Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Os dois cuidados com a água na lavagem nasal
Muita gente aproveita o banho para pegar um pouco de água do chuveiro e lavar o nariz. Outras pessoas enchem a garrafinha de lavagem direto na torneira, sem sal nenhum. As duas práticas parecem inofensivas, mas não são recomendadas.
A lavagem nasal está muito difundida, e os benefícios são bem conhecidos, principalmente para quem tem rinite, sinusite ou fica gripado com frequência. Para que ela faça bem, dois cuidados com a água são indispensáveis. O primeiro é nunca usar água pura, sem sal. O segundo é usar sempre água filtrada ou fervida, nunca a água que sai direto da torneira ou do chuveiro.

Por que não usar água pura na lavagem nasal
A solução usada para lavar o nariz precisa ter a mesma concentração do soro fisiológico. O soro fisiológico comum, vendido em farmácia, é feito de água pura e de um pouco de cloreto de sódio, que é o sal. Essa quantidade de sal deixa o soro isotônico, ou seja, com a mesma concentração da mucosa nasal e das secreções do nariz.
A água sem sal tem uma concentração menor do que a do nariz. Por isso ela é chamada de hipotônica. Isso vale para qualquer água pura: filtrada, fervida, mineral ou da torneira.
Quando a água pura entra no nariz, ela tende a passar para dentro da mucosa nasal, que é mais concentrada. O resultado é dor intensa, muita ardência e incômodo. A lavagem pode até piorar a sensação de nariz entupido e inflamar um pouco a mucosa. Por essa questão de concentração, a lavagem nasal só com água não é recomendada.
Solução isotônica, hipertônica e hipotônica: qual usar
A solução da lavagem precisa ser, no mínimo, isotônica: água com um pouco de sal, na mesma concentração do nariz. É a solução de rotina, a do soro fisiológico e dos sachês que vêm nos kits de lavagem. As medidas para preparar em casa estão na orientação sobre a solução caseira para lavagem nasal.
Quando o nariz está muito congestionado, o otorrino pode indicar uma solução hipertônica, com mais sal do que os tecidos do nariz. Ela age no sentido contrário ao da água pura. Em vez de entrar na mucosa, a solução puxa água de dentro dela, e com isso o inchaço diminui e o nariz desentope. O preparo, o tempo de uso e os limites dessa solução estão na orientação sobre a solução hipertônica caseira.
As soluções isotônica e hipertônica podem ser usadas, cada uma na sua indicação. A hipotônica, que é a água pura, nunca deve ser usada na lavagem nasal.
Qual água usar na lavagem nasal
A água da lavagem deve ser sempre filtrada ou fervida. Essa regra vale para qualquer forma de preparo. A solução caseira pode ser feita com os sachês dos kits de lavagem ou com sal de cozinha, sem problema, desde que a água seja filtrada ou fervida.
A água filtrada está liberada. Quem não tem filtro em casa deve ferver a água por no mínimo 5 minutos, para garantir que ela esteja em boas condições para a lavagem. A FDA, agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, também orienta ferver a água e deixar esfriar até ficar morna antes de usar. Outra opção é encher o frasco apenas com soro fisiológico, sem sachê, como explicado na orientação sobre a melhor forma de lavagem nasal.
O CDC, centro de controle de doenças dos Estados Unidos, detalha quais filtros retêm a ameba. Na embalagem, eles trazem a indicação NSF 53, NSF 58 ou poro absoluto de 1 mícron ou menor. Na dúvida sobre o filtro de casa, ferver a água é a alternativa mais simples.
A água fervida pode ser guardada em recipiente limpo e fechado, e a FDA recomenda usá-la em até 24 horas. Antes da lavagem, a água fervida precisa ser amornada. Como acertar a temperatura está na orientação sobre a temperatura da água para a lavagem nasal.
Por que não usar água da torneira ou do chuveiro
A água que não é filtrada nem fervida pode conter microrganismos e levar infecções para o nariz. A água da torneira pode ser boa para beber e, mesmo assim, não servir para lavar o nariz. Segundo a FDA, alguns germes presentes nela são destruídos pelo ácido do estômago quando a água é engolida, mas, dentro do nariz, eles continuam vivos e podem causar infecções graves.
Existem descrições de complicações muito sérias de lavagens nasais feitas com água da torneira ou do chuveiro. Uma delas é a meningoencefalite amebiana primária, causada por um protozoário, a ameba Naegleria fowleri. Ela vive sobretudo em lagos, rios e águas mornas e paradas, já foi descrita em águas termais e pode estar na água da torneira e do chuveiro.
Em 2011, nos Estados Unidos, duas pessoas morreram dessa meningoencefalite depois de fazer lavagens nasais com água da torneira de casa. A ameba foi encontrada na água das duas residências, que eram abastecidas pela rede pública tratada. Outra ameba, a Acanthamoeba, já causou infecções graves em pessoas com a imunidade baixa que faziam lavagem nasal, várias delas com água da torneira.
Pode lavar o nariz no banho?
Não. Lavar o nariz com a água do chuveiro junta os dois erros de uma vez. A água é pura, sem sal, e por isso arde e irrita a mucosa. E não é filtrada nem fervida, então pode levar microrganismos para dentro do nariz.
O mesmo vale para puxar a água da torneira com a mão ou encher a garrafinha direto na pia. Para fazer a lavagem durante o banho, a solução precisa ser preparada antes, com água filtrada ou fervida e a quantidade certa de sal, ou com soro fisiológico. O passo a passo com o frasco está na orientação sobre a lavagem nasal com garrafinha.
Como a ameba chega ao cérebro pelo nariz
No nariz existe uma região muito específica que tem contato direto com o cérebro. Ela fica bem na parte de cima da cavidade nasal e se chama área olfatória. Ali, o osso que separa o nariz do cérebro, a lâmina cribriforme, tem pequenos canais por onde passam os filetes do nervo olfatório, o nervo do olfato.
Esses canais fazem uma comunicação direta entre o nariz e o sistema nervoso central. Bactérias, outros microrganismos ou a ameba podem usar esse caminho. Se a água contaminada atinge essa região, a ameba pode subir pelo nervo olfatório e entrar no cérebro, onde causa a meningoencefalite, uma inflamação das meninges e do próprio cérebro.
Os casos são muito raros, mas a doença é gravíssima e tem letalidade muito alta. Nos Estados Unidos, o CDC registrou 167 casos entre 1962 e 2024, e só quatro pessoas sobreviveram. A maioria das infecções acontece em nadadores e mergulhadores de lagos e rios, quando a água com a ameba entra no nariz. Beber água contaminada não transmite a doença, porque a ameba só causa a infecção quando chega ao nariz.
Segundo o CDC, os primeiros sintomas costumam aparecer cerca de 5 dias depois do contato com a água contaminada, mas podem surgir entre 1 e 12 dias. Depois de uma lavagem com água da torneira ou do chuveiro, sem filtrar nem ferver, ou de um mergulho em água doce morna, dor de cabeça, febre, náusea ou vômitos precisam de avaliação médica sem demora, sem esperar por rigidez na nuca, confusão mental ou convulsões, que aparecem quando a doença avança.
Cuidados com a garrafinha e o frasco
A água segura perde o efeito se o frasco fica molhado ou com sobra de solução de um dia para o outro. Água parada dentro do frasco favorece fungos e bactérias. Por isso, o dispositivo deve ser lavado e secado depois de cada uso, e cada pessoa deve ter o seu.
Como lavar, secar e quando trocar o frasco está na orientação sobre como limpar a garrafinha de lavagem nasal. Se a lavagem continua ardendo mesmo com a solução certa e a água segura, a técnica e o dispositivo são revistos na consulta na OtoCare.
Vídeo: posso usar água pura na lavagem nasal?
No vídeo, um modelo anatômico mostra a região do nariz que tem contato direto com o cérebro. O vídeo também explica por que a água pura arde e por que só a água filtrada ou fervida deve ser usada na lavagem nasal.
Perguntas frequentes
Lavagem nasal é com água ou com soro?
Pode ser com os dois, desde que a solução final tenha sal na medida certa. O soro fisiológico já vem pronto. A água filtrada ou fervida precisa receber o sachê do kit ou o sal da receita caseira antes de entrar no nariz.
Pode fazer lavagem nasal com água mineral?
Pode, como base da solução, com o sachê do kit ou com o sal da receita caseira. A água mineral sozinha, sem sal, também é hipotônica e arde como qualquer outra água. O preparo com a lota e água mineral aparece na orientação sobre a lavagem nasal com lota.
Lavagem nasal com água e sal faz mal?
Não, quando a quantidade de sal está certa. O problema é errar a medida. Sal de menos deixa a solução hipotônica e faz arder, e sal demais resseca e pode ferir a mucosa com o uso repetido. As medidas exatas estão na orientação sobre a solução caseira para lavagem nasal.
Lavar o nariz com água e sal é bom para sinusite?
Sim. A lavagem com solução salina faz parte do tratamento da sinusite e ajuda a remover a secreção espessa. Nesse caso, o que mais ajuda é muita solução aplicada com pouca pressão, e por isso o dispositivo faz diferença, como explicado na orientação sobre a melhor lavagem nasal para sinusite.
Pode usar água com bicarbonato na lavagem nasal?
Pode, junto com o sal. Na receita caseira, os dois entram na mesma medida, e o bicarbonato não substitui o sal. A proporção para cada volume está na orientação sobre a solução caseira.
A água da lavagem nasal deve ser quente ou fria?
Morna. A água quente pode queimar a mucosa, e a gelada é desconfortável. O teste mais simples é pingar um pouco na parte interna do antebraço, onde a solução deve parecer morna ou neutra.
Fiz lavagem nasal só com água, e agora?
Nas próximas lavagens, use a solução com sal ou o soro fisiológico. Se a água era da torneira ou do chuveiro, a infecção grave é muito rara, mas dor de cabeça, febre, náusea ou vômitos nas duas semanas seguintes precisam de avaliação médica sem demora.
Pode fazer lavagem nasal com água em bebê ou criança?
Não com água pura. Em bebês e crianças, a lavagem é feita com soro fisiológico, aplicado com pouca pressão. O volume e o dispositivo mudam com a idade, como explicado na orientação sobre lavagem nasal em crianças.
Pode colocar água oxigenada na lavagem nasal?
Não. A água oxigenada agride a mucosa do nariz e não tem benefício comprovado na lavagem nasal. Os motivos estão na orientação sobre água oxigenada no nariz.
Entrou água no ouvido na lavagem nasal, o que fazer?
Na maioria das vezes, não é preciso fazer nada. A sensação de ouvido tampado costuma passar sozinha em alguns minutos, sem pingar gotas nem assoar com força. Se o ouvido dói durante a lavagem, ela deve ser interrompida e, se o desconforto se repete, a garrafinha pode ser trocada por um método de menor volume, como explicado na orientação sobre dor de ouvido na lavagem nasal.
Referências
- VILELA, Larissa. Posso usar água pura (hipotônica) na lavagem nasal? Lavar o nariz no banho? Com água da torneira? YouTube, 22 mar. 2026. 1 vídeo (9 min 41 s). Disponível em: https://youtu.be/5YGdD4b5zfs. Acesso em: 3 out. 2026.
- VILELA, Larissa. Lavagem nasal de alto volume com a lota: como fazer? YouTube, 5 set. 2023. 1 vídeo (8 min 4 s). Disponível em: https://youtu.be/_yqXst-BgXM. Acesso em: 3 out. 2026.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Is rinsing your sinuses with neti pots safe? Silver Spring: FDA, 28 abr. 2025. Disponível em: https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/rinsing-your-sinuses-neti-pots-safe. Acesso em: 3 out. 2026.
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- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). About Naegleria fowleri infection. Atlanta: CDC, 21 jul. 2025. Disponível em: https://www.cdc.gov/naegleria/about/index.html. Acesso em: 3 out. 2026.
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- HASTON, J. C. et al. Acanthamoeba infection and nasal rinsing, United States, 1994-2022. Emerging Infectious Diseases, v. 30, n. 4, p. 783-785, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38526242/. Acesso em: 3 out. 2026.
Lavagem nasal orientada por otorrino na OtoCare, em Brasília
Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, o nariz é examinado e a lavagem é indicada com o tipo de solução, a água e o dispositivo adequados ao seu caso. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.