Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Tosse crônica e pigarro que nada resolve
Tosse crônica que nada resolve e pigarro constante podem virar um transtorno na vida do paciente. Esses sintomas podem ser consequência de um quadro chamado hipersensibilidade laríngea, conhecido de forma popular como laringe irritada.
É um conceito relativamente novo na otorrinolaringologia. Ele ganhou força com os pacientes que não melhoram com nenhum tratamento: a pessoa já investigou tudo, a causa não aparece, e a tosse, o pigarro e a irritação na garganta continuam. Muitas vezes vêm também rouquidão e até dificuldade para respirar.

O que é a hipersensibilidade laríngea
A hipersensibilidade laríngea, antes chamada de síndrome da laringe irritável, é uma irritação da laringe, a região que fica mais ou menos no meio do pescoço. Nela, a laringe passa a funcionar de forma errada e começa a provocar tosse em momentos em que a tosse não seria necessária.
O quadro foi descrito pela primeira vez em 1999, por pesquisadores canadenses que acompanharam pacientes com espasmos na laringe, alterações da voz, tosse crônica e sensação de algo preso na garganta. Para a medicina, é um conceito recente. Depois dele, os estudos passaram a descrever a tosse crônica como um problema de sensibilidade exagerada dos nervos das vias aéreas.
Como a laringe funciona e por que ela provoca a tosse
A laringe é a porta de entrada para os pulmões. Quando a pessoa respira, as pregas vocais se abrem para o ar passar. Elas se fecham para a fala, na produção dos sons, e na hora de engolir, protegendo os pulmões dos alimentos.
A laringe também é um dos pontos mais importantes da tosse, um reflexo que protege a via aérea. Na tosse, a pessoa enche os pulmões de ar, as pregas vocais se fecham e geram uma pressão grande abaixo delas e, em seguida, se abrem de uma vez, expulsando secreções e partículas irritantes. É um mecanismo essencial de proteção, e é ele que fica desregulado na laringe irritada.
Como a laringe fica irritada
A laringe irritada em geral começa com uma inflamação na região. Ela pode vir de uma gripe, de um resfriado, de uma rinite, de uma sinusite com secreção escorrendo para a garganta ou do refluxo. O refluxo é uma causa muito comum de início, e a tosse que ele provoca está na orientação sobre tosse crônica por refluxo.
Às vezes essa inflamação é tão forte, ou dura tanto tempo, que acaba lesando os nervos que dão sensibilidade à laringe, como o nervo laríngeo superior. Esses nervos ficam hipersensíveis e reagem demais. Um estudo com pacientes que começaram a tossir de repente depois de uma virose ou de uma cirurgia encontrou sinais de lesão desses nervos em boa parte deles.
O mais característico é que a inflamação inicial passa. O refluxo foi tratado, a virose acabou, mas a laringe continua sensível. A maioria dos pacientes com inflamação na laringe melhora com o tratamento da causa, e são poucos os que desenvolvem esse padrão de hipersensibilidade.
Sintomas e gatilhos da laringe irritada
Na laringe irritada, qualquer coisa pequena, que numa pessoa comum não causaria nada, vira gatilho para uma crise de tosse intensa ou para um incômodo forte na garganta. Os gatilhos mais comuns são:
- tomar água ou outra bebida gelada;
- ficar no ar-condicionado;
- um pequeno refluxo, que em outra pessoa passaria despercebido;
- cheiros fortes, como perfume e produtos de limpeza;
- ar frio;
- falar.
Os sintomas típicos são tosse que dura mais de dois meses, pigarro com necessidade de limpar a garganta o tempo todo, sensação de algo preso na garganta, o chamado globus faríngeo, desconforto e irritação na garganta, rouquidão e, às vezes, falta de ar. O pigarro tem outras causas, explicadas na orientação sobre pigarro constante.
O quadro atrapalha a vida do paciente, as relações do dia a dia e o sono. Há pacientes que mal conseguem dormir por causa da tosse.
Como é feito o diagnóstico da hipersensibilidade laríngea
A base do diagnóstico é uma história clínica muito bem feita. O padrão clássico é o de uma inflamação forte ou longa, que foi tratada, seguida de sintomas que continuam. A tosse costuma durar mais de dois meses, o que já define a tosse crônica no adulto. Nas crianças, a tosse é considerada crônica depois de quatro semanas.
Em seguida vem o exame físico completo de otorrino e a nasofibrolaringoscopia, feita na própria consulta na OtoCare, com uma câmera fina que avalia o nariz, a faringe e a laringe. Muitas vezes o exame já mostra o movimento paradoxal das pregas vocais: em vez de se abrirem quando a pessoa puxa o ar, elas se fecham. Em um estudo, esse movimento apareceu em mais da metade dos pacientes com tosse crônica examinados com câmera.
A hipersensibilidade laríngea é um diagnóstico de exclusão. Antes de fechá-lo, é preciso ter certeza de que o paciente não tem refluxo em atividade, asma ou outra doença do pulmão. O roteiro completo dessa investigação está na orientação sobre tosse crônica.
Tratamento com remédios neuromoduladores
Quando a inflamação inicial já passou, o que precisa ser tratado é a sensibilidade exagerada dos nervos. O tratamento é feito com remédios neuromoduladores, que agem nesses nervos irritados e reduzem a sensibilidade da laringe. Os mais usados são a amitriptilina, a gabapentina e a pregabalina, e a pregabalina é muito usada pelos otorrinos nesses casos.
O resultado impressiona. Com um mês de tratamento, a hipersensibilidade vai embora, a laringe volta ao funcionamento normal, e a tosse crônica e o pigarro melhoram bastante. Um estudo com pacientes tratados com pregabalina mostrou queda importante dos sintomas depois de um mês.
Os estudos com grupos de comparação confirmam a melhora dos sintomas e da qualidade de vida com a gabapentina e com a pregabalina, embora nem sempre a contagem objetiva das tossidas diminua, e a resposta varie de paciente para paciente. Com a amitriptilina, um estudo em tosse depois de virose encontrou resposta muito melhor do que com xarope de codeína. A duração do tratamento e a resposta de cada paciente são avaliadas caso a caso, na consulta.
Esses remédios são usados na tosse fora das indicações da bula e só com prescrição médica. Tontura, sonolência, cansaço, náusea e visão borrada estão entre os efeitos colaterais comuns, e por isso a dose é ajustada e acompanhada. Nas crianças, a gabapentina e a pregabalina não são usadas para tosse.
As bulas também descrevem reações raras e graves que pedem a suspensão imediata do remédio. Na pregabalina, o angioedema, um inchaço no rosto, ao redor da boca e na garganta, e as reações graves de pele, com bolhas ou descamação na pele e nas mucosas, classificados como raros, em até 1 a cada 1.000 pacientes. Na gabapentina, a anafilaxia, com dificuldade para respirar e inchaço nos lábios, na garganta e na língua, e a reação com manchas na pele, febre e ínguas conhecida como DRESS, relatadas depois da comercialização, sem frequência definida. Na amitriptilina, a mesma reação DRESS, que a bula descreve como rara. Diante de qualquer desses sinais, suspenda o remédio imediatamente e agende pelo WhatsApp e informe o sintoma para ter atendimento prioritário na OtoCare.
Fonoterapia para a laringe irritada
A segunda parte do tratamento é a fonoterapia, feita na OtoCare. Em alguns pacientes, o otorrino percebe um padrão de muita força e tensão na laringe. Com exercícios, a fonoaudióloga ajuda a relaxar a laringe, a tirar esse padrão de esforço e a reduzir a vontade de tossir e de pigarrear.
A fonoterapia também ensina medidas de higiene da laringe, para evitar abusos que acabam machucando a região, como o pigarro repetido. Em um estudo com pacientes cuja tosse não respondia aos remédios, o resultado foi considerado bem-sucedido em 88% dos que fizeram fonoterapia, contra 14% no grupo de comparação, que também melhorou, mas menos. A revisão da Cochrane considerou os estudos poucos e de baixa qualidade, e o benefício pode ser avaliado caso a caso.
Remédio e fonoterapia combinados funcionam bem. Em um estudo, os pacientes que fizeram fonoterapia junto com a pregabalina melhoraram mais do que os que fizeram só fonoterapia, e não pioraram quando o remédio foi suspenso.
Vídeo: hipersensibilidade laríngea, a laringe irritada
O vídeo abaixo explica o que é a laringe irritada, como ela começa, os gatilhos, o diagnóstico e as duas frentes do tratamento.
Perguntas frequentes
Laringe irritada é a mesma coisa que laringite?
Não. A laringite é a inflamação da laringe, que em geral passa com o tratamento. Na laringe irritada, a inflamação já passou, mas os nervos continuam sensíveis e provocando tosse e pigarro.
Laringe irritada tem cura?
Na maior parte dos casos, o quadro melhora bastante com os neuromoduladores e a fonoterapia, e a laringe volta a funcionar normalmente. O tempo de tratamento é definido na consulta, conforme a resposta.
O que é bom para laringe irritada?
O tratamento é o da hipersensibilidade, com remédios neuromoduladores prescritos e fonoterapia. Xarope para tosse e antibiótico não tratam a causa. Evitar os gatilhos, como bebida gelada e ar-condicionado, ajuda enquanto o tratamento faz efeito.
Laringe irritada pode ser refluxo?
O refluxo é uma das causas mais comuns do início do quadro e também pode funcionar como gatilho. Por isso ele precisa ser investigado e tratado antes de se fechar o diagnóstico de hipersensibilidade.
Pregabalina e gabapentina servem para tosse?
Servem na tosse crônica causada pela hipersensibilidade dos nervos, depois que as outras causas foram excluídas. É um uso fora da bula, que exige prescrição e acompanhamento por causa dos efeitos colaterais.
Por que a tosse aparece com água gelada ou ar-condicionado?
Porque os nervos da laringe estão sensíveis demais. Estímulos pequenos, que não causariam nada em outra pessoa, são interpretados como irritação e disparam a tosse.
Qual médico trata a laringe irritada?
O otorrinolaringologista, que examina a laringe com a nasofibrolaringoscopia, exclui as outras causas de tosse e conduz o tratamento, junto com a fonoaudióloga.
Referências
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Avaliação da tosse crônica na OtoCare, em Brasília
Tosse que dura mais de dois meses, pigarro constante e irritação na garganta que não passam com os tratamentos comuns merecem uma avaliação completa. Agende uma consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, onde a nasofibrolaringoscopia e a fonoterapia são feitas na própria clínica.
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