Barulho contínuo e TV ligada o dia todo atrapalham a fala da criança?

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

A televisão ligada o dia inteiro em casa

Em muitas casas, a televisão da sala fica ligada o dia inteiro enquanto a criança brinca e faz outras coisas. Em outras, o som fica tocando música por longas horas. Parece inofensivo, e muitas vezes ninguém está assistindo ou prestando atenção. Mesmo assim, deixar a criança exposta a barulho contínuo no dia a dia pode atrapalhar a audição e a linguagem dela.

Há dois motivos para isso. O barulho excessivo e contínuo pode atrapalhar a formação da parte do cérebro que entende os sons, e o ruído do ambiente compete com as conversas de que a criança precisa para aprender a falar.

Menina brincando com bonecas no tapete da sala com a televisão ligada em um desenho ao fundo, e a Dra. Larissa Vilela em primeiro plano com o dedo junto à orelha

O estudo da revista Science sobre ruído e audição

Um estudo publicado em 2003 na revista Science mostrou que o ruído excessivo no ambiente pode atrapalhar o desenvolvimento auditivo. O trabalho foi experimental, feito com ratos. Os filhotes criados expostos a um ruído contínuo, de volume moderado, apresentaram alteração no córtex auditivo, a área do cérebro que recebe e organiza os sons. O desenvolvimento auditivo desses animais ficou alterado e se formou de maneira diferente por causa do ruído constante.

Foi um estudo muito bem desenhado, e os números chamam a atenção. Segundo o instituto de pesquisa que divulgou o trabalho, os ratos criados no ruído só atingiram os marcos básicos do desenvolvimento auditivo quando estavam três ou quatro vezes mais velhos do que os animais criados em ambiente normal. Em 2011, outro grupo criou ratos no mesmo tipo de ruído contínuo, 24 horas por dia, e também encontrou atraso no amadurecimento da audição no cérebro.

Os autores do estudo de 2003 apontaram o ruído como um fator de risco para o desenvolvimento das crianças. Nos animais, o desenvolvimento auditivo amadureceu e chegou ao padrão normal depois que eles saíram do ambiente barulhento, e esse resultado reforça a importância de cuidar do ambiente sonoro da criança. Em crianças, um experimento assim não seria feito, e a cautela com o barulho contínuo vem da possibilidade de ele atrapalhar uma fase tão importante do desenvolvimento.

Primeiro motivo: o barulho atrapalha o mapa auditivo do cérebro

O cérebro da criança vai aprendendo a organizar os sons nos primeiros anos de vida. Existe um período mais sensível, de até cerca de 3 anos e meio, em que o sistema auditivo central está mais aberto a mudanças. Esse período foi descrito em estudos com crianças com surdez que receberam implante coclear.

Se nessa fase a criança fica exposta a muito barulho, de forma contínua ao longo do dia, o desenvolvimento auditivo pode ser prejudicado, porque o ruído atrapalha a formação do mapa auditivo cortical. No fim das contas, a criança pode não conseguir desenvolver bem a região do cérebro responsável pela compreensão dos sons do dia a dia.

Isso vale para a televisão ligada o dia inteiro, mesmo passando desenhos, filmes ou programas infantis. Vale também para o som tocando música por horas e para qualquer outro ruído ambiental excessivo que fique presente de forma contínua no ambiente da criança.

Segundo motivo: o ruído compete com a conversa

A criança aprende a falar ouvindo as pessoas ao redor. Num ambiente com muito ruído, esse ruído compete com as conversas, e muitas vezes a criança não consegue perceber bem os fonemas, as sílabas e as palavras. Justamente no período em que mais precisa escutar bem para desenvolver a fala, ela passa a ter dificuldade por causa do barulho de fundo.

Os estudos de audição mostram por que a criança sente mais esse efeito do que o adulto. Bebês e crianças pequenas precisam que a fala esteja bem mais alta do que o ruído de fundo para entendê-la. Em um estudo clássico, bebês de 7 a 11 meses precisaram de uma diferença de quase 6 decibéis a mais do que os adultos para distinguir duas sílabas parecidas no meio do ruído. Em outro, bebês de 8 a 10 meses só detectavam a fala em volumes cerca de 24 decibéis mais altos que os adultos, quando havia barulho ou outras vozes ao fundo.

Isso pesa no aprendizado de palavras novas. Crianças por volta dos 2 anos aprenderam nomes de objetos novos quando a fala estava 10 decibéis acima de uma conversa de fundo, mas não quando a diferença era de 5 decibéis. Em crianças maiores, de 9 e 10 anos, as palavras aprendidas no silêncio foram pronunciadas com mais precisão do que as aprendidas com ruído.

A televisão atrapalha ainda mais porque o som dela também tem fala. As vozes da TV disputam a atenção com a voz dos pais, e o cérebro da criança precisa separar uma da outra.

A TV ligada também diminui a conversa em casa

Além de cobrir a voz, a televisão ligada muda o comportamento da família. Um estudo americano gravou o som do ambiente de 329 crianças de 2 meses a 4 anos, com um gravador digital que a criança usava em dias sorteados. A cada hora de televisão audível, os adultos falavam menos palavras perto da criança, cerca de 636 a menos por parte das mulheres e 134 a menos por parte dos homens, e a criança vocalizava menos e trocava menos turnos de conversa.

Em uma observação com crianças de 1 a 3 anos brincando com os pais, a TV ligada ao fundo diminuiu tanto a quantidade quanto a qualidade da interação entre eles. Em outro estudo, as crianças olharam para a televisão só por poucos segundos e menos de uma vez por minuto, e ainda assim brincaram por períodos mais curtos e com menos atenção. Observações feitas dentro de casa, em 2024, encontraram o mesmo padrão, com menos tempo de brincadeira compartilhada entre o bebê, o adulto e o brinquedo.

A exposição costuma ser grande. Em uma pesquisa com 1.454 famílias americanas, a criança ficava exposta, em média, a 232 minutos de televisão de fundo por dia, quase 4 horas. As menores eram as mais expostas, e deixar a TV ligada sem ninguém assistindo era um dos hábitos que mais aumentavam essa exposição.

Por que o barulho contínuo é duplamente prejudicial

Hoje se sabe que o barulho excessivo e contínuo no ambiente é duplamente prejudicial. Por si só, a exposição ao ruído excessivo pode fazer a criança desenvolver de forma errada a parte auditiva do cérebro. Além disso, o ruído compete com a conversa humana. A criança pode não perceber tão bem as palavras, e com isso o desenvolvimento da linguagem pode ser atrapalhado.

Por isso, o barulho excessivo no ambiente atrapalha o desenvolvimento auditivo da criança e também pode ser uma das causas de atraso de fala e linguagem nos pequenos. O tempo de tela, as recomendações por idade e os outros fatores que influenciam o início da fala estão na orientação sobre atraso na fala.

Ruído branco para o bebê dormir: cuidado com o volume

Muitas famílias usam aparelhos ou aplicativos de ruído branco para ajudar o bebê a dormir. O cuidado aqui é com o volume, a distância e o tempo de uso. Um estudo de 2014 mediu 14 aparelhos vendidos para o sono de bebês, no volume máximo. A 30 centímetros, todos passaram de 50 decibéis, o limite recomendado para os berçários dos hospitais, e três passaram de 85 decibéis, nível que, mantido por mais de 8 horas, ultrapassa o limite aceito para trabalhadores adultos.

Os autores concluíram que esses aparelhos podem produzir som capaz de prejudicar a audição e o desenvolvimento auditivo do bebê. Como o som diminui com a distância e o risco cresce com o volume e com as horas de uso, o mais seguro é deixar o aparelho longe do berço, no volume baixo, e não deixá-lo ligado a noite inteira.

O que fazer em casa para proteger a audição e a fala

O ambiente sonoro da criança pode ser ajustado com medidas simples:

  • desligar a televisão quando ninguém estiver assistindo, em vez de deixá-la como som de fundo;
  • não deixar música ou rádio tocando por longas horas no ambiente em que a criança brinca;
  • conversar bastante com a criança, perto dela, olhando para ela, de preferência num ambiente silencioso;
  • apresentar palavras novas em momentos de calma, com leitura de livros, músicas cantadas e brincadeiras;
  • usar o ruído branco, quando necessário, em volume baixo e longe do berço.

Os autores do estudo com ratos destacaram a importância de as crianças ouvirem com clareza os sons da fala para que a audição se desenvolva normalmente. As mesmas medidas ajudam as crianças com dificuldade de entender a fala no barulho, como as que têm transtorno do processamento auditivo central.

Quando avaliar a audição e a fala da criança

O barulho de casa é só uma das possíveis causas de dificuldade de fala. Perda auditiva, otites de repetição e alterações do desenvolvimento também podem atrasar a linguagem, e por isso a criança que fala menos do que o esperado para a idade precisa de avaliação, e não apenas de um ambiente mais silencioso.

Merecem atenção o bebê que não reage a sons fortes, a criança que não responde quando é chamada, que pede para aumentar o volume da TV ou do tablet e a que fala pouco ou de forma muito difícil de entender. Os marcos esperados para cada idade estão na orientação sobre atraso na fala, e as trocas de sons na orientação sobre criança que fala errado.

Na OtoCare, a consulta com otorrino examina os ouvidos e o nariz da criança e define os exames de audição adequados para a idade, como as emissões otoacústicas e a audiometria infantil. Os cuidados com a audição ao longo da vida estão na orientação sobre como cuidar da audição.

Vídeo: barulho contínuo e desenvolvimento da linguagem

O vídeo mostra o estudo da revista Science, o período mais sensível do desenvolvimento auditivo e os dois motivos pelos quais o barulho contínuo pode atrapalhar a audição e a fala da criança.

Perguntas frequentes

Deixar a TV ligada enquanto o bebê dorme atrapalha?

Sim, porque a televisão ligada no quarto é mais uma fonte de som contínuo, com vozes, e entra no mesmo cuidado do restante do dia. O melhor é desligá-la quando ninguém está assistindo, inclusive na hora do sono.

Televisão faz mal para bebê?

Pode atrapalhar de duas formas. Uma é o tempo de tela, cujas recomendações por idade estão na orientação sobre atraso na fala. A outra é o som da TV ligada ao fundo, que cobre a voz dos pais e diminui a conversa em casa, mesmo quando o bebê não está olhando para a tela.

Desenho infantil ou educativo também atrapalha?

Como som de fundo, sim. O que pesa é a televisão ligada de forma contínua no ambiente, e isso vale mesmo quando ela está passando desenhos, filmes ou programas infantis.

Pode deixar música tocando o dia todo para o bebê?

O som ligado com música por longas horas entra no mesmo cuidado da televisão, porque também compete com as conversas. Cantar com a criança ou ouvir música junto, em momentos definidos, é diferente de deixar o som tocando o dia inteiro ao fundo.

Ruído branco pode ficar ligado a noite toda?

O ideal é não. No estudo que mediu os aparelhos para bebês, alguns chegaram a níveis que, mantidos por mais de 8 horas, passam do limite aceito até para adultos. Quanto menos horas, mais baixo e mais longe do berço, menor a exposição.

Ruído branco pode causar surdez no bebê?

O risco existe quando o aparelho fica alto, perto do ouvido e ligado por muitas horas, porque o som intenso e prolongado é a mesma causa da perda auditiva por ruído nos adultos. Em volume baixo e à distância, o risco é bem menor.

Quantos decibéis o bebê pode ouvir?

Não existe um número único para a casa. Para os berçários dos hospitais, o limite recomendado é de 50 decibéis. Em casa, quanto mais baixa e mais longe do bebê estiver a fonte de som, melhor.

Se a TV for desligada, a fala da criança melhora?

Reduzir o barulho e aumentar a conversa fazem parte do cuidado. Nos ratos do estudo da Science, o desenvolvimento auditivo amadureceu depois que o ruído foi retirado. Na criança, quando a fala já está atrasada, desligar a TV não basta, e a avaliação é necessária para descartar outras causas, como a perda auditiva.

O barulho na escola atrapalha o aprendizado?

Pode atrapalhar. A desvantagem das crianças para entender a fala no ruído vale também para a sala de aula, onde o ruído de fundo disputa com a voz do professor. As medidas indicadas pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia para quem tem dificuldade de processamento auditivo, como reduzir o ruído de fundo e o eco da sala, diminuir a distância entre quem fala e quem escuta e falar com clareza, ajudam todas as crianças.

Referências

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Avaliação da audição e da fala da criança na OtoCare, em Brasília

Criança que fala pouco, troca muitos sons, não responde quando é chamada ou pede volume alto merece avaliação. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a audição é investigada com os exames adequados para a idade, as causas do atraso são avaliadas e a família recebe as orientações para o dia a dia. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.