Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Escutar não é o mesmo que entender
Conversar com quem tem perda auditiva ou transtorno do processamento auditivo central (TPAC) pode ser difícil, mesmo quando a pessoa usa aparelho auditivo. Muitas vezes ela não consegue escutar tão bem a conversa. Em outras, até escuta, mas não compreende bem o que foi dito.
Essa diferença entre escutar e entender explica boa parte das dificuldades do dia a dia. Na perda auditiva, o som chega mais fraco ao ouvido, e algumas frequências se perdem mais do que outras. No TPAC, a audiometria pode ser normal, mas o cérebro tem dificuldade para interpretar a fala, principalmente no barulho. Nos dois casos, o ambiente e o jeito de falar mudam muito o resultado da conversa.
Três atitudes simples já facilitam bastante a conversa: cuidar do barulho do ambiente, chamar a atenção da pessoa e falar de frente para ela, e deixá-la perto de quem fala. A seguir, cada uma delas e como aplicá-las em casa, na escola e no trabalho.

1. Diminua o barulho e o eco do ambiente
O primeiro ponto é modificar o ambiente de quem tem perda auditiva, para que ele tenha o menor ruído possível e pouca reverberação. Reverberação é o eco que o som faz quando bate em paredes, piso e teto lisos e continua soando depois que a pessoa já parou de falar.
Em casa, quando for conversar com um parente que tem perda auditiva, desligue a televisão, o som que está tocando e até o eletrodoméstico que está fazendo muito barulho. Muitas vezes a pessoa até escuta, mas não consegue entender por causa do excesso de ruído no ambiente.
Uma revisão brasileira sobre ruído em sala de aula aponta a relação entre a voz de quem fala e o ruído de fundo como o fator mais importante para a escuta, e a reverberação como outro fator que piora o entendimento. Ou seja, não basta a voz estar alta. Ela precisa estar bem acima do barulho ao redor.
Fora de casa, a mesma ideia vale. No restaurante, o NIDCD, instituto de saúde dos Estados Unidos, sugere pedir uma mesa num canto mais calmo, longe da cozinha e da música. No escritório ou numa festa, conversar num lugar mais tranquilo costuma render mais do que insistir no meio do barulho. Nas crianças pequenas, a TV ligada o dia inteiro também atrapalha o desenvolvimento da fala, como explica a orientação sobre barulho e TV ligada no desenvolvimento da fala.
2. Chame a atenção e fale de frente para a pessoa
Antes de começar a falar, chame a pessoa e espere ela olhar para você. De preferência, fique de frente para ela. Isso faz com que ela coloque a atenção na conversa que vai começar, e só isso já ajuda muito no entendimento.
A comunicação não depende só do ouvido. A pessoa escuta e compreende a palavra, mas muito da conversa acontece pelos gestos e pela expressão do rosto. As pistas visuais, como a leitura dos lábios, os gestos e a expressão facial, contribuem muito para a compreensão, e quem tem perda auditiva usa essas pistas o tempo todo, muitas vezes sem perceber.
Para que essas pistas funcionem, o rosto de quem fala precisa estar visível. A MedlinePlus, biblioteca de saúde dos Estados Unidos, e o NIDCD listam algumas atitudes que fazem diferença:
- conversar num lugar com luz suficiente para a pessoa ver o rosto, a boca e os gestos de quem fala;
- não cobrir a boca, não comer nem mastigar nada enquanto fala;
- falar devagar e com clareza, um pouco mais alto do que o normal se for preciso, mas sem gritar;
- não exagerar o movimento da boca, porque isso distorce as palavras e atrapalha o entendimento;
- usar o nome da pessoa, para ela saber que a conversa é com ela.
Quando a pessoa não ouve o chamado, um aceno dentro do campo de visão dela ajuda a chamar a atenção sem precisar aumentar a voz.
3. Deixe a pessoa perto de quem fala
O terceiro ponto vale muito para crianças em sala de aula e para adultos no trabalho. Quem tem alguma alteração auditiva precisa sentar o mais próximo possível da fonte sonora, ou seja, de quem está falando. Se o ambiente tem muito ruído, ou se a voz está longe e baixa, fica difícil mesmo para quem tem perda auditiva entender.
A distância pesa porque a voz chega mais fraca de longe, enquanto o barulho da sala continua o mesmo. Para uma conversa, a MedlinePlus sugere ficar a cerca de 90 centímetros a 1,8 metro da pessoa.
Na sala de aula
A criança com perda auditiva deve sentar nas primeiras carteiras e o mais perto possível do professor, onde consegue ver o rosto dele. Também ajuda deixá-la longe da porta, da janela aberta para a rua e do ventilador ou do ar-condicionado barulhento.
Perda auditiva de um lado só: o ouvido bom voltado para a sala
Quando a perda é de um lado só, a posição na sala faz grande diferença. Se a criança tem perda no ouvido direito, o ouvido esquerdo precisa ficar totalmente livre para a sala. O ideal é que ela sente na frente e próxima à parede do lado direito, o lado da perda.
Agora imagine a mesma criança, com perda do lado direito, sentada encostada na parede da esquerda. O ouvido bom fica virado para a parede, o ouvido com perda fica virado para a turma e para o professor, e a audição que ela tem vai ajudar muito pouco no dia a dia. Um estudo com crianças com perda severa a profunda de um lado mostrou que elas entendem pior quando a fala chega pelo lado do ouvido afetado e precisam de condições de escuta mais favoráveis para entender tão bem quanto as crianças com audição normal.
Se a perda é diferente entre os dois ouvidos, vale a mesma lógica. A pessoa fica na posição em que o ouvido que escuta melhor tem acesso à maior quantidade de sons. Se a perda é parecida nos dois ouvidos, o lado não faz tanta diferença, mas a pessoa continua precisando ficar o mais perto possível de quem fala. As dificuldades de quem ouve de um lado só estão na orientação sobre surdez unilateral.
No trabalho e em reuniões
Com o adulto, a regra é a mesma. Numa sala de reuniões, a pessoa com perda auditiva deve ficar perto de quem conduz a conversa, com o melhor ouvido voltado para essa pessoa. Se ela ficar muito distante, a compreensão vai ser difícil mesmo.
Nas aulas e reuniões em que a distância e o barulho não podem ser evitados, existem sistemas de microfone remoto, em que quem fala usa um pequeno microfone e a voz chega direto ao aparelho auditivo ou a um receptor. Um estudo com famílias de crianças com perda de um lado só recomenda, junto com o lugar na frente da sala, esse tipo de sistema na escola.
No TPAC, as mesmas dicas fazem diferença
No transtorno do processamento auditivo central, a orelha capta o som normalmente, mas o cérebro tem dificuldade para organizar e interpretar o que chega. A queixa típica é escutar, mas não entender, principalmente no barulho.
Por isso, as três dicas valem do mesmo jeito para quem tem TPAC. O ambiente deve ter pouco ruído, e a pessoa fica de frente e perto de quem fala. Na sala de aula, a criança com TPAC também senta nas primeiras carteiras, perto do professor e longe da porta e da janela.
Essas medidas diminuem a dificuldade, mas não tratam o transtorno. O diagnóstico é feito pelo exame de processamento auditivo central (PAC), e os sintomas, as causas e o tratamento estão na orientação sobre TPAC. Na criança pequena, a idade conta para o diagnóstico, como explica a orientação sobre TPAC em criança menor de 7 anos.
Outras atitudes que ajudam na conversa
Além das três dicas principais, algumas atitudes simples deixam a conversa mais fácil e menos cansativa para quem tem perda auditiva:
- avisar quando o assunto mudar, porque saber do que se trata ajuda a completar as palavras que não foram ouvidas;
- se a pessoa não entendeu uma palavra ou frase, dizer de outro jeito, em vez de repetir a mesma coisa;
- escrever informações importantes, como números, nomes, datas e endereços;
- nunca falar da pessoa com perda auditiva como se ela não estivesse presente.
Uma orientação do Telessaúde, do Ministério da Saúde, para o atendimento de pessoas com deficiência auditiva segue a mesma linha. Ela recomenda falar pausadamente e olhando para a pessoa e usar a escrita quando necessário. Para os surdos que se comunicam pela Libras, a língua de sinais é a forma mais eficaz. Por que a expressão surdo-mudo não é correta está na orientação sobre surdez e fala.
Com aparelho auditivo, as dicas continuam valendo
Mesmo com o aparelho auditivo, a conversa pode continuar difícil em alguns ambientes. Segundo o NIDCD, o aparelho auditivo deixa os sons mais altos. Ele não separa completamente a fala dos outros sons, como explica a orientação sobre adaptação ao aparelho auditivo, e a distância continua pesando. Por isso, o ambiente calmo e a pessoa de frente e perto de quem fala também ajudam quem já usa aparelho.
Quando a dificuldade é grande mesmo com o aparelho, ele pode precisar de ajuste, tema da mesma orientação. Os tipos de aparelho e quando cada um é indicado estão na orientação sobre aparelho auditivo.
Quando a dificuldade para entender pede avaliação
Às vezes, a família percebe a dificuldade antes da própria pessoa, porque a perda costuma chegar aos poucos, como lembra o NIDCD. O questionário do instituto lista situações que pedem avaliação da audição, como dificuldade para acompanhar a TV ou o rádio, para conversar numa festa, frustração nas conversas com a família e vontade de evitar grupos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a perda auditiva não tratada pode levar ao isolamento social e à solidão.
O primeiro passo é a consulta com otorrino e a audiometria, que a OtoCare, no Noroeste de Brasília, faz na própria clínica e que mostra o tipo e o grau da perda. Quando a audiometria é normal e a queixa continua, a consulta avalia a indicação do exame de processamento auditivo. Os graus estão explicados na orientação sobre graus de surdez, e a frequência com que o exame deve ser repetido, na orientação sobre quando fazer audiometria. Para evitar que a perda avance, veja também como cuidar da audição.
Coisas simples que melhoram a qualidade de vida
Cuidar do barulho, chamar a pessoa e falar de frente, e deixá-la perto de quem fala são atitudes simples, mas que podem melhorar muito a qualidade de vida de quem tem perda auditiva ou TPAC.
Quem mora com uma pessoa com perda auditiva, convive com ela no trabalho ou dá aula para uma criança com TPAC pode colocar essas dicas em prática hoje mesmo. Elas ajudam a pessoa a compreender melhor quem fala com ela e a participar mais das conversas do dia a dia.
Vídeo: 3 dicas para se comunicar melhor com quem tem perda auditiva ou TPAC
No vídeo, as três dicas para se comunicar com pessoas com perda auditiva ou TPAC são explicadas com exemplos de casa, da sala de aula e da sala de reuniões, incluindo o lado em que deve sentar quem tem perda auditiva de um ouvido só.
Perguntas frequentes
Precisa falar mais alto com quem tem perda auditiva?
Um pouco mais alto do que o normal pode ajudar, mas sem gritar. Essa é a orientação da MedlinePlus e do NIDCD. Ajuda mais falar devagar e com clareza, de frente e perto da pessoa, num lugar com pouco barulho.
Como falar com um idoso que não escuta bem?
As mesmas três atitudes valem para o idoso. Desligue a TV antes de conversar, chame a atenção dele, fique de frente e sente perto, do lado do ouvido que escuta melhor. Se ele pede para repetir com frequência e aumenta o volume da televisão, vale avaliar a audição, porque a perda costuma avançar devagar e passar despercebida pela própria pessoa.
Como chamar a atenção de uma pessoa surda?
Chamar pelo nome ajuda a pessoa a saber que a conversa é com ela, como orienta a MedlinePlus. Se ela não ouviu, chame a atenção com um sinal que ela consiga ver e comece a falar só depois que ela olhar para você.
Onde o aluno com perda auditiva deve sentar na sala de aula?
Nas primeiras carteiras, o mais perto possível do professor, onde ele consegue ver o rosto de quem fala. Se a perda é de um lado só, o ouvido que escuta melhor fica voltado para a turma e o ouvido com perda, para a parede. Janela aberta, porta, corredor e ar-condicionado barulhento devem ficar longe.
Quem tem surdez de um ouvido deve sentar de que lado?
Do lado em que o ouvido com perda fica encostado na parede e o ouvido bom fica livre para o ambiente. Com perda no ouvido direito, a pessoa senta junto à parede da direita. A mesma lógica vale à mesa de jantar, no carro e na sala de reuniões: o ouvido bom voltado para quem fala.
Como o professor pode ajudar o aluno com TPAC?
Com as mesmas três atitudes desta página. Sentar o aluno nas primeiras carteiras, perto do professor e de frente para ele, e diminuir as conversas paralelas e o barulho da sala. Essas medidas reduzem a dificuldade, mas não substituem o tratamento indicado depois do exame de processamento auditivo.
Leitura labial ajuda quem tem perda auditiva leve?
Ajuda, e muita gente lê os lábios sem perceber. Mesmo na perda leve, ver a boca e a expressão de quem fala completa os sons que chegam fracos, principalmente no barulho. Por isso, falar de frente, com o rosto iluminado e a boca sem nada na frente, faz diferença em qualquer grau de perda.
Se a pessoa não entendeu, é melhor repetir ou falar de outro jeito?
Melhor falar de outro jeito. Segundo a MedlinePlus, quando a pessoa não entende uma palavra ou uma frase, o ideal é escolher outra, em vez de repetir a mesma.
Como se comunicar com surdo sem saber Libras?
Muitas pessoas surdas fazem leitura labial e falam, e as mesmas dicas desta página ajudam. Quando a fala não basta, a orientação do Telessaúde, do Ministério da Saúde, cita a escrita como recurso, desde que a pessoa leia bem o português, e lembra que gestos e mímica ajudam pouco e não garantem a comunicação. Para quem se comunica pela Libras, a língua de sinais é a forma mais eficaz.
A pessoa escuta, mas não entende o que é falado: o que pode ser?
Pode ser uma perda auditiva, em que o som chega mais fraco e algumas frequências se perdem mais do que outras. Pode ser também um transtorno do processamento auditivo central, em que a audiometria é normal e a dificuldade aparece principalmente no barulho. A diferença é feita com a audiometria e, quando indicado, com o exame de processamento auditivo.
Quem usa aparelho auditivo ainda precisa dessas dicas?
Precisa. O aparelho ajuda a ouvir, mas o barulho da sala e a distância de quem fala continuam atrapalhando. Com a TV desligada e a conversa de frente e de perto, a conversa fica mais fácil também para quem usa aparelho.
Referências
- VILELA, Larissa. 3 dicas para se comunicar melhor com pessoas com perda auditiva ou TPAC. YouTube, 20 jul. 2024. 1 vídeo (5 min 28 s). Disponível em: https://youtu.be/UsjVV4pQyDo. Acesso em: 4 out. 2026.
- MEDLINEPLUS. Talking to someone with hearing loss. Bethesda: National Library of Medicine, 3 abr. 2025. Disponível em: https://medlineplus.gov/ency/patientinstructions/000361.htm. Acesso em: 4 out. 2026.
- NATIONAL INSTITUTE ON DEAFNESS AND OTHER COMMUNICATION DISORDERS (NIDCD). Age-related hearing loss (presbycusis). Bethesda: NIDCD, 17 mar. 2023. Disponível em: https://www.nidcd.nih.gov/health/hearing-loss-older-adults. Acesso em: 4 out. 2026.
- BIBLIOTECA VIRTUAL EM SAÚDE – ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE. Quais estratégias de comunicação adotar com pacientes portadores de deficiência auditiva? Telessaúde Brasil Redes, 24 nov. 2016. Disponível em: https://aps-repo.bvs.br/aps/quais-estrategias-de-comunicacao-adotar-com-pacientes-portadores-de-deficiencia-auditiva-2/. Acesso em: 4 out. 2026.
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Avaliação da audição e do processamento auditivo na OtoCare, em Brasília
Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a queixa de escutar, mas não entender, é investigada desde o início, com a audiometria e, quando indicado, o exame de processamento auditivo central, feitos na própria clínica. Com o diagnóstico, o tratamento é indicado para cada caso, de adultos, idosos e crianças. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.