Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Na maioria das vezes, água morna basta
Quem tem muita cera e vive com o ouvido tampado sabe que, de tempos em tempos, vai precisar de uma lavagem de ouvido no otorrino. Uma dúvida muito comum nessa hora é se o ouvido deve ser lavado com água ou com soro fisiológico.
A resposta é que depende do ouvido de cada paciente. Na maior parte dos casos, a água limpa e morna, na temperatura do corpo, é suficiente. O soro fisiológico, que é estéril, fica para o ouvido com otite externa ou com o tímpano perfurado. Água ou soro, a lavagem é feita no consultório, de preferência pelo otorrinolaringologista.
Fica mais fácil entender a escolha quando se conhece a parte do ouvido que recebe a lavagem.

Água ou soro, a lavagem não é para ser feita em casa. Sem prática e sem enxergar o canal, é possível machucar a pele e até perfurar o tímpano. Os riscos estão em lavar o ouvido em casa.
Por que a água pode ser usada no ouvido?
O ouvido tem três partes: externa, média e interna. A orelha externa inclui o canal auditivo, o tubo que leva o som da parte de fora até a membrana timpânica. É nesse canal que a cera se forma e, quando se acumula, tampa o ouvido.
Todo o canal auditivo é revestido por pele. É uma pele mais fina, mas do mesmo tipo da que cobre as mãos e os braços. Assim como as mãos podem ser lavadas com água limpa, a pele sadia do canal também tolera bem a água.
Na lavagem, o líquido é direcionado ao canal, chega até a membrana timpânica e volta pelo próprio canal, trazendo a cera. Uma pequena cuba fica apoiada ao lado do rosto para recolher a água que sai. Todo esse trajeto acontece sobre pele, e a membrana timpânica íntegra funciona como uma barreira, que não deixa o líquido passar para dentro do ouvido.
Por isso, no paciente que tem apenas cera, com a pele do canal saudável e o tímpano íntegro, a lavagem costuma ser feita com água limpa e morna, sem problema algum.
Que água é usada na lavagem de ouvido?
No consultório, a água da lavagem é limpa e aquecida até a temperatura do corpo antes de entrar no ouvido. Os protocolos dos serviços de saúde costumam citar a água destilada ou estéril e o soro fisiológico, e o procedimento é chamado, nos textos técnicos, de irrigação do canal auditivo.
Em muitos serviços de saúde, o soro fisiológico é o líquido mais usado. Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde da Atenção Primária, ele é escolhido por ser estéril, fácil de encontrar, barato e quase sem efeitos indesejados. Por isso, muita gente já fez a lavagem com soro e imagina que a água não sirva.
No ouvido saudável, a água limpa e morna resolve da mesma forma. O que muda a escolha não é o costume de cada serviço, e sim a condição da pele do canal e da membrana timpânica, que só o exame mostra.
Quando o soro fisiológico é o indicado?
O soro fisiológico é uma solução estéril, livre de micro-organismos. Ele passa a ser a escolha quando a proteção natural do ouvido está comprometida, em duas situações principais.
Otite externa ou canal inflamado
Na otite externa, a pele do canal fica inflamada e deixa de ser uma barreira íntegra. Surgem pontos mais expostos, que funcionam como porta de entrada para bactérias. Uma lavagem com líquido que não seja estéril pode levar micro-organismos justamente para essas áreas vulneráveis, e por isso, se a limpeza do canal for necessária, ela é feita com soro fisiológico.
Com o ouvido infeccionado, deixar entrar a água do chuveiro também pode piorar a infecção. Até o tratamento terminar, o ouvido segue protegido da água do dia a dia, como mostra a orientação sobre como proteger o ouvido no banho. Os sinais que ajudam a reconhecer o quadro estão em otite externa: como identificar.
Tímpano perfurado ou tubo de ventilação
Algumas pessoas com otite média crônica têm um orifício no tímpano. Com a perfuração, o líquido da lavagem atravessa a membrana e chega à orelha média, uma região estéril. Por isso, quando a lavagem é necessária nesse ouvido, a solução também precisa ser estéril, e a escolha é o soro fisiológico.
A criança que usa tubo de ventilação, o pequeno tubo colocado no tímpano para arejar a orelha média, também tem uma passagem aberta para dentro do ouvido. Para a escolha do líquido, ela entra no mesmo grupo de quem tem o tímpano perfurado.
Algumas referências, como o Manual MSD, preferem não usar líquido nenhum quando o tímpano tem ou já teve perfuração ou há tubo de ventilação, e tirar a cera com aspiração ou instrumentos. É uma possibilidade avaliada caso a caso, no exame do ouvido. As causas e o tratamento da perfuração no tímpano têm uma orientação própria, e a correção cirúrgica é feita pela timpanoplastia.
Na prática, a escolha fica assim:
- ouvido só com cera, pele e tímpano íntegros: água limpa e morna;
- otite externa ou canal inflamado: soro fisiológico morno, evitando a água;
- tímpano perfurado ou tubo de ventilação: soro fisiológico morno, evitando a água, ou remoção sem líquido.
Muitas vezes a pessoa não sabe que tem o tímpano perfurado ou o canal inflamado. Só o exame do ouvido, antes da lavagem, mostra qual é a situação.
Quando o ouvido é limpo sem líquido nenhum
Em alguns ouvidos, o otorrino prefere tirar a cera sem lavagem, com aspiração ou com instrumentos próprios, sob visão direta. A diretriz americana de cerume pede que, antes da remoção, sejam procurados os fatores que mudam a conduta, como o tímpano que não está íntegro, o uso de anticoagulante, o diabetes, a imunidade baixa, a radioterapia prévia na cabeça e no pescoço e o canal estreito.
No diabetes, o cuidado é maior. Segundo o Manual MSD, uma complicação rara e séria da remoção de cera nessas pessoas é a otite externa necrosante, uma infecção que avança além da pele do canal. A Academia Americana de Otorrinolaringologia cita o diabetes e a imunidade baixa entre as situações que pedem mais cautela com a lavagem, e nelas a cera pode ser retirada com instrumentos.
Secreção saindo do ouvido, dor e cirurgia de ouvido já feita também pesam nessa decisão, e devem ser contadas na consulta. Quem não deve fazer lavagem sem avaliação está detalhado na orientação sobre lavar o ouvido em casa.
Por que a lavagem precisa ser morna?
Tanto a água quanto o soro fisiológico precisam estar na temperatura do corpo. O motivo é evitar a tontura.
O labirinto, a parte do ouvido interno responsável pelo equilíbrio, fica logo além da orelha média. Um líquido frio ou muito quente no canal auditivo muda a temperatura dessa região e estimula o labirinto. O cérebro interpreta esse estímulo como movimento, e a pessoa sente tontura durante ou logo depois da lavagem.
Com a solução morna, na temperatura corporal, esse estímulo não acontece, e a lavagem costuma dar só a sensação de água no ouvido.
A diferença aparece também nos estudos. Num ensaio com voluntários, cada pessoa recebeu soro aquecido num ouvido e soro em temperatura ambiente no outro. Com o soro aquecido, a lavagem foi mais confortável e a tontura apareceu menos.
O que se sente na lavagem com água ou com soro
Com o líquido na temperatura certa, a sensação é a mesma com água ou com soro, a de água entrando e saindo do ouvido enquanto a cera é trazida para fora. A lavagem em si não costuma doer.
Algumas pessoas têm mais sensibilidade no ouvido e ficam aflitas só de pensar na limpeza. Isso é bem pessoal. Mesmo nesses casos, em geral é possível tirar a cera no consultório, com a lavagem ou com outros instrumentos. Dor durante o procedimento não é esperada e deve ser avisada na hora.
Na OtoCare, quando há indicação, a cera é retirada no consultório, depois do exame, pelo método mais adequado a cada ouvido. De quanto em quanto tempo repetir a limpeza varia de uma pessoa para outra, como explica a orientação sobre quando lavar o ouvido no otorrino.
Pode lavar o ouvido em casa com água ou soro?
Não. A escolha entre água e soro é só uma parte da técnica. A lavagem de ouvido é feita no consultório, de preferência pelo otorrinolaringologista, que examina o canal antes, define a solução e ajusta a força e a direção do jato. Feita sem prática, ela pode machucar o ouvido e até perfurar a membrana timpânica.
No consultório, o otorrino também pode concluir que a lavagem não é o melhor método e optar por aspiração ou instrumentos, como detalha a página de lavagem de ouvido em Brasília. Em casa, também não é indicado pingar líquidos no ouvido por conta própria; os cuidados estão em pingar gota na dor de ouvido. Se entrou água no banho ou na piscina, veja como tirar água do ouvido.
As gotas que amolecem a cera também não substituem a consulta. O uso delas antes da lavagem depende de indicação médica, como explica a orientação sobre o Cerumin®.
Quando procurar o otorrino
Procure avaliação quando o ouvido estiver tampado e não melhorar, e antes de qualquer lavagem. A consulta deve ser mais rápida se houver dor, coceira intensa, secreção, sangramento, perda de audição, zumbido novo ou tontura. As causas mais frequentes da dor estão em dor de ouvido: o que pode ser.
Informe ao médico se já teve perfuração do tímpano, otite de repetição, cirurgia de ouvido ou tubo de ventilação, e se tem diabetes ou usa anticoagulante. Esses dados ajudam a definir se a lavagem pode ser feita e com qual solução.
Vídeo: água ou soro para a lavagem de ouvido?
O vídeo abaixo mostra, em um modelo anatômico, o trajeto da lavagem no canal auditivo e explica quando a água é suficiente, quando o soro fisiológico é necessário e por que a solução deve ser morna.
Perguntas frequentes
A lavagem de ouvido com água pode causar otite?
No ouvido com pele saudável e tímpano íntegro, a lavagem com água limpa e morna, feita no consultório, é segura. O risco aparece quando a pele do canal já está inflamada ou o tímpano está perfurado, e por isso nesses casos se usa soro fisiológico. Outro cuidado é não deixar água presa atrás de uma cera que não saiu, situação que o Manual MSD aponta como causa de otite externa. Ao final da lavagem, o ouvido é examinado de novo.
Pode lavar o ouvido com soro gelado?
Não. Soro tirado da geladeira, ou água gelada, estimula o labirinto e pode dar uma tontura forte durante a lavagem. Muito quente também não serve. No consultório, o líquido é aquecido antes e conferido para ficar na temperatura do corpo.
O soro fisiológico é melhor que a água para todo mundo?
Não necessariamente. Os dois funcionam para retirar a cera. A vantagem do soro é ser estéril, o que faz diferença quando há inflamação do canal ou perfuração do tímpano. No ouvido saudável, a água limpa e morna resolve.
Pode lavar ouvido inflamado com soro?
Em casa, não. Com a inflamação, a pele do canal fica vulnerável, e lavar o ouvido por conta própria, mesmo com soro, junta os riscos da lavagem caseira aos de um canal já doente. Quando a limpeza é necessária, ela é feita no consultório, com soro estéril, e o tratamento da inflamação é definido na consulta.
O soro da lavagem nasal pode ir para o ouvido?
O soro da lavagem nasal não entra pelo canal do ouvido. O nariz se comunica com a orelha média por dentro, pela tuba auditiva, e assoar com força ou apertar demais o frasco pode levar pressão até ali. É um assunto diferente da lavagem de ouvido, explicado nas orientações sobre dor de ouvido na lavagem nasal e lavagem nasal e otite.
Lavagem de ouvido com água oxigenada é melhor?
Não é a mesma coisa. A água oxigenada não é usada para lavar o canal no lugar da água ou do soro. O otorrino pode receitá-la em situações específicas, como ajuda para secar a secreção de uma otite enquanto as gotas de antibiótico tratam a infecção. O produto de ouvido à base de água oxigenada também tem uso em bula para o ouvido tampado por excesso de cera, como alívio passageiro. Em nenhum dos casos ela deve virar rotina em casa. Os detalhes estão em água oxigenada no ouvido.
Na criança, a lavagem de ouvido é com água ou com soro?
A regra é a mesma do adulto. No ouvido só com cera, a água limpa e morna basta, e o soro fica para o canal inflamado, o tímpano perfurado e a criança com tubo de ventilação. Na criança pequena, que tem dificuldade de ficar parada, a lavagem pode não ser o método mais seguro, e a cera é retirada de outra forma.
Qual é o nome técnico da lavagem de ouvido?
Nos textos técnicos, a lavagem de ouvido aparece como lavagem auricular, lavagem otológica ou irrigação do canal auditivo. A cera acumulada que tampa o canal recebe o nome de cerume impactado, ou rolha de cerume.
Quem tem diabetes pode lavar o ouvido com água?
Depende do exame. A diretriz americana de cerume trata o diabetes como um fator que muda a conduta, e não como uma proibição, enquanto outras referências preferem não usar líquido nessas pessoas. A escolha entre lavar, aspirar ou usar instrumentos é feita na consulta, e quem tem diabetes deve avisar antes de qualquer limpeza de ouvido.
Referências
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Avaliação do ouvido em Brasília
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