Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Não: surdez não significa mudez, e o termo surdo-mudo deve ser evitado
Uma pessoa surda não é, por esse motivo, uma pessoa muda. A surdez é uma perda parcial ou total da audição. A mudez, quando existe, está relacionada à impossibilidade de produzir fala por uma alteração do aparelho fonador ou do sistema neurológico. São condições diferentes, que podem existir separadamente.
Por isso, a expressão surdo-mudo não deve ser usada como sinônimo de pessoa surda. As formas mais adequadas são pessoa surda ou pessoa com deficiência auditiva, respeitando também a maneira como cada pessoa prefere se identificar.

Não falar oralmente não significa não ter linguagem, não compreender ou não conseguir se comunicar. A Libras é uma língua completa, com estrutura gramatical própria, e muitas pessoas surdas também desenvolvem a fala oral.
Qual é a diferença entre surdez, fala e linguagem?
A audição recebe os sons. A fala transforma o ar que sai dos pulmões em voz e articula palavras com a participação da laringe, da língua, dos lábios e de outras estruturas. Já a linguagem é a capacidade de organizar e comunicar ideias, seja por uma língua oral, pela Libras, pela escrita ou por outros recursos.
Uma pessoa pode não ouvir e ter a laringe completamente preservada. Ela pode chorar, rir, gritar e emitir sons normalmente. Também pode desenvolver fala oral com acesso precoce à audição, acompanhamento fonoaudiológico e uma estratégia de comunicação adequada ao seu caso.
Da mesma forma, uma pessoa pode ouvir e ter uma condição que dificulte ou impeça a produção da fala. Esse exemplo mostra por que juntar automaticamente surdez e mudez em uma única expressão cria uma ideia errada sobre duas funções distintas do corpo.
Por que uma perda auditiva profunda pode afetar o desenvolvimento da fala oral?
Nos primeiros anos de vida, a criança aprende os sons da língua ao escutar as pessoas ao redor e ao comparar a própria voz com aquilo que ouve. Esse retorno auditivo ajuda o cérebro a ajustar pronúncia, ritmo, intensidade e articulação.
Quando existe uma perda auditiva profunda nos dois ouvidos desde o nascimento e a criança não recebe acesso aos sons nem uma intervenção adequada, o desenvolvimento da fala oral pode ficar muito comprometido. Foi dessa realidade histórica, anterior à triagem auditiva e às tecnologias atuais, que surgiu grande parte do uso da expressão surdo-mudo.
Isso não significa que a criança fique sem linguagem. A Libras oferece uma via visual completa para comunicação e desenvolvimento. Também não significa que toda criança com surdez profunda terá a mesma trajetória de fala: o resultado depende da causa da perda, do momento do diagnóstico, da estimulação, da tecnologia indicada e das escolhas da família e da própria pessoa surda.
Como o teste da orelhinha mudou o diagnóstico da surdez infantil?
No Brasil, o exame de emissões otoacústicas evocadas, conhecido como teste da orelhinha, deve ser oferecido aos recém-nascidos nos hospitais e maternidades. É um exame rápido, realizado com uma pequena sonda no canal auditivo, que avalia respostas produzidas pela cóclea.
Quando o bebê não passa na triagem, isso não confirma sozinho uma perda auditiva. O resultado indica a necessidade de repetir ou complementar a avaliação. Exames como as emissões otoacústicas e o BERA ou PEATE ajudam a investigar a audição nos primeiros meses de vida.
O diagnóstico precoce permite definir a reabilitação sem perder os anos mais sensíveis do desenvolvimento auditivo. Conforme o tipo e o grau da perda, as possibilidades podem incluir aparelhos auditivos, acompanhamento fonoaudiológico e implante coclear. A indicação é individual e depende de avaliação completa.
É possível nascer sem as pregas vocais?
A ausência completa das pregas vocais não é uma explicação habitual para uma pessoa surda não desenvolver fala oral. As pregas vocais fazem parte da laringe e, na grande maioria das pessoas surdas, estão presentes e funcionam para produzir choro, riso, grito e outros sons.
Bebês podem nascer com alterações congênitas da laringe, como laringomalácia, membranas que unem parcialmente as pregas vocais, cistos ou paralisia de uma ou das duas pregas. Essas condições podem causar choro rouco ou fraco, ruído para respirar e outras manifestações, mas são diferentes de surdez e também são diferentes de uma suposta ausência completa da laringe.
Se um bebê apresenta choro muito fraco, ausência de som, rouquidão persistente ou dificuldade para respirar, a causa precisa ser investigada pela avaliação da laringe. Não é possível concluir que faltem pregas vocais apenas pela característica do choro.
É possível nascer sem o tímpano?
É possível, embora seja raro, nascer com uma malformação importante do ouvido em que o canal auditivo não se desenvolve normalmente e termina em fundo cego. Em alguns desses casos, a membrana timpânica e partes da orelha média também não se formam. A orelha externa pode ser menor, condição conhecida como microtia, e a alteração do canal é chamada de atresia.
Essa situação é muito diferente de uma perda auditiva em que o canal e o tímpano têm anatomia normal. O exame físico, a avaliação auditiva e, quando necessária, a imagem do osso temporal mostram quais estruturas estão presentes e quais opções de reabilitação podem ser consideradas.
Para crianças maiores e adultos capazes de responder aos estímulos, a audiometria tonal e vocal mede o grau e o tipo da perda auditiva. Em bebês, a investigação utiliza exames objetivos adequados à idade.
Vídeo: surdez e mudez são a mesma coisa?
O vídeo abaixo explica a origem da expressão surdo-mudo, mostra por que uma pessoa surda pode emitir sons e detalha as dúvidas sobre o desenvolvimento da fala, as pregas vocais e a formação do tímpano.
Perguntas frequentes
Libras é uma língua ou uma linguagem?
Libras é uma língua. A Língua Brasileira de Sinais tem estrutura gramatical própria e utiliza uma modalidade visual e motora de comunicação. A expressão língua de sinais é mais precisa do que linguagem de sinais.
Toda pessoa surda usa Libras?
Não. Algumas pessoas surdas usam Libras como primeira língua, outras se comunicam principalmente pela fala oral, pela leitura labial ou pela escrita, e muitas combinam diferentes recursos. A forma de comunicação depende da história, do acesso linguístico e da preferência de cada pessoa.
Como conversar com uma pessoa surda de forma respeitosa?
Fale diretamente com a pessoa e pergunte qual forma de comunicação ela prefere. Mantenha o rosto visível, não grite e use Libras, escrita, leitura labial ou intérprete conforme a necessidade indicada por ela. Se houver acompanhante ou intérprete, continue dirigindo a conversa à pessoa surda.
Referências
- VILELA, Larissa. Surdez e mudez: qual a diferença? Esclarecendo o termo surdo-mudo. YouTube, 7 maio 2025. 1 vídeo (11 min 53 s). Disponível em: https://youtu.be/pLsuuWPAZts. Acesso em: 20 set. 2026.
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- BRASIL. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Semente da Inclusão: como se referir a uma pessoa surda? Brasília, DF, 15 mar. 2022. Disponível em: https://www.tjdft.jus.br/acessibilidade/publicacoes/sementes-da-inclusao/semente-da-inclusao-como-se-referir-a-uma-pessoa-surda. Acesso em: 20 set. 2026.
- BRASIL. Lei nº 12.303, de 2 de agosto de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de realização do exame denominado Emissões Otoacústicas Evocadas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 3 ago. 2010. Disponível em: https://planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12303.htm. Acesso em: 20 set. 2026.
- WALKER, Elizabeth A. et al. Language growth in children with mild to severe hearing loss who received early intervention by 3 months or 6 months of age. Journal of Early Hearing Detection and Intervention, v. 7, n. 1, p. 1–10, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38737914/. Acesso em: 20 set. 2026.
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- BRASIL. Ministério dos Transportes. Manual de atendimento para empresas: deficiência auditiva. Brasília, DF. Disponível em: https://www.gov.br/transportes/pt-br/servicos/servicos/manual-de-atendimento-para-empresas-passe-livre10451. Acesso em: 20 set. 2026.
Avaliação da audição em Brasília
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