gorduras e de frituras. O colesterol ruim em excesso leva a doenças cardiovasculares, entre elas a aterosclerose, que reduz a circulação do sangue, inclusive na orelha interna. A orelha interna é muito sensível a variações do fluxo de sangue, e as artérias que irrigam o ouvido são extremamente finas. Alterações nos vasos podem afetar a audição.
Fitoesteróis e outros alimentos
Alguns alimentos podem trazer benefício. Os fitoesteróis, gorduras de origem vegetal, mostraram em estudos experimentais algum efeito na saúde auditiva, até com melhora de perdas já existentes. Quais alimentos contêm fitoesteróis e o que os estudos mostram até agora estão na orientação sobre alimentos para melhorar a audição.
3. Pratique atividade física
O exercício físico ajuda muito a saúde auditiva. Ele melhora a circulação do corpo inteiro e, como a orelha interna é sensível às variações do fluxo de sangue, a atividade física favorece uma boa circulação no ouvido. Com isso, vai evitando o desgaste que acontece ao longo dos anos e que leva à perda auditiva com o tempo.
Os estudos apontam na mesma direção. Em um acompanhamento de 20 anos com mais de 68 mil mulheres, as mais ativas tiveram um risco 17% menor de perda auditiva do que as menos ativas, e caminhar duas horas ou mais por semana já se associou a menor risco. Uma revisão de 2025 reuniu 13 estudos e encontrou de forma consistente menos perda auditiva em quem tem mais condicionamento cardiorrespiratório e mais força muscular. Os autores lembram que ainda faltam ensaios clínicos para provar que o exercício é a causa direta dessa proteção.
4. Trate as doenças crônicas
O quarto cuidado é tratar as doenças crônicas, principalmente as metabólicas e as cardiovasculares. Já está comprovado que hipertensão, diabetes e colesterol alto, quando não tratados, afetam a orelha interna. É o mesmo raciocínio da alimentação e do exercício, porque o ouvido é muito sensível às variações metabólicas e ao fluxo de sangue.
Quem tem alguma dessas doenças e não se cuida direito, deixa de tomar os remédios ou não faz o acompanhamento médico regular pode ter a audição afetada e ver a perda auditiva piorar.
Uma análise que reuniu 13 estudos e mais de 20 mil pessoas encontrou cerca do dobro de chance de perda auditiva em quem tem diabetes, e a diferença foi maior nos estudos com participantes mais jovens, com média de idade de até 60 anos. Outra análise, com quase 600 mil participantes, encontrou chance cerca de 85% maior de perda auditiva em quem tem pressão alta. Os fatores que aceleram a perda com o envelhecimento estão na orientação sobre surdez com a idade.
Cigarro e remédios também pesam
Além dos quatro cuidados principais, o cigarro também prejudica a audição. Uma análise de estudos encontrou risco maior de perda auditiva nos fumantes, e um estudo com mais de 50 mil trabalhadores japoneses mostrou que o risco cresce com o número de cigarros por dia e diminui depois que a pessoa para de fumar.
Alguns medicamentos podem lesar a orelha interna, efeito chamado de ototoxicidade. A OMS inclui esses remédios entre as causas evitáveis de perda auditiva. Não é motivo para interromper um tratamento por conta própria, mas é motivo para não tomar remédio sem indicação e para informar a perda auditiva em toda consulta antes de começar um tratamento.
Para quem já tem perda auditiva
Os quatro cuidados valem ainda mais para quem já tem perda auditiva, porque o objetivo passa a ser preservar a audição que resta. A OMS lembra que tomar medidas preventivas e limitar a exposição a sons altos ajuda a reduzir o risco de progressão da perda.
O aparelho auditivo continua sendo o tratamento que devolve o acesso aos sons quando a perda atrapalha a conversa, e os cuidados do dia a dia andam junto com ele. A perda auditiva sem tratamento também tem relação com a memória, como explica a orientação sobre surdez e demência.
O acompanhamento com audiometria mostra se a perda está estável ou piorando. Os intervalos recomendados estão na orientação sobre quando fazer audiometria, e o exame é feito na OtoCare, no Noroeste de Brasília. Se a audição cair de repente, em horas ou poucos dias, o quadro é outro: a surdez súbita precisa de avaliação o quanto antes. Nesse caso, agende pelo WhatsApp e informe a perda súbita para que o horário seja priorizado.
Os quatro cuidados com a audição, lado a lado
| Cuidado | O que fazer | Por que protege o ouvido |
|---|---|---|
| Evitar o ruído excessivo | volume da metade da barra para baixo, longe das caixas de som, EPI no trabalho | o ruído desgasta as células da cóclea, e o dano se acumula |
| Cuidar da alimentação | menos açúcar, doces, carboidratos simples, gorduras e frituras | picos de glicemia e colesterol agridem a orelha interna |
| Praticar atividade física | exercício regular | melhora a circulação nas artérias finas do ouvido |
| Tratar as doenças crônicas | remédios em dia e acompanhamento regular de pressão, diabetes e colesterol | essas doenças, sem controle, afetam a orelha interna |
Cuide da saúde como um todo: das doenças crônicas, da alimentação e da atividade física, e evite o excesso de ruído no dia a dia, no que for possível. É esse conjunto que protege a audição ao longo da vida e ajuda a evitar que uma perda auditiva já existente piore.
Vídeo: como cuidar da audição
O vídeo abaixo apresenta os quatro cuidados para evitar a perda auditiva ou a progressão de uma perda que já existe.
Perguntas frequentes
Perda auditiva pode piorar?
Pode. A perda auditiva pode avançar com o tempo, e o ritmo depende em parte dos fatores descritos nesta página, como o ruído, a glicemia, a pressão e o colesterol. Cuidar desses fatores é o que está ao alcance do paciente para evitar a piora.
Perda auditiva tem como recuperar?
Depende do tipo. A perda neurossensorial, que vem da lesão das células da orelha interna, em geral não se recupera, e por isso a prevenção é tão importante. Já muitas perdas condutivas, como as causadas por cera ou por otite, melhoram com o tratamento da causa. As diferenças estão na orientação sobre os tipos de perda auditiva.
Perda auditiva é genética?
Algumas são. Há perdas genéticas presentes desde o nascimento e outras que aparecem ou avançam mais tarde. Mas, segundo a OMS, as causas mais comuns no adulto, como o ruído e os remédios que lesam o ouvido, podem ser evitadas.
Como evitar a perda auditiva precoce?
O principal é reduzir a exposição a sons altos desde cedo, com fone e celular em volume baixo e distância das caixas de som. Somam-se a isso a alimentação equilibrada, o exercício e o controle da pressão, do diabetes e do colesterol.
Como prevenir a perda auditiva no trabalho?
Com o protetor auricular adequado, usado durante toda a exposição ao ruído. Tirar o protetor por alguns minutos parece pouco, mas o ruído desse período também se soma. A OMS sugere ainda afastar o posto de trabalho das fontes de barulho, quando possível, e passar as pausas em lugares silenciosos.
Quantos decibéis prejudicam a audição?
Segundo o NIDCD, sons de até 70 decibéis dificilmente causam perda auditiva, mesmo com exposição longa. A partir de 85 decibéis, a exposição longa ou repetida pode lesar o ouvido, e quanto mais alto o som, menor o tempo necessário para o dano.
Zumbido depois de show é normal?
É comum, mas é um sinal de que o ouvido recebeu mais som do que deveria. Segundo o NIDCD, essa perda temporária costuma desaparecer entre 16 e 48 horas, e mesmo assim pode deixar um dano duradouro. Se o zumbido ou o ouvido abafado não passarem, a audição precisa ser avaliada.
Usar cotonete prejudica a audição?
Pode. Ao tentar limpar, o cotonete empurra a cera mais para dentro e pode entupir o canal do ouvido. A cera também protege o ouvido, e a orientação é não colocar nenhum objeto dentro do canal. Mais detalhes na orientação sobre cotonete no ouvido.
Parar de fumar ajuda a audição?
Ajuda. Em um grande estudo com trabalhadores no Japão, o risco extra de perda auditiva ligado ao cigarro diminuiu depois que a pessoa parou de fumar, mesmo entre quem tinha parado havia menos de cinco anos.
Remédio pode prejudicar a audição?
Alguns medicamentos podem ser ototóxicos, ou seja, lesar a orelha interna ou o nervo auditivo. Quando o remédio é necessário, o acompanhamento da audição durante o tratamento permite ajustar a conduta para evitar uma perda permanente. A OMS inclui o uso racional de medicamentos entre as medidas para prevenir esse tipo de perda auditiva.
Quem tem perda auditiva deve fazer audiometria com que frequência?
O intervalo é definido na consulta, conforme o tipo e o grau da perda e a rapidez com que ela vem mudando. Quem percebe que passou a ouvir pior deve repetir o exame sem esperar a data prevista.
Referências
- VILELA, Larissa. Como cuidar da audição para evitar perdas auditivas ou progressão de perdas já existentes. YouTube, 1 fev. 2025. 1 vídeo (9 min 33 s). Disponível em: https://youtu.be/pvPeJjHQcqU. Acesso em: 1 out. 2026.
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