Doenças mais comuns no carnaval: quais são e como se prevenir

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Por que tanta gente adoece depois do carnaval

Nos dias seguintes ao carnaval, os consultórios dos otorrinolaringologistas ficam cheios de pacientes com doenças respiratórias e infecciosas. Dor de garganta, nariz entupido, febre e tosse se repetem de um paciente para outro. A festa junta muita gente, vinda de lugares diferentes, por vários dias seguidos, e isso cria o cenário ideal para a transmissão das doenças infecciosas respiratórias.

Dois motivos explicam esse aumento. O primeiro é a aglomeração, que faz circular muito mais vírus e bactérias. O segundo é a queda da imunidade de quem passa dias comendo mal, bebendo pouca água, exagerando no álcool e dormindo pouco. Os dois pesam juntos, e contra os dois existe prevenção.

Dra. Larissa Vilela ao lado de uma foliã com máscara dourada e sombrinha colorida de frevo, entre confetes e serpentinas de carnaval

Como as doenças passam de uma pessoa para outra na folia

A maior parte dessas doenças passa pelo contato direto entre as pessoas. Ao falar, tossir ou espirrar, quem está doente solta gotículas de secreção respiratória que alcançam quem está por perto. No beijo, a saliva vai direto de uma boca para a outra. As mãos também carregam os vírus quando tocam uma superfície contaminada e depois o nariz, a boca ou os olhos, como descreve o Ministério da Saúde.

Na aglomeração, cada pessoa doente encontra muito mais gente em pouco tempo, e a circulação dos vírus e das bactérias aumenta muito. As infecções respiratórias são as doenças mais comuns nos grandes eventos com multidões e as que mais se espalham para fora do local do evento, segundo uma revisão sobre a peregrinação anual a Meca, um dos maiores encontros de pessoas do mundo. Na Holanda, um estudo comparou regiões com e sem carnaval durante a temporada de gripe de 2017 e 2018 e encontrou um salto de casos novos na região da festa cerca de uma semana depois do carnaval, o que não aconteceu na região sem a festa.

A folia que derruba a imunidade

O segundo motivo é o próprio ritmo da festa. A folia faz deixar de lado os cuidados com a saúde, a imunidade cai, e o organismo fica mais predisposto a manifestar as doenças com que entrou em contato.

Esse efeito aparece nos estudos. O álcool em excesso enfraquece o sistema imunológico, e uma única ocasião de muita bebida já reduz a capacidade do corpo de combater infecções por até 24 horas, segundo o instituto de saúde dos Estados Unidos dedicado ao álcool, o NIAAA. O sono também pesa. Em um estudo com voluntários expostos ao vírus do resfriado, quem dormia menos de 7 horas por noite teve quase três vezes mais chance de ficar resfriado do que quem dormia 8 horas ou mais.

As doenças mais comuns no carnaval

As doenças mais comuns no carnaval, e que mais aparecem no consultório depois da festa, são o resfriado, a gripe, a covid-19, as amigdalites e faringites, a mononucleose e o herpes labial. Todas são infecciosas e passam de uma pessoa para outra, mas cada uma tem um jeito próprio de se apresentar.

Resfriado: o mais comum e, em geral, leve

O resfriado é uma doença viral, geralmente leve, causada principalmente pelo rinovírus e também pelo adenovírus, entre outros vírus. Os sintomas são uma dor de garganta leve, nariz entupido, secreção no nariz, espirros e coceira. Às vezes vêm junto um pouco de tosse, mal-estar e dor no corpo. No geral, é um quadro leve, que melhora sozinho.

Gripe: febre alta e prostração

A gripe é causada pelo vírus influenza. Os sintomas lembram muito os do resfriado, mas vêm com febre alta e um mal-estar geral bem maior. A pessoa fica mais prostrada do que num resfriado, sem disposição para nada, e os sintomas costumam começar de repente. Nos quadros graves de gripe aparecem tosse, cansaço e até falta de ar. A pneumonia é a principal complicação, mais frequente em idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas. O que ajuda na recuperação de cada um dos dois quadros está na orientação sobre como curar gripes e resfriados.

Covid-19: perda de olfato e paladar

A covid-19 também se parece com a gripe e o resfriado. Ela costuma trazer febre, calafrios, tosse seca, dor de garganta e sintomas no nariz. A perda do olfato e do paladar é um sintoma muito característico da covid. Com as variantes mais recentes do vírus, esse sinal passou a aparecer em menos pacientes do que no começo da pandemia, e por isso a ausência dele não afasta a doença. Como diferenciar a covid da gripe e da dengue, e qual exame fazer em cada caso, está na orientação sobre como saber se é dengue, gripe ou covid.

Amigdalite e faringite: garganta vermelha, ínguas e placas

Nas amigdalites e faringites, a garganta dói, engolir fica difícil, e é comum ter dor de cabeça, dor no corpo e febre. Muitas vezes aparecem ínguas, que são carocinhos doloridos no pescoço. Quem olha a garganta vê que ela está vermelha e inchada. Nos quadros causados por bactéria, aparecem as placas de pus no fundo da garganta.

A maior parte das dores de garganta é causada por vírus, e a bactéria mais comum nesses casos é o estreptococo do grupo A. As placas de pus são o sinal típico da infecção bacteriana, e algumas viroses, como a mononucleose, também formam placas que confundem. Na OtoCare, quando há suspeita de infecção por bactéria, o teste rápido de estreptococo é feito na própria consulta. Como olhar a garganta em casa e o que cada achado indica está na orientação sobre garganta inflamada por vírus ou bactéria.

Mononucleose, a doença do beijo

A mononucleose infecciosa é uma doença viral causada pelo vírus Epstein-Barr, da família do herpes. O quadro é muito parecido com o de uma amigdalite ou faringite, com dor de garganta, dificuldade para engolir, febre, mal-estar e dor no corpo. Na garganta, ela forma placas esbranquiçadas bem características, que chegam a ser confundidas com as de uma infecção bacteriana. Mas o quadro é viral.

A mononucleose é conhecida popularmente como doença do beijo porque o vírus passa muito pela saliva. Além do beijo, ele é transmitido pelos copos, talheres e escovas de dentes compartilhados. Os sintomas demoram semanas para aparecer depois do contato. Diagnóstico, duração, tratamento e o antibiótico que não deve ser usado nessa doença estão na orientação sobre a doença do beijo.

Herpes labial: bolhinhas no lábio

O herpes labial também é uma doença viral, causada pelo vírus herpes simples. Ele forma lesões nos lábios, pequenas bolhas chamadas vesículas, sobre uma base avermelhada. O vírus passa principalmente pelo contato com a boca, como no beijo, e pelos objetos que tocaram a saliva de quem tem a lesão. O vírus é muito comum, e cerca de dois terços das pessoas com menos de 50 anos no mundo têm o herpes simples tipo 1, a principal causa do herpes labial, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Depois da primeira infecção, o vírus fica no organismo pelo resto da vida e pode voltar a causar lesões de tempos em tempos. Febre, doença e sol estão entre os gatilhos conhecidos dessa volta, e isso ajuda a explicar por que o herpes labial aparece tanto depois de dias de festa ao ar livre. A lesão transmite o vírus desde o formigamento do começo até cicatrizar por completo, e nesse período não se deve beijar nem compartilhar copos e talheres.

Outras doenças que exigem atenção no carnaval

Fora das doenças respiratórias e da garganta, o carnaval também pede atenção às infecções sexualmente transmissíveis. O preservativo, interno ou externo, é a forma mais conhecida de prevenção, e faz parte da prevenção combinada do Ministério da Saúde. A água e os alimentos de procedência duvidosa, comuns nos dias de festa na rua, podem causar diarreia e vômitos. O Guia Alimentar do Ministério da Saúde orienta beber só água segura e própria para o consumo.

Como evitar doenças no carnaval

Os cuidados para se prevenir no carnaval são poucos e valem para os dias de festa e para os dias seguintes. A maior parte deles serve ao mesmo tempo para o resfriado, a gripe, a covid, a amigdalite, a mononucleose e o herpes labial.

Comer bem e beber muita água

Manter uma alimentação adequada é o primeiro passo para o corpo estar bem e preparado para combater qualquer microrganismo com que entre em contato. Beber muita água, se hidratar, também é muito importante para cuidar da saúde, ainda mais no calor e com a bebida alcoólica. O Ministério da Saúde inclui a alimentação balanceada e a ingestão de líquidos entre os hábitos que ajudam a prevenir a gripe e recomenda atender logo aos primeiros sinais de sede e levar uma garrafinha de água quando se está fora de casa.

Evitar o excesso de bebida alcoólica

O consumo excessivo de álcool faz a imunidade cair e deixa o organismo mais predisposto às doenças infecciosas respiratórias, entre outras. Por isso, a moderação na bebida faz parte da prevenção.

Dormir bem, mesmo que seja de dia

Ter boas noites de sono faz parte da prevenção. Quando a festa termina tarde, a orientação é compensar dormindo mais ao longo do dia, para o corpo conseguir se recuperar.

Lavar as mãos

Lavar bem as mãos com água e sabão ou usar álcool em gel diminui a chance de levar os vírus da mão para o nariz, a boca e os olhos. O Ministério da Saúde recomenda esse cuidado principalmente antes de comer. Em uma revisão da Cochrane com mais de 50 mil pessoas, os programas de higiene das mãos reduziram em cerca de 14% o número de pessoas com infecções respiratórias. O efeito é modesto, mas o cuidado é simples, e um frasco pequeno de álcool em gel cabe em qualquer fantasia.

Não compartilhar copos e talheres

Copos, latas, garrafas e talheres compartilhados são grandes veículos de transmissão das doenças respiratórias e das que passam pela saliva, como a mononucleose e o herpes labial. Sempre que possível, cada pessoa usa o próprio copo. O Ministério da Saúde inclui esse cuidado entre as medidas de prevenção da gripe.

Vacinas em dia

A vacinação é a forma mais eficaz de prevenção contra a gripe e as suas complicações, segundo o Ministério da Saúde, e a vacina da covid-19 é a principal forma de evitar os casos graves dessa doença. Quem está com alguma dose atrasada pode aproveitar para colocar a caderneta em dia antes da festa. Quem tem direito à vacina da gripe e a melhor época para tomar estão na orientação sobre a vacina da gripe, e o peso da baixa vacinação nas viroses mais graves aparece na orientação sobre os vírus mais fortes.

Lavagem nasal: uma ótima aliada contra as doenças respiratórias

A lavagem nasal com soro fisiológico é uma ótima forma de se prevenir das doenças respiratórias. A solução remove a sujeira do nariz e limpa a mucosa nasal, e com isso também remove os microrganismos, vírus e bactérias, que tenham entrado em contato com ela. Depois de dias no meio da multidão, o nariz é a porta de entrada de boa parte do que circula no ar.

Os estudos medem sobretudo o efeito do soro em aliviar e encurtar a doença. Uma revisão da Cochrane encontrou alívio dos sintomas das infecções agudas do nariz e da garganta, com estudos ainda pequenos. Em um ensaio no Reino Unido com quase 14 mil adultos com doenças crônicas, com 65 anos ou mais ou com infecções respiratórias frequentes, quem foi orientado a usar spray de soro no nariz aos primeiros sinais de infecção ou depois de ter contato com alguém doente passou menos dias doente ao longo de seis meses. As pesquisas com a lavagem nasal para evitar que a infecção comece ainda são poucas, e o uso preventivo pode ser avaliado caso a caso, na consulta.

Durante a lavagem, a respiração é feita pela boca o tempo todo. Como fazer em casa, com garrafinha ou seringa, está na orientação sobre a melhor forma de fazer a lavagem nasal, e o preparo do soro, na orientação sobre a solução caseira para lavagem nasal.

Doente depois do carnaval: o que fazer

Quem apresenta algum desses sintomas depois da festa deve procurar avaliação para ter um diagnóstico adequado e começar cedo o tratamento correto, o que ajuda a ter uma recuperação mais rápida. Gripe, covid, amigdalite bacteriana e mononucleose podem começar de forma parecida, e o tratamento de cada uma é diferente. Na OtoCare, quando há suspeita, o teste rápido combinado de covid-19 e influenza A e B e o teste rápido de estreptococo são feitos na própria consulta.

Com sintomas e sem diagnóstico, o ideal é não voltar ao trabalho nem levar a criança à escola, para não transmitir a doença a outras pessoas. Na gripe, o Ministério da Saúde orienta manter o afastamento por um período depois que a febre passa sem antitérmico, e o prazo da volta está na orientação sobre como prevenir gripes e resfriados na escola. Os sinais de que a virose está saindo do curso esperado estão na orientação sobre quando procurar o médico na gripe. A falta de ar precisa de avaliação médica sem demora.

Vídeo: doenças mais comuns no carnaval e como preveni-las

Perguntas frequentes

Qual é a doença do carnaval?

Não existe uma única doença do carnaval. O nome é usado para as infecções que aumentam nos dias seguintes à festa, principalmente resfriado, gripe, covid-19, amigdalite, faringite, mononucleose e herpes labial. O vírus que mais circula muda de um ano para outro, e por isso o diagnóstico de cada caso é feito na consulta, pelos sintomas e, quando preciso, por teste rápido.

Quanto tempo depois do carnaval aparecem os sintomas?

Depende da doença. Na gripe, os sintomas costumam começar de 1 a 4 dias depois do contato com o vírus, segundo a Organização Mundial da Saúde. Na covid-19, o Ministério da Saúde descreve de 1 a 10 dias, em geral 3 ou 4. A mononucleose demora bem mais, várias semanas, e por isso costuma aparecer quando a festa já ficou para trás, como explica a orientação sobre a doença do beijo.

Dor de garganta passa pelo beijo?

A dor de garganta não passa, mas os vírus e as bactérias que causam a dor de garganta passam. O beijo leva a saliva de uma boca para a outra e transmite a mononucleose, o herpes labial e os vírus de gripes e resfriados.

Quais doenças podem ser transmitidas pelo beijo?

Entre as doenças tratadas pelo otorrino, as mais lembradas são a mononucleose, chamada de doença do beijo, e o herpes labial. Também passam pelo beijo os vírus do resfriado, da gripe e da covid-19 e as bactérias das amigdalites. Copos, latas e talheres compartilhados levam a saliva da mesma forma, mesmo sem beijo.

O herpes labial pode aparecer depois do carnaval mesmo sem beijar ninguém?

Pode. Em quem já teve herpes labial, a lesão pode voltar sem nenhum contato novo, por exemplo depois de um resfriado ou de um dia inteiro no sol. Uma lesão nova depois da festa não quer dizer, então, que a pessoa pegou o herpes no carnaval.

Quem tem herpes labial pode tomar sol?

Quem tem as crises desencadeadas pelo sol deve evitar a exposição e usar protetor solar, segundo a Organização Mundial da Saúde. Nos lábios, o protetor labial com filtro solar facilita esse cuidado. Enquanto a lesão não cicatriza, o mais importante é não beijar e não compartilhar copos, porque nessa fase ela transmite o vírus.

Herpes labial precisa de antibiótico?

Não. O herpes labial é causado por um vírus, e o antibiótico só age contra bactérias. Quando o tratamento é indicado, ele é feito com remédio antiviral, que funciona melhor quando começa logo nos primeiros sinais da crise, como o formigamento no lábio. A indicação e a forma de uso são definidas na consulta.

Lavagem nasal previne gripe?

A lavagem nasal faz parte da prevenção das doenças respiratórias, e a vacina continua sendo a principal proteção contra a gripe. Para as crianças que frequentam escola, o que os estudos mostram está na orientação sobre como prevenir gripes e resfriados na escola.

Virose do carnaval dá diarreia?

Pode dar. A covid-19 pode vir com náusea, vômito e diarreia, segundo o Ministério da Saúde. Nos dias de festa, a diarreia também costuma ter outra causa, a água e os alimentos contaminados. Beber só água segura e própria para o consumo, como orienta o Guia Alimentar do Ministério da Saúde, é uma das formas de evitar.

Bebida gelada causa dor de garganta no carnaval?

Bebida gelada não causa amigdalite nem faringite, que são infecções por vírus ou bactéria. O frio pode irritar a garganta e causar incômodo, principalmente em quem tem amigdalite ou faringite de repetição, mas não cria uma infecção. A dor de garganta com febre depois da festa vem dos vírus e das bactérias que circulam na aglomeração. A relação entre gelado e garganta está explicada na orientação sobre se gelado causa dor de garganta.

Tomar vitamina antes do carnaval previne doenças?

A vitamina C, a mais procurada, não previne resfriado na população em geral, como mostra a orientação sobre vitamina C para gripe e resfriado. Ela faz diferença em quem tem falta da vitamina, o que se avalia na consulta. Para quem se alimenta normalmente, a alimentação adequada, a água, o sono e a moderação no álcool fazem mais diferença do que o suplemento.

Referências

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Avaliação de garganta, nariz e ouvidos depois do carnaval, em Brasília

Dor de garganta que não melhora, placas na garganta, nariz entupido, febre ou dor de ouvido depois do carnaval pedem exame do nariz, da garganta e dos ouvidos. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a avaliação identifica a causa, com teste rápido na própria consulta quando há suspeita, e define o tratamento de cada caso.