Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O que fazer quando a criança fala errado
Toda criança fala errado enquanto aprende a falar. Troca uma letra, engole uma sílaba, inventa um jeito próprio de dizer uma palavra. Pais, avós, tias e professoras convivem com isso todos os dias, e a reação do adulto nesse momento faz diferença. Ela pode ajudar a criança a acertar ou pode fazer o erro durar mais.

Isso vale para o erro de vez em quando e também para o erro sistemático, aquele que aparece com muita frequência na fala da criança. Nos dois casos, a postura certa do adulto se resume a cinco atitudes:
- não repreender a criança;
- escutar com atenção e oferecer a forma correta da palavra;
- não reforçar as palavras erradas;
- não falar de forma infantilizada;
- evitar os diminutivos ao conversar com a criança.
Esta página traz também as idades em que cada som costuma aparecer, porque muita troca de letras é esperada até certa idade, e os sinais de que a fala precisa de avaliação.
1. Não repreender a criança
Esta é a atitude mais importante de todas. Repreender a criança é a pior postura que um adulto pode ter quando ela comete um erro na fala.
Algumas frases saem quase no automático e devem ser evitadas com qualquer criança que está aprendendo a falar. “Está errado”, “não fala assim”, “não é assim que se fala”, “pare de falar desse jeito”, “fale do jeito certo” e “preste atenção no que está falando” são exemplos.
A criança repreendida se retrai. Como os erros continuam, ela vai ficando com vergonha de falar e, aos poucos, passa a falar cada vez menos. A bronca, que parecia uma forma de corrigir, não ensina a palavra certa e ainda tira da criança a vontade de falar.
2. Escutar até o fim e mostrar a forma certa
Quando a criança troca uma letra, deixa de falar uma sílaba ou omite um som, o adulto oferece a ela a forma correta da palavra, sem apontar o erro, apenas usando a palavra certa na resposta.
Uma criança pequena quer dizer bola e fala “ola”, sem o B. O adulto escuta, espera a criança terminar e, no fim, responde com naturalidade: “Ah, você quer a bola? Aqui está a bola”. A criança recebe o que pediu e ouve a palavra inteira, dita do jeito certo, na mesma hora.
Não é preciso pedir que a criança repita a palavra. A Sociedade Brasileira de Pediatria dá orientação parecida para os pais: se a criança diz “nana”, responder “Você quer mais banana?”. Em crianças com dificuldade de linguagem, os estudos mostram benefício dessa técnica, chamada de reformulação, em que o adulto devolve a fala da criança já corrigida, dentro da conversa.
3. Não repetir o erro, por mais bonitinho que seja
Repreender é errado, e reforçar o erro também é. Muitas vezes a criança fala uma palavra de um jeito que parece bonitinho, engraçadinho. Os pais e os avós acham graça e passam a falar daquele jeito com ela, às vezes para ficar mais próximos.
O problema é que, quando o adulto repete o erro, a criança entende que aquilo está certo. Ela continua falando assim, e o erro se solidifica na linguagem dela. Por mais carinhosa que seja a intenção, repetir a palavra errada piora a situação.
4. Falar com a criança como adulto
Da mesma ideia sai uma dica importante para pais, cuidadores e avós. Evite falar de forma infantilizada com a criança. O ideal é falar como um adulto mesmo.
Isso não significa falar de forma dura. Dá para falar com carinho, com calma, devagar. O que não ajuda é imitar o jeito de falar da criança para se aproximar dela. A fala do adulto deve ser pausada e clara, com as palavras inteiras e corretas. É assim que a criança consegue entender e desenvolver a própria linguagem.
Os estudos com bebês mostram que a conversa carinhosa e mais lenta, feita com palavras de verdade, está ligada a mais palavras e a mais troca de conversa entre pais e filhos nos primeiros anos.
5. Evitar os diminutivos
Evite usar diminutivo o tempo todo, como brinquedinho, narizinho, sapatinho, aguinha. O diminutivo deixa as palavras maiores e dificulta o aprendizado.
Aprender todas as palavras de que uma criança precisa já é difícil. Com o diminutivo a todo momento, cada palavra fica mais longa e diferente da forma que ela vai usar a vida inteira. Falar nariz, brinquedo e água, com calma e de forma clara, ajuda muito a criança a falar bem.
Até que idade é normal a criança falar errado
A troca de letras faz parte do desenvolvimento. Os sons da língua não aparecem todos de uma vez. Primeiro vêm os mais fáceis de produzir, como P, B, M e N, e por último os mais difíceis, como o R e os encontros de consoantes, como pr, br, bl e fl.
Segundo o Conselho Federal de Fonoaudiologia, aos 3 anos já é possível entender tudo o que a criança fala, mesmo que ainda haja erros de gramática. Aos 5 anos ela fala frases completas e usa os sons da língua, e a prancha do conselho coloca os encontros com L aos 6 anos. A Sociedade Brasileira de Pediatria considera que, aos 3 anos, a fala deve ser compreendida também por pessoas de fora da família.
Idade em que cada som costuma aparecer
A lista abaixo resume os dados de estudos com crianças brasileiras e a prancha de desenvolvimento do Conselho Federal de Fonoaudiologia. As idades são aproximadas, e cada criança tem uma pequena variação.
- até 2 anos: P, B, T, D, M, N, NH e os sons de C e G, como em casa e gato;
- até 3 anos: F, V, S, Z, L, CH e J;
- entre 3 e 4 anos: o R forte, de rato e carro, e o S no fim da sílaba, de pasta;
- entre 4 e 5 anos: o r fraco, de barata, e o r no fim da sílaba, de porta;
- entre 5 e 6 anos: os encontros com R, como em prato, fruta e bravo;
- até 6 anos, às vezes um pouco mais: os encontros com L, como em bloco, placa e flor.
O LH, de palha, começa a aparecer por volta dos 4 anos, mas é um dos últimos sons a ficar firme. Num dos estudos brasileiros, ele só foi considerado adquirido por volta dos 7 anos. Nessas pesquisas, o critério de som adquirido é a criança acertar a maior parte das vezes, e não todas.
Criança que troca o R pelo L
Falar “balata” no lugar de barata, ou “plato” no lugar de prato, é uma das trocas mais comuns. É comum ler que trocar o R pelo L depois dos 3 anos já é motivo de preocupação. Os dados de crianças brasileiras mostram outra coisa. O r fraco, de barata, só costuma estar adquirido entre 4 e 5 anos, e o r dos encontros, de prato, entre 5 e 6 anos. Uma criança de 3 ou 4 anos que troca o r pelo l está, na maioria das vezes, dentro do esperado.
O R forte, de rato, aparece antes, entre 3 e 4 anos. A troca que continua depois das idades da lista, ou que vem junto com outros sinais, pede avaliação.
Troca de letras na fala: o nome técnico
O nome popular é troca de letras na fala. Os termos técnicos mais usados são dislalia, transtorno fonológico e desvio fonológico. Na CID-10, a classificação usada nos laudos, a dislalia aparece como transtorno específico da articulação da fala, quando a criança usa os sons da fala abaixo do esperado para a idade, com a linguagem normal.
O quadro é frequente. Num estudo com 866 crianças de 3 a 8 anos no Rio Grande do Sul, cerca de 15% tinham desvio fonológico, com mais casos entre 4 e 6 anos e em meninos. Nessas crianças predominam as trocas do R e do L, a troca do CH pelo S e a omissão de sons.
Troca de letras na fala é diferente de gagueira e de transtorno de linguagem. Na gagueira, a criança repete sons, prolonga ou trava as palavras. No transtorno do desenvolvimento da linguagem, a dificuldade está no vocabulário, na construção das frases e na compreensão.
Quando a criança que fala errado precisa de avaliação
A troca de letras dentro das idades esperadas não precisa de tratamento. Os cinco cuidados do começo desta página costumam bastar. Alguns sinais, porém, pedem avaliação da fala:
- aos 3 anos, pessoas de fora da família não entendem o que a criança fala;
- a troca continua depois das idades esperadas para aquele som;
- a criança fala muito errado, a ponto de quase tudo sair trocado;
- a fala não melhora com o passar dos meses;
- a criança fica frustrada, tem vergonha ou evita falar;
- a criança não responde bem quando é chamada ou parece não ouvir direito.
A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que a frase “cada criança tem seu tempo” deve ser usada com muito critério. Algumas crianças alcançam as outras sozinhas, mas pelo menos metade dos problemas de linguagem persiste, e a intervenção cedo dá resultados melhores.
Audição e língua presa
A criança aprende a falar ouvindo. Por isso, a avaliação de quem fala errado inclui a audição. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, mesmo uma deficiência auditiva temporária pode atrasar ainda mais a criança que já fala menos do que o esperado. O NIDCD, instituto de saúde dos Estados Unidos que cuida da audição e da comunicação, informa que a avaliação da fala costuma incluir o teste auditivo. A audiometria é um dos exames usados.
A consulta também olha a boca. A língua presa pode alterar a pronúncia de alguns sons, principalmente o R e o L, e é avaliada no exame do otorrino.
Como é o tratamento da troca de letras
O tratamento da troca de letras que passou da idade é a fonoterapia, feita pelo fonoaudiólogo. Uma revisão Cochrane mostrou que a fonoterapia melhora as dificuldades fonológicas, ou seja, as trocas de sons na fala. A maioria das crianças melhora, e quanto mais cedo começa o tratamento, melhor.
Em casa, as cinco atitudes continuam valendo durante o tratamento. Não repreender, oferecer a forma certa, não repetir o erro, falar como adulto e evitar os diminutivos ajudam a criança a levar para o dia a dia o que aprende nas sessões.
Na OtoCare, a consulta com otorrino avalia a audição e a boca da criança, e a clínica oferece fonoterapia na própria sede.
Vídeo: o que fazer quando a criança fala errado
O vídeo abaixo mostra as cinco lições para pais, avós e professores sobre como agir quando a criança fala errado.
Perguntas frequentes
Criança de 3 anos que fala errado é normal?
Sim, muitas trocas ainda são esperadas aos 3 anos, principalmente com o R, o L e os encontros de consoantes. O que se espera nessa idade é que a fala seja entendida pela maioria das pessoas, inclusive de fora da família.
Criança de 4 anos que troca letras precisa de fonoaudiólogo?
Depende de quais letras. Trocar o r fraco ou os encontros, como em barata e prato, ainda é comum aos 4 anos. Trocas de sons mais simples, como P, T, C, F, S e CH, ou uma fala difícil de entender, pedem avaliação.
Criança de 5 anos que fala errado: quando se preocupar?
Aos 5 anos a criança já usa quase todos os sons da língua. Ainda podem faltar os encontros de consoantes, principalmente com L, como em bloco e flor, e o LH, de palha. Trocas em outros sons, fala pouco clara ou vergonha de falar pedem avaliação.
Criança que troca o C pelo T é normal?
Os sons de C e G, de casa e gato, costumam estar presentes por volta dos 2 anos. Uma criança pequena pode dizer “tasa” no lugar de casa. Se a troca continua depois dos 3 anos, a fala deve ser avaliada.
Devo pedir para a criança repetir a palavra certa?
Não é necessário. O que ajuda é o adulto usar a palavra certa na resposta, com naturalidade, depois que a criança termina de falar. Pedir repetição a toda hora pode soar como bronca.
Falar no diminutivo atrapalha a fala da criança?
O uso constante do diminutivo deixa as palavras maiores e dificulta o aprendizado. O melhor é falar as palavras na forma normal, como nariz e brinquedo, com calma e carinho.
Falar com voz de bebê atrapalha a fala da criança?
Sim. Falar de forma infantilizada, como se o adulto fosse criança, dificulta o aprendizado das palavras. Carinho, calma e uma fala mais devagar continuam bem-vindos, mas o adulto deve falar como adulto, de forma pausada e clara.
Criança que fala errado vai escrever errado?
Nem sempre. Muitas crianças acertam os sons antes da alfabetização. Quando a dificuldade de fala continua na idade escolar, pode haver dificuldade também na leitura e na escrita, e por isso vale avaliar a fala antes dessa fase.
Problema de audição pode fazer a criança falar errado?
Pode. A criança aprende os sons ouvindo, e mesmo uma perda auditiva temporária pode atrasar a fala. Por isso a audição é avaliada em toda criança com dificuldade de fala.
Língua presa faz a criança falar errado?
A língua presa pode alterar a pronúncia de alguns sons, principalmente o R e o L. Ela não atrasa o início da fala. A avaliação mostra se a troca vem da língua presa ou de outra causa.
Qual é o CID da dislalia?
Na CID-10, a dislalia está no código F80.0, transtorno específico da articulação da fala.
Dislalia tem cura?
A troca de letras tem tratamento, e a maioria das crianças melhora. O tratamento é a fonoterapia, e os resultados são melhores quando ela começa cedo.
Quem avalia a criança que fala errado?
A avaliação envolve o otorrino, que examina a audição e a boca, e o fonoaudiólogo, que avalia os sons da fala e conduz a fonoterapia. Na OtoCare, as duas avaliações são feitas na mesma clínica.
Referências
- VILELA, Larissa. O que fazer quando a criança fala errado? 5 lições importantes! YouTube, 22 maio 2024. 1 vídeo (5 min 11 s). Disponível em: https://youtu.be/o_k43crwolk. Acesso em: 30 set. 2026.
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Avaliação da fala da criança em Brasília
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