Escarlatina: sintomas, tratamento e diferença da amigdalite comum

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é escarlatina

A escarlatina é uma doença bacteriana que começa como uma amigdalite. Ela nada mais é do que um tipo específico de amigdalite, causada pela principal bactéria das amigdalites bacterianas, o estreptococo beta-hemolítico do grupo A, também chamado de Streptococcus pyogenes.

O que separa a escarlatina da amigdalite comum são os sintomas que vão além da garganta. Na escarlatina aparecem manchas vermelhas e ásperas na pele, a língua fica muito vermelha e inchada, e a febre costuma ser muito alta, com bastante prostração. É uma doença mais comum em crianças entre 5 e 15 anos.

A escarlatina pode complicar, e por isso o diagnóstico correto e o tratamento iniciado quanto antes são muito importantes. A boa notícia é que o tratamento é o mesmo da amigdalite bacteriana, com antibiótico, e as manchas e os outros sintomas melhoram depois que ele começa.

Mão aberta com manchas vermelhas na pele ao lado da Dra. Larissa Vilela, médica otorrino, com expressão pensativa

Por que só algumas pessoas têm escarlatina

Quando o estreptococo infecciona a região das amígdalas, ele produz uma toxina. Algumas pessoas são sensíveis a essa toxina, e é essa sensibilidade que provoca os sintomas da escarlatina. Quem não tem essa sensibilidade pega a mesma bactéria e fica só com a amigdalite.

Segundo o Ministério da Saúde, a maioria das pessoas com infecção de garganta pelo estreptococo não desenvolve escarlatina, e cerca de 10% são sensíveis às toxinas e desenvolvem a doença. Os estudos mais recentes descrevem a reação da pele como uma resposta do próprio corpo às toxinas e a outras partes da bactéria.

Isso explica por que duas crianças da mesma sala podem pegar a mesma bactéria e uma ter só dor de garganta, enquanto a outra fica com o corpo todo manchado. A infecção é a mesma. O que muda é a reação de cada uma.

Sintomas da escarlatina

A escarlatina começa como uma amigdalite, com dor de garganta, febre e mal-estar, e em pouco tempo surgem os sintomas que a identificam.

Manchas vermelhas e ásperas na pele

As manchas da escarlatina são pequenas, vermelhas e espalhadas, e deixam a pele com um aspecto bem áspero, parecido com uma lixa ao passar a mão. Elas se concentram principalmente no tronco e no abdômen e, com o decorrer do quadro, vão para o pescoço, para o rosto e para os braços e as pernas. Em geral aparecem no segundo dia da doença.

No rosto, as bochechas ficam vermelhas, e a região em volta da boca costuma ficar mais clara, a chamada palidez em volta da boca. Nas dobras da pele, como a do cotovelo, as manchas formam linhas de um vermelho mais forte, conhecidas como linhas de Pastia. A palma das mãos e a sola dos pés costumam ser poupadas.

Depois de algum tempo, as manchas descamam. A pele descasca como depois de uma queimadura de sol, e isso pode acontecer também nas mãos e nos pés. A descamação faz parte da recuperação e não é sinal de piora.

Língua em framboesa

A escarlatina também pode deixar a língua muito vermelha e inchada, com as papilas aumentadas, o que se chama de língua em framboesa ou língua em morango. No início, a língua pode ficar coberta por uma camada esbranquiçada, que depois sai e deixa a língua vermelha e cheia de pontinhos.

Febre alta, náuseas, vômitos e dor abdominal

A febre da escarlatina costuma ser muito alta, e a criança fica bastante prostrada, sem vontade de brincar e de comer. Náuseas, vômitos e dor abdominal também fazem parte do quadro. Por isso a escarlatina traz muito mais desconforto do que uma amigdalite comum.

A dor de garganta, as amígdalas vermelhas e inchadas, às vezes com placas, e os gânglios aumentados no pescoço continuam lá, porque a infecção de base é uma amigdalite bacteriana.

Diferença entre escarlatina e amigdalite

A escarlatina é um tipo de amigdalite aguda bacteriana. Ela se diferencia da amigdalite comum por ter sintomas sistêmicos, que atingem o corpo todo, incluindo a pele e a língua. Na prática, a comparação fica assim.

  • Na amigdalite bacteriana comum, os sintomas ficam concentrados na garganta: dor para engolir, febre, amígdalas inchadas, muitas vezes com placas, e gânglios no pescoço.
  • Na escarlatina, além de tudo isso, aparecem as manchas ásperas na pele, a língua em framboesa, a febre muito alta com prostração e, com frequência, náuseas, vômitos e dor abdominal.
  • A bactéria é a mesma, o estreptococo do grupo A, e o tratamento com antibiótico também é o mesmo.

A escarlatina também não é uma segunda doença que vem uma semana depois. É a mesma infecção pelo estreptococo, e as manchas surgem logo nos primeiros dias, junto com a dor de garganta. A ideia de que a escarlatina aparece dias depois de uma amigdalite curada não tem base.

Na maior parte das vezes, porém, a dor de garganta é causada por vírus, e não por bactéria. Como diferenciar a garganta inflamada por vírus da inflamada por bactéria está na orientação sobre garganta inflamada, vírus ou bactéria.

Escarlatina ou outra doença com manchas

Outras doenças também causam febre e manchas na pele, entre elas o sarampo, a rubéola e as arboviroses, como a dengue, além das reações a remédios. Na escarlatina, o conjunto de amigdalite, pele áspera como lixa e língua em framboesa ajuda a separar os quadros. Diferente do sarampo e da rubéola, a escarlatina não costuma vir com coriza e outros sinais de resfriado.

A mononucleose, a doença do beijo, é outra causa de garganta muito inflamada e cheia de placas, às vezes com manchas no corpo, e é causada por um vírus. Ela é explicada na orientação sobre a doença do beijo. A diferenciação entre esses quadros é feita no exame da consulta.

Escarlatina em crianças e em adultos

A escarlatina é mais comum em crianças entre 5 e 15 anos, a idade escolar, quando o contato próximo na sala de aula facilita a transmissão. Os surtos acontecem em casas, escolas e creches, onde o contato é próximo, e a Sociedade Brasileira de Dermatologia registrou um aumento de surtos em São Paulo em 2023.

Adultos também podem ter escarlatina, embora com menos frequência. Os sintomas são os mesmos das crianças, e o tratamento também.

Como a escarlatina passa de uma pessoa para outra

A escarlatina é contagiosa. O estreptococo passa de uma pessoa para outra pelas gotículas da tosse e do espirro, pela saliva e pelo compartilhamento de copos, talheres e objetos. Pessoas que carregam a bactéria sem sintomas também podem transmitir. As formas de contágio do estreptococo estão detalhadas na orientação sobre o teste de estreptococo na garganta.

O que importa para a família é quando o contágio termina. Segundo o NHS, o serviço de saúde do Reino Unido, a pessoa deixa de transmitir 24 horas depois da primeira dose do antibiótico. Sem tratamento, ela pode continuar transmitindo por duas a três semanas depois do início dos sintomas.

Por isso, a criança com escarlatina deve ficar em casa, sem ir à escola ou à creche, por pelo menos 24 horas depois do início do antibiótico, como recomenda também o Ministério da Saúde. O mesmo vale para o adulto em relação ao trabalho.

Complicações da escarlatina

A escarlatina pode complicar, e é por isso que o diagnóstico e o tratamento adequados são tão importantes. As complicações possíveis incluem a otite, a sinusite e a pneumonia, além de quadros mais graves, como a febre reumática e as alterações nos rins. Na garganta, a infecção pode formar um abscesso ao lado da amígdala.

A febre reumática é uma reação do próprio sistema de defesa do corpo contra a infecção de garganta pelo estreptococo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, ela pode inflamar as articulações e o coração e deixar sequelas nas válvulas cardíacas. O tratamento da infecção de garganta pelo estreptococo com o antibiótico adequado previne a febre reumática.

Algumas dessas complicações aparecem semanas depois, quando a escarlatina parece curada. Por isso, se a criança ficar doente de novo nas semanas seguintes, com febre, dor nas juntas ou cansaço fora do comum, agende uma consulta pelo WhatsApp e informe que ela teve escarlatina, para que o horário seja priorizado.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico da escarlatina é clínico. Ele é feito pelo conjunto de sintomas e sinais observados no exame, junto com o quadro de amigdalite bacteriana. Muitas vezes o quadro é tão clássico que o exame da garganta, da pele e da língua já mostra do que se trata.

Hoje a recomendação é confirmar a presença do estreptococo com o teste rápido sempre que possível, antes do antibiótico, porque o uso de antibiótico sem necessidade aumenta a resistência das bactérias. Na OtoCare, no Noroeste de Brasília, o teste rápido é feito na própria consulta, com um cotonete longo passado no fundo da garganta, e o resultado sai em poucos minutos. A cultura da garganta é outra forma de confirmar, mas o resultado demora mais.

Quando o teste não está disponível, o quadro clássico permite iniciar o tratamento pelo exame clínico. Como o teste funciona, como é colhido e como ler o resultado está na orientação sobre o teste rápido do estreptococo.

Tratamento da escarlatina

O tratamento da escarlatina é igual ao de uma amigdalite bacteriana comum. Ele é feito com antibiótico, em geral do grupo da amoxicilina e da penicilina, e existem outros tipos para quem tem alergia a penicilina. O antibiótico é o mesmo para os dois quadros.

Segundo a diretriz da Sociedade de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a penicilina e a amoxicilina continuam sendo as primeiras escolhas contra o estreptococo. O tratamento por via oral dura 10 dias, e o antibiótico deve ser tomado até o fim, mesmo que a febre e a dor passem antes. O antibiótico, a dose e o tempo certos são definidos na consulta.

As manchas na pele e os outros sintomas melhoram depois que o antibiótico começa. Não é preciso nenhum tratamento específico para a pele nem para os outros sintomas, porque tratar a infecção resolve o quadro todo. Quando a coceira incomoda, algumas referências citam o antialérgico para aliviar, o que pode ser avaliado caso a caso na consulta.

Enquanto o antibiótico faz efeito, ajudam o repouso, a água em boa quantidade e os alimentos macios e frios, que descem melhor com a garganta dolorida. Para a febre e a dor, os analgésicos comuns podem ser usados, e qual escolher está na orientação sobre remédio para febre e dor.

Tomar por conta própria um antibiótico que sobrou em casa ou a azitromicina que funcionou em outra ocasião não é seguro. A azitromicina, por exemplo, fica como alternativa para quem tem alergia, e a resistência do estreptococo a ela vem crescendo, como mostra a orientação sobre azitromicina na amigdalite.

Quanto tempo dura a escarlatina

Com o antibiótico, a febre e o mal-estar costumam melhorar em poucos dias, e a maior parte das pessoas se recupera de 3 a 6 dias depois do início do tratamento. As manchas duram cerca de uma semana, e a descamação vem depois. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, os sinais na pele podem levar de duas a três semanas para desaparecer.

Se os sintomas não melhorarem com o tratamento, ou se a criança piorar, a reavaliação é importante. Agende pelo WhatsApp e informe que está em tratamento para escarlatina, para ter prioridade no horário.

Como prevenir a escarlatina

Não existe vacina contra a escarlatina nem contra o estreptococo do grupo A. A prevenção depende de diminuir a transmissão. Lavar as mãos com frequência, cobrir a boca e o nariz ao tossir e espirrar e não dividir copos, talheres, toalhas e escovas de dente com quem está doente ajudam bastante.

Manter a criança doente em casa até completar 24 horas de antibiótico protege os colegas da escola. Em casa, quem convive com a criança e começa com dor de garganta e febre deve ser avaliado, porque pode estar com a mesma bactéria.

Para quem tem amigdalites bacterianas de repetição, a retirada das amígdalas pode ser discutida em alguns casos, como explica a página sobre amigdalectomia.

Vídeo: escarlatina e amigdalite comum, qual a diferença

O vídeo abaixo explica o que é a escarlatina, os sintomas que a diferenciam da amigdalite comum, as complicações e o tratamento.

Perguntas frequentes

Escarlatina é viral ou bacteriana?

Bacteriana. Ela é causada pelo estreptococo do grupo A, a mesma bactéria da amigdalite bacteriana, e por isso é tratada com antibiótico.

Quanto tempo depois do contato aparecem os sintomas?

Em geral de dois a três dias depois do contato, podendo variar de um a seis dias. O quadro costuma começar de repente, com febre, dor de garganta e mal-estar.

Quantos dias de afastamento da escola ou do trabalho?

Pelo menos 24 horas depois do início do antibiótico. A partir daí, a pessoa deixa de transmitir, e a volta à escola ou ao trabalho depende também de ela estar se sentindo bem.

Escarlatina pega em adulto?

Pega. É menos comum do que na criança, mas o adulto também pode ter a infecção, com os mesmos sintomas e o mesmo tratamento.

Escarlatina pode dar mais de uma vez?

Pode. Existem muitos tipos de estreptococo e mais de uma toxina, e a proteção que fica depois da doença vale, em geral, só para o tipo que causou a infecção. Por isso é possível ter escarlatina de novo, e não há um número máximo de vezes.

Escarlatina tem vacina?

Não. Não existe vacina disponível contra a escarlatina nem contra o estreptococo do grupo A. A prevenção é feita com higiene das mãos, sem dividir objetos, e com o afastamento de quem está doente até completar 24 horas de antibiótico.

Escarlatina é grave?

Com o tratamento, a escarlatina costuma evoluir bem. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, os antibióticos reduziram a mortalidade da doença de cerca de 30%, no início do século 20, para menos de 1%. Sem tratamento, ela pode trazer complicações, algumas sérias, como a febre reumática.

Escarlatina tem cura?

Tem. O antibiótico elimina a bactéria, e as manchas, a febre e os outros sintomas desaparecem. A descamação da pele que vem depois também passa sozinha.

Escarlatina pode ser tratada com Benzetacil®?

Pode. A penicilina benzatina, conhecida como Benzetacil®, é dada em uma única injeção e é uma das opções da diretriz para tratar o estreptococo. A escolha entre a injeção e o antibiótico por via oral é feita na consulta.

Escarlatina pode ser tratada com azitromicina?

A azitromicina é uma das alternativas para quem tem alergia a penicilina. Para quem não tem alergia, a amoxicilina e a penicilina continuam sendo as primeiras escolhas, e a resistência do estreptococo à azitromicina vem crescendo.

Pode tomar dipirona ou ibuprofeno com escarlatina?

Os remédios para febre e dor podem ser usados junto com o antibiótico para aliviar os sintomas. A dipirona e o paracetamol costumam ser a primeira escolha, o ibuprofeno fica como segunda opção, e a aspirina deve ser evitada em crianças.

Pode tomar corticoide na escarlatina?

A diretriz da Sociedade de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos não recomenda o corticoide como parte do tratamento da infecção de garganta pelo estreptococo. O que trata a escarlatina é o antibiótico.

Escarlatina dá coceira?

Pode dar. As manchas melhoram com o antibiótico e não precisam de tratamento próprio. Quando a coceira incomoda muito, o alívio pode ser avaliado na consulta.

Escarlatina na gravidez faz mal ao bebê?

Segundo o NHS, não há evidência de que a escarlatina na gravidez prejudique o bebê, mas ela pode deixar a gestante indisposta. Vários antibióticos usados no tratamento podem ser tomados na gestação, e a escolha é feita na consulta.

Qual médico trata a escarlatina?

O otorrinolaringologista, que examina a garganta, faz o teste rápido do estreptococo na própria consulta e trata as amigdalites, em crianças e em adultos.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Escarlatina e amigdalite comum: qual é a diferença? Quais são os sintomas? Como tratar? YouTube, 8 nov. 2023. 1 vídeo (3 min 52 s). Disponível em: https://youtu.be/VV0f9yWUwgg. Acesso em: 30 set. 2026.
  2. VILELA, Larissa. Infecção de garganta: é vírus ou bactéria? Teste do estreptococo do grupo A (Exame Strep A)! YouTube, 19 mar. 2025. 1 vídeo (7 min 2 s). Disponível em: https://youtu.be/Y0CBuZ9SHMI. Acesso em: 30 set. 2026.
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  9. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Rheumatic heart disease. Genebra: WHO. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/rheumatic-heart-disease. Acesso em: 30 set. 2026.

Avaliação de dor de garganta com febre e manchas na OtoCare, em Brasília

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