Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Enjoo no carro, no ônibus ou no avião: quando é cinetose
Enjoo ao andar como passageiro no carro, no ônibus ou no avião é uma queixa muito comum. Às vezes basta ficar parado olhando uma imagem cheia de movimento, como num videogame, para o mal-estar começar. Junto com o enjoo podem vir suor frio, sono, aumento da saliva, dor de cabeça, tontura e, nos casos mais fortes, vômitos.
Esse quadro se chama cinetose, também conhecida como doença do movimento ou enjoo de movimento. Ela tem explicação, tem tratamento, e alguns cuidados simples ajudam a evitar os sintomas na hora de viajar.

O que é cinetose
A cinetose é um conjunto de sinais e sintomas causados pelo movimento passivo do corpo, ou seja, quando o corpo se move sem que a pessoa esteja comandando esse movimento. É o que acontece com quem anda como passageiro de carro, ônibus, barco, avião ou trem.
Os mesmos sintomas também podem aparecer com a pessoa parada, diante de imagens complexas de movimento. Videogames e óculos de realidade virtual são exemplos comuns. Esse enjoo provocado por imagens é chamado de cinetose visual, ou cinetose digital.
Sintomas da cinetose
Os sintomas mais frequentes são:
- palidez;
- suor frio;
- aumento da salivação;
- náuseas, o enjoo propriamente dito;
- sono e sensação de moleza;
- dor de cabeça;
- tontura;
- vômitos, quando o estímulo não para.
Uma marca da cinetose é que os sintomas pioram enquanto o estímulo continua. Se o carro segue andando, o mal-estar tende a crescer e pode terminar em vômito.
Quando o movimento para, a melhora nem sempre é imediata. O mais comum é a pessoa ficar bem em alguns minutos ou algumas horas, mas a volta completa ao normal pode levar até 24 horas.
Quando o enjoo de movimento vira doença
Qualquer pessoa pode passar mal com um movimento muito intenso. Montanha-russa e brinquedos de parque de diversões, com subidas, descidas e giros, provocam esses sintomas até em quem não tem cinetose. É uma reação normal do corpo.
Algumas pessoas, porém, são muito mais sensíveis, e qualquer estímulo, por menor que seja, desencadeia o enjoo. A cinetose passa a ser considerada uma doença quando os sintomas se repetem toda vez que aparece aquele tipo de movimento, com impacto na qualidade de vida.
Nesses casos, a pessoa costuma evitar as situações que provocam o enjoo. Deixa de andar como passageiro, recusa viagens e passeios e começa a limitar a própria vida porque os sintomas são muito desconfortáveis.
Quem tem mais cinetose
A cinetose é muito mais comum nas crianças, principalmente entre os 6 e os 12 anos. Ela tende a melhorar com o tempo. É comum o adulto contar que enjoava muito no carro quando criança e que hoje já não tem mais os sintomas. Tontura na criança fora das viagens tem outras causas, explicadas em tontura em crianças.
Ela também é mais frequente nas mulheres, que são afetadas cerca de duas vezes mais do que os homens. E quem tem enxaqueca tem risco cerca de três vezes maior de ter cinetose do que quem não tem. A sensibilidade ao movimento e a estímulos visuais complexos é uma característica muito típica de quem tem enxaqueca.
Por que a cinetose acontece: o conflito entre a visão e o labirinto
Existem algumas teorias para explicar a cinetose, e a mais aceita hoje é a do conflito sensorial. Para entendê-la, é preciso saber como funciona o equilíbrio.
O equilíbrio depende de três sistemas: a visão, o labirinto, que fica no ouvido interno, e a propriocepção, que são as informações que chegam dos músculos e das articulações. Juntando o que esses três sistemas informam, o cérebro sabe onde o corpo está no espaço e percebe os movimentos, tanto os em linha reta, de aceleração e freada, quanto os de rotação.
Na cinetose, a visão e o labirinto mandam informações diferentes. No banco de trás do carro, por exemplo, o labirinto percebe as acelerações, as freadas e as curvas. Os olhos, porém, estão voltados para o banco da frente e enxergam tudo parado. No avião acontece o mesmo. O labirinto sente o movimento, mas, para a visão, o corpo está imóvel. É esse conflito que causa a tontura e o enjoo.
No videogame e na realidade virtual o conflito é o inverso. Os olhos veem movimento o tempo todo, mas o labirinto não detecta deslocamento nenhum, porque o corpo está parado.
Causas: genética e enxaqueca
A cinetose tem uma base genética forte. Entre gêmeos, se um tem cinetose, a chance de o outro também ter é muito grande, e é comum várias pessoas da mesma família terem o problema. Um estudo com gêmeas adultas no Reino Unido estimou que cerca de 57% das diferenças entre as pessoas na tendência ao enjoo de movimento se explicam pela genética, e esse peso parece ainda maior na infância.
A outra causa importante é a enxaqueca. A cinetose pode ser uma das formas de manifestação da enxaqueca. Muita gente acha que enxaqueca é só dor de cabeça, mas ela é um quadro amplo, com várias manifestações. Ela pode começar como cinetose na infância e, com o passar dos anos, passar a causar também crises de dor de cabeça. Também pode causar tontura sem nenhum movimento envolvido, como acontece na enxaqueca vestibular.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da cinetose é clínico. A história do paciente e o exame físico feitos pelo otorrino costumam ser suficientes.
Algumas vezes são pedidos exames complementares para afastar outras condições com sintomas parecidos, como a queda de pressão ao levantar (hipotensão postural), a hipoglicemia e outras alterações metabólicas e hormonais.
Cinetose e labirintite: qual a diferença
Muitos pacientes perguntam se cinetose é a mesma coisa que labirintite, ou se quem tem problema no labirinto vai ter cinetose. A resposta é não.
A labirintite é uma inflamação do labirinto. O sufixo “ite” indica justamente inflamação. Ela causa uma tontura forte, em geral do tipo vertigem, em que tudo roda, com náuseas e vômitos. Essa tontura aparece com a pessoa parada ou em movimento, não depende de um movimento específico e pode durar dias, muitas vezes de forma contínua. É um quadro que pode ser sério.
A cinetose, por outro lado, é desencadeada por um tipo de movimento bem específico, em geral o movimento passivo do corpo, e melhora quando o estímulo acaba.
Um detalhe curioso é que pacientes com lesão no labirinto e perda da função dele praticamente não têm cinetose. Uma pessoa com o labirinto sem função dificilmente vai enjoar num barco ou num navio. Isso reforça que a cinetose depende do conflito entre um labirinto que funciona e a visão. Algumas referências incluem as doenças do labirinto entre os fatores que podem aumentar a sensibilidade ao movimento. Essa possibilidade é avaliada caso a caso, na consulta.
Tratamento da cinetose
A cinetose tem tratamento, e existem três caminhos: remédios, reabilitação vestibular e um fitoterápico à base de gengibre.
Remédios para enjoo de movimento
Os remédios mais usados são os anti-histamínicos, como o dimenidrinato, a meclizina, também chamada de meclozina, princípio ativo do Meclin®, e a cinarizina. Eles funcionam melhor quando tomados antes da viagem, em geral de meia hora a uma hora antes da exposição ao movimento.
Esses remédios têm efeitos colaterais, e o mais comum é o sono. Também têm algumas restrições de uso. Por isso não são usados de forma contínua. Uma revisão da Cochrane de 2022 concluiu que os anti-histamínicos provavelmente reduzem o risco de enjoo em viagens nas pessoas suscetíveis, e que podem dar mais sono do que o placebo.
Reabilitação vestibular
Para quem tem cinetose com frequência no dia a dia, a reabilitação vestibular costuma ser indicada. São exercícios de habituação que diminuem a sensibilidade ao movimento. Eles ensinam o cérebro a lidar melhor com os conflitos sensoriais e aumentam a tolerância ao movimento e aos estímulos visuais.
Os pacientes respondem muito bem à reabilitação vestibular voltada para a cinetose. A OtoCare, no Noroeste de Brasília, faz a reabilitação vestibular labiríntica.
Gengibre
Estudos mais recentes trouxeram uma terceira linha de tratamento, à base de gengibre. No Brasil existe o Gengimin®, um medicamento fitoterápico feito de extrato de gengibre, com indicação em bula para prevenir o enjoo causado por movimento. É uma opção muito interessante e diferente dos anti-histamínicos para quem já sabe quais situações provocam o enjoo, como andar de carro como passageiro. O comprimido é tomado antes da exposição.
Segundo a bula, para prevenir a cinetose, a dose do dia inteiro é tomada de uma vez, 30 minutos antes da viagem: 1 comprimido para crianças a partir de 6 anos e de 2 a 3 comprimidos para adultos. Ele não deve ser usado por menores de 6 anos nem por quem tem cálculo na vesícula, irritação no estômago ou pressão alta. Grávidas, pessoas com diabetes e quem usa anticoagulante devem conversar com o otorrino antes de usar.
Algumas referências consideram que ainda há poucos estudos de boa qualidade com gengibre. Por isso, a escolha entre as opções é feita caso a caso, na consulta.
Como evitar o enjoo em viagens
Alguns cuidados reduzem muito os sintomas. A maior parte deles diminui o conflito entre o que os olhos veem e o que o labirinto sente.
- Dirija sempre que possível, desde que não tenha tomado anti-histamínico, que dá sono. Quem está ao volante costuma ter bem menos sintomas do que o passageiro.
- Se não puder dirigir, sente no banco da frente e olhe para a frente, para o horizonte ou para fora do carro.
- Não leia nem use o celular no carro, no ônibus ou no trem. Olhar para algo muito próximo reforça para o cérebro a ideia de que o corpo está parado, enquanto o labirinto sente o movimento.
- No trem e no metrô, sente de frente para o sentido do movimento. O banco de costas costuma piorar os sintomas.
- No avião, prefira as poltronas do meio, sobre as asas, onde o balanço é menor.
- No barco e no navio, olhe o máximo possível para fora, para o horizonte.
- Abra a janela para respirar ar fresco e, em viagens longas, faça pausas para sair do carro e caminhar um pouco.
- Evite refeição pesada, comida muito condimentada e bebida alcoólica pouco antes e durante a viagem.
O que fazer quando o enjoo começa
Assim que os sintomas começarem, o ideal é interromper o estímulo. No carro, isso significa parar e sair um pouco, porque, se o movimento continua, o enjoo tende a piorar e pode chegar ao vômito.
Quando os sintomas estão muito fortes, deitar ajuda bastante. Respirar fundo e devagar também traz alívio.
Vídeo: cinetose, sintomas, causas e tratamento
O vídeo abaixo apresenta os sintomas da cinetose, a diferença entre o enjoo normal e a doença, o conflito entre a visão e o labirinto, a relação com a genética e a enxaqueca, a diferença para a labirintite, as três opções de tratamento e as dicas para viajar melhor.
Perguntas frequentes
Cinetose tem cura?
Em muitas pessoas ela melhora sozinha com o tempo, principalmente em quem teve os sintomas na infância. Quando continua, o tratamento controla bem o quadro, e a reabilitação vestibular aumenta a tolerância ao movimento.
Quanto tempo dura a cinetose?
Os sintomas duram enquanto o movimento continua. Depois que ele para, a pessoa costuma melhorar em alguns minutos ou horas, e a recuperação completa pode levar até 24 horas.
Cinetose pode virar labirintite?
Não. São problemas diferentes. A labirintite é uma inflamação do labirinto, com tontura forte que pode durar dias, muitas vezes de forma contínua, mesmo com a pessoa parada. A cinetose aparece com o movimento, ou com imagens de movimento, e melhora depois que o estímulo acaba.
Cinetose é genética?
Tem uma base genética forte. É comum várias pessoas da mesma família terem cinetose, e em gêmeos a chance de os dois terem o problema é muito grande.
O que é cinetose digital?
É o enjoo provocado por telas, com a pessoa parada. Videogames e realidade virtual fazem os olhos verem um deslocamento que o labirinto não sente, e esse conflito gera os mesmos sintomas da viagem.
Criança que enjoa no carro tem cinetose?
Muitas vezes, sim. A cinetose é mais comum entre os 6 e os 12 anos e costuma melhorar com o crescimento. Remédio para criança só deve ser dado com orientação do otorrino, e o fitoterápico de gengibre não deve ser usado antes dos 6 anos.
Qual remédio é bom para enjoo em viagem?
Os mais usados são os anti-histamínicos, como o dimenidrinato, a meclizina e a cinarizina, tomados de meia hora a uma hora antes da viagem. O gengibre em comprimido é outra opção. A escolha depende de cada caso e das contraindicações de cada remédio.
Existe remédio para enjoo em viagem que não dá sono?
Os anti-histamínicos que funcionam para cinetose costumam dar sono, e os que não dão sono não parecem ter o mesmo efeito. O fitoterápico de gengibre é uma alternativa, e a reabilitação vestibular ajuda sem remédio.
Ondansetrona (Vonau®) serve para enjoo de movimento?
Para prevenir a cinetose, os poucos estudos com ondansetrona não mostraram benefício importante. Os remédios mais estudados para esse fim são os anti-histamínicos.
Quem tem cinetose pode dirigir?
Pode, e dirigir costuma até evitar o enjoo, porque o motorista acompanha a estrada com os olhos e vê o movimento que o labirinto está sentindo. O cuidado é não dirigir depois de tomar um anti-histamínico, porque esses remédios dão sono.
Enxaqueca tem relação com cinetose?
Tem. Quem tem enxaqueca tem cerca de três vezes mais chance de ter cinetose, e a enxaqueca pode se manifestar primeiro como cinetose, principalmente na infância, antes das crises de dor de cabeça.
Por que ler no carro dá enjoo?
Porque os olhos, fixos no livro ou no celular, informam ao cérebro que o corpo está parado, enquanto o labirinto sente as curvas e freadas. É esse conflito que provoca o enjoo.
Cinetose dá dor de cabeça?
Pode dar. A dor de cabeça é um dos sintomas, junto com enjoo, suor frio, palidez, sono e tontura.
Referências
- VILELA, Larissa. Cinetose (doença do movimento): o que é, sintomas, causas, prevenção, tratamento e mais! YouTube, 21 ago. 2024. 1 vídeo (15 min 18 s). Disponível em: https://youtu.be/9d6FfsdKUDY. Acesso em: 25 set. 2026.
- NATIONAL HEALTH SERVICE (NHS). Motion sickness. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/motion-sickness/. Acesso em: 25 set. 2026.
- MANUAL MSD. Cinetose. Versão para profissionais de saúde. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/les%C3%B5es-intoxica%C3%A7%C3%A3o/cinetose/cinetose. Acesso em: 25 set. 2026.
- KARRIM, N. et al. Antihistamines for motion sickness. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 10, CD012715, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36250781/. Acesso em: 25 set. 2026.
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- FARMOQUÍMICA. Gengimin® (Zingiber officinale): bula do paciente. Disponível em: https://www.fqmgrupo.com.br/fqmfarma/userfiles/products/1728923349670d46d531518.pdf. Acesso em: 25 set. 2026.
Tratamento da cinetose em Brasília
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