Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
A impressão de que as viroses estão mais fortes
Muita gente gripada ao mesmo tempo, crianças doentes mais cedo do que o normal e notícias de casos graves por gripes e resfriados. Diante disso, uma pergunta tem aparecido muito no consultório do otorrino. As viroses estão vindo mais fortes ou é só impressão?
Não é só impressão. As viroses respiratórias de 2026 vieram de um jeito diferente do habitual em dois pontos: chegaram mais cedo e chegaram mais agressivas, com mais casos graves de gripe. As causas são várias, e uma delas tem solução ao alcance de quase todo mundo, a vacina da gripe.

As viroses de 2026 chegaram mais cedo
Normalmente, as viroses respiratórias atingem o pico de casos entre o outono e o inverno, por volta de maio e junho. Em 2026 foi diferente. Os casos começaram a subir em março e chegaram ao máximo entre abril e maio. Quem tem filhos pequenos talvez tenha percebido que as crianças ficaram gripadas bem antes do que nos outros anos.
Os boletins do Ministério da Saúde registraram essa antecipação. Em março, o aumento da gripe causada pela influenza A vinha cerca de quatro semanas antes do aumento sazonal de 2025, e o próprio boletim chamou o movimento de atípico. Os testes positivos para influenza A começaram a cair a partir de meados de abril. O vírus sincicial respiratório, que dominou os casos graves em maio e junho, manteve as internações altas por mais tempo, e a queda geral só apareceu no começo de julho.
Os quatro vírus que mais causam viroses respiratórias
São muitos os vírus que causam gripes e resfriados, mas quatro concentram a maior parte dos casos. O mais comum de todos é o rinovírus, o vírus clássico do resfriado, que também aparece entre os casos graves. Nos quadros mais graves entram os outros três, o influenza, que é o vírus da gripe, o vírus sincicial respiratório, conhecido pela sigla VSR, e o vírus da covid-19. A covid continua causando casos até hoje, e muitas vezes casos graves.
Caso grave, nesse contexto, quer dizer síndrome respiratória aguda grave, a SRAG. Nesse quadro, a virose evolui com falta de ar, desconforto para respirar ou queda do oxigênio no sangue e, em geral, leva à internação.
No começo da temporada de 2026, entre os casos graves com vírus identificado, o rinovírus veio em primeiro lugar, a influenza em segundo, o VSR em terceiro e a covid em quarto. No fim de março, o boletim InfoGripe, da Fiocruz, mostrava o rinovírus em 43% desses casos, a influenza A em 23%, o VSR em 15% e a covid em 12%. Essa ordem muda ao longo do ano. A partir de maio, o VSR passou à frente, e em julho já respondia por 41% dos casos graves com vírus identificado no ano. Até julho, a influenza foi a principal causa de morte entre esses casos.
Mais casos graves de gripe em 2026
Os dados confirmam a impressão de que os vírus estão mais fortes em 2026, principalmente o da gripe. Entre o começo de janeiro e 21 de março de 2026, foram registrados cerca de 3,7 mil casos graves causados pela influenza, contra 1,8 mil no mesmo período de 2025. Foram duas vezes mais casos graves de gripe, ou seja, duas vezes mais pessoas internadas por gripe do que no mesmo período de 2025, segundo levantamento do Instituto Todos pela Saúde divulgado pelo Conselho Federal de Farmácia. Em abril, o Ministério da Saúde também registrava os casos de influenza A acima dos anos anteriores.
Os números mudam a cada boletim, e a comparação com 2025 depende do período escolhido. Até o começo de setembro, o total de casos de síndrome respiratória aguda grave, por qualquer causa, e o número de mortes ficaram abaixo dos de 2025, ano em que a gripe também circulou muito, inclusive fora de época. Em novembro de 2025, ao analisar o subclado K, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças observou que os países do leste da Ásia que já tinham passado pela onda não registraram gripe mais grave do que o habitual. Para o órgão, mesmo que o risco de cada pessoa continue parecido, uma epidemia maior, com mais gente sem defesa, já basta para aumentar o número de internações. Na consulta, o que se avalia é o risco de cada paciente, e não a média da temporada.
Por que os vírus parecem mais agressivos
A explicação é multifatorial, ou seja, várias causas atuam juntas. A primeira é a pandemia, que mudou a imunidade da população como um todo. Durante o isolamento, muita gente passou longos períodos sem contato com os vírus respiratórios comuns, que quase sumiram por um tempo. Na prática clínica, depois da pandemia, vírus e bactérias passaram a causar quadros mais graves, e o isolamento teve papel nisso.
Os estudos descrevem esse fenômeno como uma lacuna ou dívida imunológica. Com menos exposição aos vírus durante a pandemia, mais pessoas ficaram sem defesa recente, e quando a circulação voltou as viroses passaram a aparecer fora da época habitual e em maior número. A hipótese ainda é debatida entre os pesquisadores, e o que ela descreve não é um sistema imunológico enfraquecido, e sim muita gente sem contato recente com o vírus.
Na gripe, um fator a mais pesou em 2026. Uma variação do vírus influenza A H3N2, chamada subclado K, se espalhou pelo mundo no fim de 2025 e apareceu em 72% dos vírus da gripe sequenciados no Brasil no começo de 2026. Como essa variação tem diferenças em relação aos vírus H3N2 que circulavam antes, a defesa deixada por infecções e vacinas anteriores ficou menos ajustada a ela.
Ao contrário do que se lê em alguns sites, o uso errado de antibiótico não deixa os vírus mais fortes, porque o antibiótico não age sobre vírus. O mau uso favorece as bactérias resistentes, um problema diferente, explicado na orientação sobre superbactérias.
A causa que mais preocupa: a baixa vacinação contra a gripe
Entre todas as causas, uma pesa muito na gravidade da gripe. As pessoas simplesmente não estão mais se vacinando contra o vírus influenza. A vacina da gripe, que por muitos anos teve alta adesão, hoje é deixada de lado até por quem faz parte dos grupos de maior risco. Esse ponto é motivo de muita preocupação.
Para os grupos prioritários, como crianças, gestantes e idosos, a meta do Ministério da Saúde era vacinar pelo menos 90%. Quando a campanha nacional terminou, no fim de maio de 2026, só 38,5% desse público tinha tomado a vacina. No Distrito Federal, a cobertura estava em 41,7% no começo de julho.
É uma vacina usada há muito tempo, com segurança bem conhecida e com papel importante na prevenção das formas graves da gripe. Ela não impede toda gripe, mas diminui as internações. Uma revisão de 165 estudos publicada em 2026 encontrou proteção de cerca de 42% contra a internação por gripe e de 52% contra a internação em UTI, em geral maior nas crianças. Na Inglaterra, no começo da temporada dominada pelo subclado K, a proteção contra o atendimento hospitalar por gripe ficou entre 72% e 75% em crianças e adolescentes e entre 32% e 39% nos adultos.
Como os vírus influenza mudam o tempo todo, a vacina é reformulada e precisa ser tomada todo ano. Os efeitos colaterais, a melhor época para tomar e a diferença entre a vacina do posto e a da rede particular estão na orientação sobre a vacina da gripe.
Quem tem mais risco de gripe grave
Vacinar-se é importantíssimo principalmente para quem tem mais chance de ter uma forma grave quando pega a gripe. Esses são os grupos de risco:
- idosos;
- crianças menores de 6 anos;
- gestantes e mulheres que acabaram de ter bebê;
- profissionais de saúde, mais expostos às viroses e muitas vezes fazendo procedimentos em pacientes com quadros respiratórios, o que aumenta a quantidade de vírus a que ficam expostos;
- povos indígenas;
- população privada de liberdade;
- pessoas com doenças crônicas, como asma, pressão alta e insuficiência cardíaca, e com doenças metabólicas, como o diabetes.
Esses grupos têm a vacina gratuita no SUS e precisam de um foco especial na vacinação. Nas regras do Ministério da Saúde, a pressão alta dá direito à vacina gratuita quando vem acompanhada de outra doença. A lista completa de quem pode se vacinar no posto está na orientação sobre a vacina da gripe.
Quem não é do grupo de risco também deve se vacinar?
Sim. O ideal é que toda pessoa que pode tomar a vacina se vacine. Mesmo fora dos grupos de risco, adultos sem nenhuma doença podem pegar uma gripe e ter uma forma mais agressiva, mais grave. Isso acontece.
O Ministério da Saúde define os grupos prioritários por uma questão de saúde pública, porque nem sempre é possível oferecer a vacina para toda a população. Quando a adesão desses grupos fica muito baixa, estados e municípios podem liberar a vacina para todos. Em 2026, o estado de São Paulo fez isso a partir de junho. No Distrito Federal, a vacina foi liberada para toda a população em maio de 2025 e de novo no fim de janeiro de 2026, até o dia 31, para quem ainda não tinha se vacinado na temporada anterior. Em julho de 2026, a Secretaria de Saúde do DF informou que, com a cobertura dos grupos prioritários ainda baixa, a vacinação gratuita continuaria restrita a eles.
Ainda vale tomar a vacina da gripe depois da campanha?
Vale. Mesmo depois do período principal da campanha, a vacina continua valendo a pena, porque a gripe pode voltar fora de época. Em 2025, houve surtos de influenza em outubro e novembro, totalmente fora do pico habitual, que é entre maio e junho. Os boletins do Ministério da Saúde registraram, em outubro daquele ano, casos graves por influenza A H3N2 no DF e em Goiás e, em seguida, o aumento no Sudeste e na Bahia.
Quem ainda não se vacinou deve se vacinar, e a vacina da gripe deve ser repetida todo ano, assim que estiver disponível. Para quem tem direito, ela é aplicada de graça no posto de saúde.
Quando a gripe pede avaliação
A maior parte das gripes e dos resfriados melhora sozinha. Alguns sinais mostram que o quadro está saindo do curso esperado, como a piora depois de alguns dias de doença ou a febre que volta depois de ter passado, e estão explicados na orientação sobre quando procurar o médico na gripe. A falta de ar e a respiração rápida precisam de avaliação médica sem demora.
Nas viroses mais agressivas, a febre e a inflamação do nariz podem durar mais do que antes, o que confunde a decisão entre esperar e tratar. A diferença entre a forma viral prolongada e a infecção por bactéria está na orientação sobre sinusite aguda viral ou bacteriana. Na OtoCare, o teste rápido combinado de covid-19 e influenza A e B é feito na própria consulta quando há suspeita desses vírus.
Vídeo: os vírus estão ficando mais fortes?
Perguntas frequentes
Os sintomas da gripe de 2026 são diferentes?
Os sintomas são os da gripe de sempre, que costumam começar de repente: febre, dor de garganta, tosse, dor no corpo, dor de cabeça, calafrios e cansaço. Em algumas pessoas aparecem também diarreia, vômito e olhos vermelhos. O que mudou em 2026 foi a época, mais cedo, e o número de casos graves no começo da temporada. Na prática clínica, algumas viroses têm causado inflamação mais forte e febre que dura alguns dias a mais do que antes, sem que isso signifique, por si só, infecção por bactéria, como explica a orientação sobre quando procurar o médico na gripe.
A gripe K é uma gripe nova?
Não é um vírus novo. Gripe K é o nome popular do subclado K, uma variação do vírus influenza A H3N2, que já circula há décadas. A variação tem nome científico e é acompanhada pelos órgãos de saúde do mundo todo. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, ela não é mais grave por si só, mas tem sido associada a temporadas de transmissão mais longas.
O rinovírus é grave?
Na maioria das vezes, não. O rinovírus causa mais da metade dos resfriados, com nariz escorrendo, espirros e dor de garganta leve, e também pode levar a otite e sinusite. Por ser o vírus respiratório mais comum, ele aparece também entre os casos graves, principalmente em bebês, idosos, pessoas com asma e pessoas com a imunidade baixa. Não existe vacina nem remédio antiviral contra o rinovírus, e o tratamento é para aliviar os sintomas.
SRAG é covid?
Não necessariamente. SRAG é o nome de um quadro, e não de uma doença. Qualquer vírus respiratório pode causar uma síndrome respiratória aguda grave, inclusive a gripe, o VSR e o rinovírus. A sigla ficou conhecida durante a pandemia porque os casos graves de covid entravam nessa notificação, mas hoje a maior parte das SRAG com vírus identificado tem outra causa.
Gripe forte pode virar pneumonia?
Pode. A pneumonia é a principal complicação da gripe e responde por grande parte das internações causadas por ela no país. Ela pode ser causada pelo próprio vírus ou por uma bactéria que se instala depois. O risco é maior em idosos, crianças menores de 2 anos e pessoas com doenças crônicas. Os sinais de que a gripe está complicando estão na orientação sobre quando procurar o médico na gripe.
A gripe está mais forte que a covid?
Em 2026, sim, quando se olha para os casos graves. Até julho, a influenza estava por trás de cerca de um quarto das SRAG com vírus identificado e de quase metade das mortes desse grupo. A covid respondia por cerca de 4% dos casos e por 16% das mortes. A covid continua causando casos graves, principalmente em idosos e em pessoas com a imunidade baixa, e as diferenças entre gripe, covid e dengue estão na orientação sobre como saber se é dengue, gripe ou covid.
A vacina da gripe protege contra os outros vírus?
Não. A vacina da gripe protege contra o influenza, e só contra ele. O rinovírus não tem vacina. A covid tem a vacina própria, e o VSR também tem vacinas específicas, como a explicada na orientação sobre a vacina Arexvy® contra o VSR. Pegar um resfriado depois de tomar a vacina da gripe não quer dizer que ela falhou.
Além da vacina, o que ajuda a se proteger dos vírus respiratórios?
O Ministério da Saúde recomenda lavar as mãos com água e sabão ou usar álcool em gel, manter os ambientes ventilados, evitar tocar olhos, nariz e boca, cobrir o nariz e a boca ao tossir ou espirrar, não compartilhar copos e talheres e evitar contato próximo com pessoas gripadas. Quem está gripado deve evitar sair de casa enquanto transmite o vírus. Os cuidados com as crianças que frequentam escola estão na orientação sobre como prevenir gripes e resfriados na escola.
Referências
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Avaliação de gripes, resfriados e sinusites na OtoCare, em Brasília
Gripes que demoram a passar, nariz entupido que não melhora, dor no rosto, dor de ouvido ou garganta inflamada depois de uma virose pedem exame do nariz, dos ouvidos e da garganta. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a avaliação separa a virose que segue o curso esperado da complicação que precisa de tratamento.