Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O primeiro implante coclear sem nenhuma parte externa
Uma das maiores novidades da otologia dos últimos anos chegou em 29 de setembro de 2026. Nessa data, a empresa austríaca MED-EL lançou na Europa o implante coclear totalmente implantável, também chamado de implante coclear invisível, ou TICI, a sigla em inglês. O nome comercial é TICI UNICO.
O implante coclear já foi, por si só, uma revolução no tratamento da surdez. A nova versão vai um passo além. Todas as peças são implantadas na cirurgia, e não sobra nada para usar do lado de fora. Entre otorrinos e usuários de implante coclear, é um dos assuntos mais comentados das últimas semanas.

O implante coclear invisível fica inteiro embaixo da pele e permite ouvir 24 horas por dia. A audição que ele oferece é comparável à do implante convencional. Por enquanto, ele só é feito na Europa e em adultos, e a chegada ao Brasil depende da Anvisa.
Como funciona o implante coclear convencional
O implante coclear é um dispositivo que ajuda a ouvir quem tem perda auditiva severa ou profunda nos dois ouvidos e pouco ganho com o aparelho auditivo comum. Em casos mais específicos, ele também é indicado na perda total de um ouvido só, principalmente quando há muito zumbido, como explica a orientação sobre o tratamento da surdez unilateral. Os critérios de indicação, os exames e a cirurgia estão na página sobre o implante coclear.
O implante convencional tem duas partes. Por dentro, um feixe de eletrodos é colocado na cirurgia diretamente na cóclea, a parte da orelha interna que transforma o som em sinal para o nervo da audição. Por fora, atrás da orelha ou preso à cabeça por um ímã, ficam o microfone, que capta o som do ambiente, o processador, que trata esse som, e a bateria.
A parte externa traz algumas limitações no dia a dia. Ela precisa de cuidado diário, atrapalha em algumas atividades físicas e impede o mergulho. E, quando ela é retirada, a pessoa deixa de ouvir.
O que muda no implante coclear totalmente implantável
No implante coclear invisível, tudo o que hoje fica do lado de fora passa para baixo da pele. O processador, a bateria e o estimulador ficam numa única peça de titânio, selada, e o microfone é uma peça separada, também implantada embaixo da pele e ligada ao implante. Segundo o fabricante, o conjunto pesa 20 gramas.
O microfone capta o som através da pele. Por isso, quem usa o implante passa a ouvir também alguns sons do próprio corpo, como acontece com quem escuta normalmente. O fabricante informa que esses sons tendem a ficar em segundo plano com o tempo.
Para o paciente, as vantagens se resumem em duas, e elas já fazem muita diferença. A primeira é não ter nenhum aparelho para colocar, cuidar, perder ou molhar. A segunda é poder ouvir 24 horas por dia.
Ouvir 24 horas por dia, e desligar quando quiser
Com o implante convencional, a pessoa tira a parte externa para dormir e muitas vezes para tomar banho, e nesse tempo não ouve. Parece um detalhe, mas faz falta na rotina. Quem dorme sem o processador pode não escutar o despertador de manhã, ou o filho chorando no quarto ao lado.
Com o implante totalmente implantável, a audição continua no banho, na chuva, na piscina, no esporte e durante o sono. E continua também enquanto a bateria carrega.
Ao mesmo tempo, nem todo mundo quer ouvir à noite. Muitos usuários de implante gostam de tirar o aparelho para dormir, porque o silêncio deixa o sono mais tranquilo. Por isso o implante pode ser desligado quando a pessoa preferir, pelo próprio carregador.
Sem aparelho à mostra
Outro ganho é a aparência. O aparelho visível ainda carrega um estigma para muita gente, principalmente para crianças e adolescentes. Um estudo australiano que entrevistou adultos usuários de implante coclear encontrou dois perfis. Alguns deixam o processador à mostra, como parte de quem são, e outros preferem que a surdez apareça o menos possível. Para os autores, o implante totalmente implantável dá ao usuário a escolha de mostrar ou não a surdez.
Como funciona a bateria do implante coclear invisível
A bateria fica dentro do implante, e a recarga é feita através da pele. O paciente carrega na tomada um pequeno carregador, que o fabricante chama de GoPod, e o encaixa sobre a região do implante, onde ele fica preso por um ímã. Em geral, a recarga é feita à noite.
Cerca de uma hora de carga basta para um dia inteiro de audição, e a autonomia passa um pouco das 24 horas. O fabricante informa que a carga completa pode durar até 40 horas, mas a recomendação é carregar uma vez por dia, para não precisar pensar no nível da bateria.
A bateria implantada foi projetada para durar pelo menos 15 anos, mantendo um dia inteiro de audição com uma carga diária. Depois disso, há dois caminhos. A pessoa pode passar a usar um processador externo, e o implante funciona como um implante coclear comum, ou pode fazer uma nova cirurgia para trocar o implante.
Como é a cirurgia do implante coclear invisível
A cirurgia segue a base da cirurgia do implante coclear convencional. A diferença é a etapa de posicionar e fixar o microfone embaixo da pele. No começo, a técnica ainda estava sendo ajustada. Com a evolução, a diferença caiu para cerca de 20 minutos a mais. Como a cirurgia do implante coclear, em mãos experientes, leva menos de uma hora, esses minutos não chegam a ser um impedimento para uma tecnologia mais cômoda.
A cicatriz fica um pouco maior, porque todas as peças precisam caber embaixo da pele. Ainda assim, o corte fica no couro cabeludo, atrás da orelha, e em geral não aparece.
Na OtoCare, a consulta avalia a perda auditiva e a indicação do implante e oferece segunda opinião, mas a cirurgia de implante coclear não é feita na clínica.
O som é parecido com o do implante convencional
A qualidade do som é comparável à do implante coclear comum. Continua sendo um som um pouco metalizado, diferente da audição natural, e o resultado dos dois tipos de implante é muito parecido. O que muda é a praticidade, e não a qualidade do som.
O que os estudos mostraram até agora
O lançamento veio depois de um estudo em dois centros de implante coclear da Europa, na Bélgica e na Alemanha. Seis adultos com perda auditiva severa a profunda nos dois ouvidos receberam o implante a partir de setembro de 2020 e foram acompanhados por um ano.
O entendimento da fala, no silêncio e no ruído, foi comparável ao obtido pelos mesmos pacientes com um processador externo convencional. Os questionários de qualidade de vida e de satisfação melhoraram ao longo do estudo, e quase todos usaram o implante sem processador externo na maior parte do tempo. Houve um evento adverso grave, de um tipo que já constava entre os riscos possíveis, e ele foi tratado e se resolveu sem sequelas. O estudo foi financiado pelo fabricante.
Desde o lançamento, o número de implantados vem crescendo, e pelo menos 40 pacientes já receberam o implante. Os dados crescem cada vez mais.
Outros implantes sem parte externa ainda estão em pesquisa
Outras empresas também desenvolvem implantes sem parte externa, e eles não são todos iguais. Um estudo australiano com 10 adultos testou o sistema em pesquisa de outra fabricante. A audição melhorou em relação ao início, mas foi melhor com o processador externo ligado do que no modo invisível, e dois aparelhos falharam por entrada de líquido no microfone, o que levou à troca por implantes convencionais. Por isso, o resultado de um modelo não vale automaticamente para outro.
Quem pode receber o implante coclear invisível
Segundo o fabricante, o implante invisível é voltado para pessoas com perda auditiva neurossensorial severa ou profunda que têm pouco ou nenhum benefício com o aparelho auditivo. Os graus de perda estão explicados na orientação sobre os graus de surdez.
Por enquanto, o implante totalmente implantável é feito apenas em adultos. Não é que ele não possa ser usado em crianças. Os estudos começaram pelos adultos por causa da bateria, que dura em teoria 15 anos, e o fabricante quer entender melhor o acompanhamento de longo prazo antes de ampliar o uso.
Trocar o implante convencional pelo invisível
É possível, mas a troca não é simples. Para trocar o implante, é preciso trocar toda a estrutura, inclusive o feixe de eletrodos que fica dentro da cóclea. Isso significa retirar o implante de uma região extremamente delicada e passar um novo eletrodo pela cóclea. Pode haver dificuldade nessa passagem. Não é regra, mas pode acontecer, porque a cirurgia do implante é refeita desde o começo.
Para quem está muito bem com o implante atual, ouvindo bem e com grande benefício, vale pensar bem se a troca compensa. É uma decisão bastante pessoal. Se a parte externa realmente atrapalha a vida, não há contraindicação para tentar a troca. Mas é importante saber que existe o risco de alguma piora auditiva e de não ter o mesmo ganho com o novo implante.
Quanto custa e quando chega ao Brasil
O implante totalmente implantável é mais caro do que o convencional, e o fabricante ainda não divulgou quanto. O argumento da empresa é que, a longo prazo, ele compensa, porque o paciente precisaria de menos trocas de processador e de peças externas ao longo dos anos.
Hoje o implante é feito apenas na Europa. A MED-EL já iniciou o processo de registro na Anvisa, e a expectativa da empresa é a liberação no Brasil no fim do primeiro semestre de 2027. Essa é a informação de novembro de 2026 e pode mudar com o tempo.
O implante coclear convencional é oferecido pelo SUS para quem tem indicação. O implante invisível, sem registro no Brasil, ainda não pode ser oferecido aqui, nem pelo SUS nem de forma particular.
Implante coclear invisível não é aparelho auditivo invisível
Na internet, os dois nomes se confundem. Os aparelhos auditivos discretos, colocados dentro do canal do ouvido, são aparelhos que amplificam o som e servem para perdas que ainda respondem ao aparelho. O implante coclear invisível é um implante, colocado por cirurgia, para quem já não tem benefício com o aparelho. Os tipos de aparelho e as perdas em que cada um ajuda estão na orientação sobre o aparelho auditivo.
Um ano de boas notícias para quem tem surdez
O implante coclear totalmente implantável não é a única novidade de 2026. Neste ano, o Otarmeni, primeiro remédio para a surdez causada pelo gene OTOF, foi aprovado nos Estados Unidos. É a terapia gênica para a surdez, que já devolveu a audição a crianças que nasceram surdas.
O implante invisível chega como a segunda boa notícia do ano e deve trazer uma grande evolução na qualidade de vida de quem precisa de implante coclear. Poder ver um implante coclear totalmente implantável era algo difícil de imaginar até pouco tempo atrás.
Vídeo: implante coclear invisível
O vídeo, publicado em novembro de 2026, explica como funciona o implante coclear totalmente implantável, as vantagens, a bateria, a cirurgia, a troca do implante antigo e a previsão de chegada ao Brasil.
Perguntas frequentes
O que é o implante coclear invisível?
É o implante coclear totalmente implantável. Todas as peças, inclusive o microfone, são colocadas na cirurgia, e não há nada para usar do lado de fora. Por isso ele não aparece.
Qual é o implante coclear mais moderno?
Hoje, o mais novo é o TICI UNICO, da MED-EL, lançado na Europa em setembro de 2026 como o primeiro implante coclear totalmente implantável à venda no mundo.
Quantos anos dura um implante coclear?
Segundo o fabricante, a parte interna do implante é feita para durar décadas. No implante invisível, a bateria implantada foi projetada para pelo menos 15 anos, e depois disso a pessoa pode usar um processador externo ou trocar o implante.
Quem tem implante coclear escuta?
Sim. O implante estimula diretamente o nervo da audição e permite ouvir os sons e entender a fala, mas o som é um pouco metalizado, diferente da audição natural. Isso vale para o implante convencional e para o invisível.
Com o implante coclear invisível pode tomar banho e nadar?
Pode. Segundo o fabricante, como não há parte externa, a água não chega ao implante, e a pessoa continua ouvindo no banho, na piscina e no mar.
Quem tem implante coclear invisível pode fazer ressonância magnética?
Pode, seguindo as condições do fabricante. O implante é liberado para ressonância magnética de 1,5 e de 3 tesla, sem precisar de cirurgia para fazer o exame.
O implante coclear invisível pode ser desligado?
Pode. Quem prefere dormir em silêncio ou quer uma pausa desliga o implante pelo carregador e volta a ligar quando quiser.
Como carregar o implante coclear invisível?
Com um pequeno carregador colocado sobre o implante e preso por um ímã. Cerca de uma hora de carga, em geral à noite, dá um dia inteiro de audição, e a pessoa continua ouvindo enquanto carrega.
Com o implante coclear invisível dá para ouvir música com fone de ouvido?
Dá. O fabricante recomenda usar fones de condução óssea ou fones de arco, que ficam sobre a orelha, posicionados em cima do microfone implantado.
Criança pode colocar o implante coclear invisível?
Por enquanto, não. O implante é feito apenas em adultos, por causa da bateria, que dura em teoria 15 anos. A criança com indicação continua recebendo o implante convencional.
Quem tem implante coclear pode trocar pelo invisível?
Pode, mas a troca exige refazer toda a cirurgia, inclusive a retirada dos eletrodos de dentro da cóclea. Há risco de piora da audição, e a decisão é pessoal, avaliada caso a caso.
Quanto custa o implante coclear invisível?
O preço ainda não foi divulgado. Ele é mais caro do que o implante convencional, mas o fabricante defende que, a longo prazo, compensa por exigir menos trocas de peças externas.
Quando o implante coclear invisível chega ao Brasil?
O pedido de registro já está na Anvisa, e a expectativa do fabricante é a liberação no fim do primeiro semestre de 2027. A previsão é de novembro de 2026 e pode mudar.
O implante coclear invisível é feito pelo SUS?
Ainda não, porque o implante não tem registro no Brasil. O implante coclear convencional é oferecido pelo SUS para quem tem indicação.
Quais são os pontos negativos do implante coclear invisível?
Ainda não está disponível no Brasil, é mais caro, é feito só em adultos, deixa uma cicatriz um pouco maior e a bateria implantada precisa de uma solução depois de pelo menos 15 anos de uso. O som continua parecido com o do implante convencional.
Referências
- VILELA, Larissa. Implante coclear invisível. YouTube, 4 nov. 2026. Disponível em: https://youtu.be/tb_H9ocBFoQ. Acesso em: 4 nov. 2026.
- VILELA, Larissa. Implante coclear: tudo sobre a cirurgia que pode curar a surdez. YouTube, 12 abr. 2025. Disponível em: https://youtu.be/-QTjuyqZtlQ. Acesso em: 4 nov. 2026.
- LEFEBVRE, P. P.; MÜLLER, J. et al. Rehabilitation of human hearing with a totally implantable cochlear implant: a feasibility study. Communications Medicine, v. 5, n. 1, p. 10, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39779916/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- BRIGGS, R. et al. Evaluation of a totally implantable cochlear implant in adults with bilateral sensorineural hearing loss: a feasibility study. Ear and Hearing, v. 47, n. 2, p. 298-309, 2026. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41243136/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- LO, C. Y. et al. The (in)visibility of deafness: identity, stigma, quality of life and the potential role of totally implantable cochlear implants. Health Expectations, v. 27, n. 3, e14060, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38685588/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- MED-EL. TICI UNICO: the invisible cochlear implant. Innsbruck: MED-EL, 2026. Disponível em: https://www.medel.com/hearing-solutions/tici. Acesso em: 4 nov. 2026.
- MED-EL. TICI UNICO: totally implantable cochlear implant. Informações para profissionais. Innsbruck: MED-EL, 2026. Disponível em: https://www.medel.pro/hearing-solutions/tici. Acesso em: 4 nov. 2026.
Avaliação da surdez e do implante coclear em Brasília
Para saber o grau da perda auditiva e se o implante coclear, convencional ou invisível, pode ser uma opção, a audição é avaliada na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília. A clínica faz a audiometria e o BERA, avalia a indicação do implante e oferece segunda opinião. A cirurgia de implante coclear não é feita na OtoCare.
Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479
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