Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Surdo não é mudo
Um caso de uma pessoa surda e muda, que teria nascido sem os tímpanos e sem as pregas vocais, circulou muito nas redes sociais e chegou ao consultório como pergunta de um paciente. Isso é possível do ponto de vista médico? A resposta passa por entender o que é a chamada surdo-mudez.
A pessoa chamada de surda-muda muito provavelmente tem uma surdez profunda nos dois ouvidos, que começou na infância e não foi tratada, e por isso não desenvolveu a fala oral. A voz dela está preservada. A laringe é normal, e ela chora, ri, grita e emite sons. O que falta é a linguagem falada, que depende de ouvir.
Por isso, o termo adequado é surdo. A expressão surdo-mudo sugere um problema na voz que, na grande maioria das vezes, não existe, e deve ser evitada.

Por que a surdez impede a fala
Aprendemos a falar ouvindo. O bebê e a criança escutam os sons ao redor e, a partir deles, desenvolvem a fala e a linguagem. Uma criança que não ouve nenhum som não fala, mesmo com a laringe perfeita.
O cérebro tem um período crítico para esse desenvolvimento, que vai até os 7 anos de idade. Se uma perda auditiva grave não é tratada até essa idade, é muito provável que a criança não consiga falar bem, mesmo que seja tratada depois, porque as janelas de desenvolvimento da fala no cérebro se fecham.
É daí que vem a expressão surdo-mudo. Antes dos tratamentos atuais, as pessoas com surdez profunda nos dois ouvidos não desenvolviam a fala oral e se comunicavam pela língua de sinais, que no Brasil é a Libras, reconhecida por lei como meio legal de comunicação e expressão.
Hoje o diagnóstico é feito ao nascer
No Brasil, a lei obriga os hospitais e as maternidades a fazer, de graça, o exame de emissões otoacústicas, o teste da orelhinha, nos bebês que nascem ali. O exame é rápido, feito antes da alta, e dá o resultado na hora.
Quando o bebê não passa, o teste é repetido em alguns dias ou semanas. Com essa triagem, a maior parte das crianças com perda auditiva é diagnosticada no primeiro, segundo ou, no máximo, terceiro mês de vida e segue para a reabilitação. Se o bebê não passou no teste, agende a avaliação da audição com otorrino na OtoCare.
Toda criança surda tem tratamento
A reabilitação é feita com aparelho auditivo ou, quando o aparelho não basta por causa de uma perda muito grave, com o implante coclear. Mesmo o bebê que não escuta absolutamente nada nos dois ouvidos pode passar a ouvir com o implante, e os resultados são excelentes. Os graus de perda estão na orientação sobre os graus de surdez.
É possível nascer sem pregas vocais?
A princípio, não há relato de caso de uma pessoa que tenha nascido sem as pregas vocais. Bebês podem nascer com várias alterações na laringe, como laringomalácia, cistos, pregas vocais grudadas ou paralisia de uma delas. Nesses casos, o choro pode ser mais rouco ou mais fraco, mas existe algum som.
Um choro sem som pode acontecer por outros motivos, como a falta de força nos pulmões, com as pregas vocais normais. Uma pessoa sem pregas vocais, a princípio, não é vista na prática médica.
É possível nascer sem tímpano?
Sim, mas é muito raro. Existem malformações graves do ouvido, como a atresia, às vezes junto com a microtia, a orelha pequena. Nelas, a orelha média pode não se formar, e então não existe tímpano e o canal do ouvido termina em fundo cego. Em alguns casos, nem a orelha interna se forma.
Vídeo: surdez e mudez são a mesma coisa?
O vídeo explica por que a surdez impede a fala, como funciona o teste da orelhinha e o que existe de fato sobre nascer sem pregas vocais ou sem tímpano.
Perguntas frequentes
Todo surdo é mudo?
Não. A pessoa surda tem voz, chora, ri e emite sons, porque a laringe é normal. O que falta, quando a surdez não é tratada na infância, é a fala oral.
Uma pessoa surda pode aprender a falar?
Pode, principalmente quando a surdez é tratada cedo, com aparelho auditivo ou implante coclear, dentro da janela de desenvolvimento da fala, que vai até os 7 anos.
Surdez tem cura?
Na maioria dos casos, a surdez não desaparece, mas toda criança surda tem tratamento, e quanto mais cedo ele começa, melhor para a fala.
A surdez de nascença é genética?
Em cerca de metade dos casos de surdez de nascença, a causa é genética, segundo a agência de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos. Para um desses tipos genéticos, já existe uma terapia gênica aprovada nos Estados Unidos, explicada na orientação sobre terapia gênica para surdez.
O que é o teste da orelhinha?
É o exame de emissões otoacústicas feito no bebê antes da alta da maternidade. É obrigatório e gratuito no Brasil e mostra na hora se o bebê passou ou precisa repetir o exame.
Qual é o termo correto, surdo ou surdo-mudo?
Surdo. A expressão surdo-mudo é imprecisa, porque a pessoa surda tem voz, e deve ser evitada.
Surdo ou deficiente auditivo?
O decreto que regulamenta a Libras chama de pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por experiências visuais, com a Libras. Os critérios de deficiência auditiva para direitos estão na orientação sobre os direitos da pessoa com deficiência auditiva.
Qual é o CID de surdo-mudo?
Na CID-10, o código H91.3 corresponde a surdo-mudez não classificada em outra parte. O código de cada caso é definido na avaliação.
A pessoa surda é considerada incapaz?
Não. Pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa.
A pessoa surda pode dirigir e é PCD?
Os critérios para dirigir com perda auditiva e para ser considerado pessoa com deficiência auditiva estão na orientação sobre os direitos da pessoa com deficiência auditiva.
Referências
- VILELA, Larissa. Surdez e mudez: qual a diferença? Esclarecendo o termo “surdo-mudo” e o caso do pastor Miguel. YouTube, 7 maio 2025. 1 vídeo (11 min 53 s). Disponível em: https://youtu.be/pLsuuWPAZts. Acesso em: 30 set. 2026.
- BRASIL. Lei nº 12.303, de 2 de agosto de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de realização do exame denominado Emissões Otoacústicas Evocadas. Brasília, DF: Presidência da República, 2010. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12303.htm. Acesso em: 30 set. 2026.
- BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras. Brasília, DF: Presidência da República, 2002. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm. Acesso em: 30 set. 2026.
- BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 2002. Brasília, DF: Presidência da República, 2005. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 30 set. 2026.
- BRASIL. Ministério da Saúde. DATASUS. CID-10: capítulo VIII, H90–H95. Brasília, DF: DATASUS, 2008. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/h90_h95.htm. Acesso em: 30 set. 2026.
- BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 30 set. 2026.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. FDA approves first-ever gene therapy for treatment of genetic hearing loss under national priority voucher program. Silver Spring: FDA, 23 abr. 2026. Disponível em: https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-first-ever-gene-therapy-treatment-genetic-hearing-loss-under-national-priority-voucher. Acesso em: 30 set. 2026.
- TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS. Semente da Inclusão: como se referir a uma pessoa surda? Autoria de Vicente Junqueira Moragas. Brasília, DF: TJDFT, 15 mar. 2022. Disponível em: https://www.tjdft.jus.br/acessibilidade/publicacoes/sementes-da-inclusao/semente-da-inclusao-como-se-referir-a-uma-pessoa-surda. Acesso em: 30 set. 2026.
Avaliação da audição infantil em Brasília
Se o bebê não passou no teste da orelhinha, ou se a criança não reage bem aos sons ou demora a falar, a audição pode ser avaliada na consulta com otorrino na Clínica OtoCare, no Noroeste de Brasília. A OtoCare atende adultos e crianças.
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