Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Quando o aparelho auditivo mais atrapalha do que ajuda
Muita gente que usa aparelho auditivo não consegue se adaptar. Não consegue ficar muito tempo com ele, fica irritada e tem a impressão de que o aparelho mais atrapalha do que ajuda. Aos poucos, o aparelho vai para a gaveta.
Uma das grandes causas dessa má adaptação é o ajuste do aparelho. Quando o aparelho aumenta os sons errados, ou aumenta demais os sons que a pessoa já ouvia bem, ele incomoda de verdade. Muitas vezes, o problema não é o paciente nem a marca do aparelho, e sim a forma como ele foi regulado.

O caso do paciente que comprou o melhor aparelho e não conseguia usar
Um caso de consultório mostra bem como isso acontece. Um senhor de 70 anos tinha perda auditiva moderada nos dois ouvidos, causada pelo passar do tempo, a presbiacusia. Era um homem ativo, que participava de reuniões e tinha as próprias empresas, e a perda com certeza atrapalhava o dia a dia dele.
Ele já tinha testado o aparelho auditivo. Tinha comprado o melhor aparelho da loja, mas havia dois anos tentava e não conseguia usá-lo. Tinha passado por vários fonoaudiólogos, e a impressão continuava a mesma. Mal conseguia ficar uma hora com o aparelho, ficava irritado e sentia que ele aumentava tudo, com grande desconforto.
Uma nova audiometria confirmou a perda do exame anterior. Em seguida, ele foi encaminhado a uma fonoaudióloga de confiança para avaliar os ajustes do aparelho. Ela apagou toda a programação e refez o ajuste frequência por frequência, colocando em cada uma exatamente a amplificação de que ele precisava.
Três semanas depois, ele voltou com os dois aparelhos no ouvido e muito satisfeito. Passou a usar o aparelho todos os dias e a escutar praticamente tudo nas reuniões de trabalho, sem ficar de fora das conversas. O que faltava era um ajuste fino, feito por um bom profissional.
Por que o ajuste das frequências faz tanta diferença
O aparelho auditivo é, antes de tudo, um amplificador de som, como explica a orientação sobre aparelho auditivo. Ele pode aumentar todas as frequências sonoras, dos sons graves aos agudos. A perda auditiva, porém, muitas vezes não está em todas as frequências. Alguns pacientes perdem mais nos graves, e outros só nos agudos.
No caso do paciente de 70 anos, a perda estava nos agudos, os sons mais finos da fala, e o aparelho aumentava todas as frequências. Os sons que ele ainda ouvia quase normalmente chegavam amplificados demais. O volume ficava tão alto nas frequências em que a audição era boa que ele não aguentava ficar com o aparelho.
Os estudos mostram que a regulagem feita só pelo programa do fabricante muitas vezes fica longe do que cada ouvido precisa, para mais ou para menos. Em uma pesquisa com 42 ouvidos, 64% dos aparelhos regulados só pelo programa do fabricante ficaram mais de 10 dB fora do alvo em pelo menos uma frequência. Depois do ajuste guiado por medições feitas dentro do ouvido, 83% chegaram perto do alvo. Em outro estudo, a regulagem verificada no ouvido melhorou a compreensão de palavras em voz baixa e foi a preferida de 79% dos usuários.
Essa verificação é feita com um tubo fino ligado a um microfone, colocado no canal do ouvido junto com o aparelho, que mede o som que chega perto do tímpano. Uma revisão de estudos encontrou benefício moderado dessa verificação na compreensão da fala no silêncio. Em um estudo mais recente, com pessoas com perda leve a moderada, a regulagem inicial dos aparelhos modernos já ficou perto do alvo, exceto nos agudos, e a necessidade da medição no ouvido pode ser avaliada caso a caso.
O profissional habilitado para selecionar, adaptar e verificar o aparelho auditivo é o fonoaudiólogo, conforme o Conselho Federal de Fonoaudiologia.
Outras causas de má adaptação ao aparelho auditivo
O ajuste das frequências é uma das grandes causas, mas não a única. Uma revisão sobre por que as pessoas deixam de usar o aparelho encontrou, como motivos mais importantes, a sensação de pouco benefício e o desconforto. As queixas mais comuns têm explicação e, em geral, solução:
- a própria voz fica alta, abafada ou com eco, o chamado efeito de oclusão, que aparece quando o canal do ouvido fica fechado pela oliva ou pelo molde e costuma diminuir com olivas ou moldes mais abertos;
- o aparelho apita, o que pode vir de encaixe ruim, de um problema no funcionamento ou de cera entupindo a saída do som;
- o barulho do ambiente incomoda, porque o aparelho não separa completamente a fala dos outros sons e às vezes precisa de ajuste;
- o aparelho machuca ou coça, por encaixe inadequado ou pela pele do canal ressecada, tema da orientação sobre coceira no ouvido de quem usa aparelho;
- a expectativa é de voltar a ouvir como antes, mas o aparelho não devolve a audição natural, e o som fica um pouco diferente do que a pessoa se lembrava.
Problemas no próprio ouvido, como cera de ouvido acumulada ou otite, também atrapalham e precisam ser examinados pelo otorrino antes de concluir que o aparelho não serve.
Aparelho auditivo apitando: o que pode ser
O apito do aparelho é chamado de microfonia. As causas mais comuns são o aparelho que não encaixa bem ou não funciona direito e a cera ou a secreção entupindo a saída do som.
O primeiro passo é conferir se o aparelho está bem colocado. Se o apito continua, o ouvido precisa ser examinado, para ver se há cera, e o fonoaudiólogo revê o encaixe e a regulagem.
Quanto tempo leva para se acostumar com o aparelho auditivo
Não existe um prazo fixo, igual para todos. O serviço de saúde do Reino Unido fala em algumas semanas ou meses. Uma revisão de 2025, com 25 estudos, encontrou melhora da compreensão da fala com o tempo de uso em parte dos estudos, com ganhos modestos e que variam de pessoa para pessoa, e o uso constante fez diferença.
O que mais ajuda é usar o aparelho ao longo do dia inteiro. Em um estudo pequeno, com pessoas com perda moderada que usaram o aparelho pelo menos seis horas por dia, a compreensão da fala no barulho melhorou em um mês, e os próprios usuários relataram se incomodar menos com os sons de fundo. As horas de uso recomendadas estão na orientação sobre aparelho auditivo.
O incômodo que não melhora nas primeiras semanas, porém, não deve ser tratado só com paciência. Pode ser sinal de que o ajuste precisa ser revisto.
Como se acostumar com o aparelho auditivo
- Use o aparelho o dia inteiro. O ideal é tirar só para dormir e para o banho. Guardar o aparelho para usar só em reuniões e restaurantes atrapalha a adaptação.
- Anote as queixas. Registre em que situação o som incomoda, se a própria voz fica estranha, se há apito ou se a fala dos outros continua difícil de entender.
- Volte ao fonoaudiólogo para ajustar. Leve as anotações. O ajuste fino costuma precisar de mais de uma visita.
- Examine o ouvido com o otorrino. Cera, otite ou mudança na audição podem explicar a dificuldade.
- Treine a escuta. Orientação, prática de conversação e treinamento auditivo podem ajudar, embora os estudos mostrem efeitos pequenos.
O apoio da família também conta. Os estudos mostram que o incentivo das pessoas próximas pesa na decisão de continuar usando o aparelho.
Por que vale a pena não desistir do aparelho
A reabilitação da audição com o aparelho auditivo é essencial para manter a qualidade de vida de quem tem perda auditiva. A revisão da Cochrane mais recente, de 2026, mostrou que, na perda leve a moderada, o aparelho auditivo provavelmente traz grande melhora na qualidade de vida ligada à audição e na capacidade de escutar. Os estudos registraram poucos casos de desconforto.
O uso também é importante para não piorar a perda de audição, principalmente a capacidade de entender as palavras. Um estudo clássico acompanhou o ouvido que ficou sem aparelho e viu que ele perdeu, com os anos, essa capacidade, como explica a orientação sobre quando usar aparelho auditivo.
Quando procurar o otorrino e o fonoaudiólogo
Quem já tentou o aparelho e sente que ele mais atrapalha do que ajuda deve procurar um bom fonoaudiólogo para refazer um ajuste bem refinado, e o otorrino para conferir se está tudo certo com o ouvido e com a audição. Os dois profissionais trabalham melhor juntos, em equipe.
Na OtoCare, a consulta com otorrino examina o ouvido, e a audiometria mostra se a perda mudou, em quais frequências ela está e qual é o tipo, como explica a orientação sobre tipos de perda auditiva. Com esse exame atualizado, o fonoaudiólogo tem a base certa para regular o aparelho.
Vídeo: por que não me adapto ao aparelho auditivo
O vídeo abaixo conta o caso do paciente que não conseguia usar o aparelho e mostra por que o ajuste das frequências faz tanta diferença.
Perguntas frequentes
É normal o aparelho auditivo incomodar no começo?
Um pouco de estranheza nos primeiros dias é comum, porque sons que a pessoa não ouvia voltam a aparecer. Irritação forte, que impede de ficar com o aparelho, não é normal e pede revisão do ajuste.
Comprar o aparelho mais caro resolve a adaptação?
Não necessariamente. O aparelho mais caro, com o ajuste errado, pode incomodar tanto quanto um simples. A regulagem de acordo com a perda de cada frequência pesa muito na adaptação.
Dá para regular as frequências do aparelho em casa?
Em casa, o usuário mexe só nos controles que o aparelho oferece, como volume e programas, conforme a orientação recebida. O ajuste das frequências é feito pelo fonoaudiólogo, com base na audiometria, e é ele quem faz a verificação do resultado.
O aparelho auditivo faz mal?
Em geral, não. Nos estudos reunidos pela Cochrane, na perda leve a moderada, os casos de desconforto foram poucos. Machucado ou coceira no ouvido pedem revisão do encaixe e avaliação do ouvido.
Aparelho auditivo com som abafado: o que pode ser?
Pode ser cera entupindo a saída do som, o efeito de oclusão ou uma regulagem com pouco ganho nos agudos. O ouvido e o aparelho precisam ser examinados.
E se, mesmo com o aparelho ajustado, a adaptação não vier?
O próximo passo é conferir, na consulta com o otorrino, se o aparelho é a melhor opção para aquela perda. Algumas perdas têm pouca indicação de aparelho, como explica a orientação sobre quando usar aparelho auditivo.
Referências
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Avaliação da audição com otorrino em Brasília
Se o aparelho auditivo ficou na gaveta, uma nova tentativa começa pela audição bem avaliada. Agende uma consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, para examinar o ouvido e atualizar a audiometria. Com esse exame, o fonoaudiólogo tem a base para refazer o ajuste do aparelho.
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