O que acontece se tirar as amígdalas? Imunidade, dor de garganta e o que muda depois

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

A dúvida de quem tem indicação para tirar as amígdalas

Quando a retirada das amígdalas é indicada, as perguntas costumam ser as mesmas. A imunidade vai cair? Vai ter mais faringite e mais infecção respiratória? E é verdade que, sem as amígdalas, a garganta nunca mais vai doer? Essa é uma das dúvidas mais comuns no consultório do otorrino.

A resposta curta é que a imunidade não cai e as infecções da garganta não aumentam. A dor de garganta, por outro lado, pode continuar aparecendo de vez em quando, porque a garganta não é só a amígdala. E duas coisas acabam de vez com a cirurgia: a amigdalite e o caseum.

Dra. Larissa Vilela ao lado de uma paciente com a mão na garganta, com dor de garganta

Para que servem as amígdalas

As amígdalas são duas estruturas, uma de cada lado, que ficam no fundo da garganta. Elas têm uma função de proteção. São formadas por tecido de defesa, parecido com o dos gânglios do pescoço, e entram em contato com os vírus e as bactérias que chegam pela boca e pelo nariz. Esse papel é maior na infância.

Quando as amígdalas ficam desreguladas, porém, elas mais atrapalham do que ajudam. É o que acontece quando inflamam o tempo todo, com amigdalites de repetição, ou quando crescem demais e fecham a passagem do ar. Nesses casos surge a indicação de retirá-las.

Tirar as amígdalas diminui a imunidade?

Não. As amígdalas têm um papel de proteção, mas o sistema imunológico é muito mais complexo. Ele tem mecanismos de defesa bem elaborados, que conseguem manter as infecções respiratórias sob controle mesmo sem as amígdalas.

A amígdala é um órgão menor do sistema de defesa. Ela faz parte de um anel de tecido de defesa que contorna a entrada da garganta, chamado anel de Waldeyer, junto com a adenoide, a amígdala lingual, na base da língua, e pequenas porções de tecido perto da saída das tubas auditivas. Além desse anel, o corpo conta com os gânglios, os glóbulos brancos e o baço, entre outras defesas, que seguem trabalhando depois da cirurgia.

Os estudos confirmam o que se vê na prática. Uma revisão de 35 estudos publicada em 2015, com quase 2 mil pacientes, concluiu que a retirada das amígdalas não tem efeito negativo importante sobre a imunidade. Só quatro desses estudos encontraram algum prejuízo. A Sociedade de Pediatria de São Paulo chega à mesma conclusão: não há evidência de que a cirurgia piore a imunidade de forma duradoura.

Quem tirou as amígdalas tem mais faringite e infecção respiratória?

Não. Na prática, quem precisou tirar as amígdalas não passa a ter faringite de repetição. A faringite pode acontecer, mas na mesma frequência em que aconteceria numa pessoa com amígdalas. A ideia de que a cirurgia aumenta as faringites é um mito, e isso não se observa nos pacientes operados. As faringites e as infecções respiratórias não ficam mais frequentes depois da retirada das amígdalas.

Um estudo dinamarquês publicado em 2018, que acompanhou mais de um milhão de pessoas por registros de saúde, encontrou mais diagnósticos de doenças das vias respiratórias superiores ao longo dos anos em quem foi operado na infância. Os próprios autores lembram que o estudo é observacional e que não foi possível descartar todas as outras explicações. É um dado que entra na balança da indicação e pode ser avaliado caso a caso, na consulta.

Por que a garganta ainda pode doer depois de tirar as amígdalas

Quem tirou as amígdalas e ficou com dor de garganta costuma estranhar. A cirurgia tira um dos focos de inflamação da garganta, mas a faringe, que é todo o restante da garganta, continua lá. E esse tecido também pode inflamar.

Numa virose, como uma gripe ou um resfriado, a garganta pode doer um pouco, mesmo sem as amígdalas. Também pode acontecer um quadro por bactéria, a faringite bacteriana. Para separar uma coisa da outra, os sinais estão na orientação sobre garganta inflamada por vírus ou bactéria, e na consulta a OtoCare faz o teste rápido de estreptococo quando há suspeita de infecção bacteriana.

Ainda assim, a retirada das amígdalas reduz muito as inflamações da garganta, porque acaba com as amigdalites. Num estudo britânico com adultos que tinham amigdalites de repetição, quem foi operado teve bem menos dias de dor de garganta ao longo de dois anos do que quem seguiu sem cirurgia, cerca de metade na análise do estudo. Menos dor de garganta não quer dizer dor nenhuma, e é isso que o paciente precisa saber antes de operar.

Pigarro e incômodo na garganta sem as amígdalas

O pigarro e a sensação de incômodo na garganta também podem continuar depois da cirurgia. Eles podem vir de outros pontos: da faringe, de uma laringite ou de outras estruturas da garganta, que ficam onde estão depois que as amígdalas saem.

Entre as causas comuns estão a secreção do nariz que escorre para a garganta, nas rinites e sinusites, e o refluxo que sobe até a garganta, o refluxo laringofaríngeo. A investigação passo a passo está na orientação sobre pigarro constante.

O que acaba de vez: amigdalite e caseum

Duas coisas se resolvem totalmente com a cirurgia. A primeira é a amigdalite. Sem as amígdalas, não há mais amigdalite. A garganta pode ter faringite, como qualquer outra garganta, mas não a infecção das amígdalas.

A segunda é o caseum, as massinhas brancas e fedidas que se formam com restos de alimento presos nos buraquinhos das amígdalas, as criptas. O caseum se forma exclusivamente na amígdala. Depois da retirada, ele se resolve completamente. Os cuidados de quem ainda tem as amígdalas e convive com o problema estão na orientação sobre caseum na garganta.

Quando a retirada das amígdalas é indicada

Antigamente, as amígdalas eram tiradas com muita frequência, principalmente nas crianças. Com o tempo, os estudos mostraram que muitas dessas cirurgias eram desnecessárias, e hoje as indicações são bem claras. As amígdalas não são retiradas sem uma indicação bem estudada.

As três grandes indicações são a obstrução, quando amígdalas muito grandes atrapalham a respiração e causam ronco e apneia, as infecções, que incluem as amigdalites bacterianas de repetição e o histórico de abscesso ao redor da amígdala, e o caseum recorrente que atrapalha a vida do paciente. Os critérios de cada uma, a cirurgia e a recuperação estão na página da amigdalectomia em Brasília.

Vídeo: o que acontece se tirar as amígdalas

Perguntas frequentes

Quem tirou as amígdalas pode ter amigdalite de novo?

Não. Sem as amígdalas, não existe mais amigdalite. A garganta continua podendo inflamar, e essa inflamação é a faringite. Quando a retirada foi parcial, técnica chamada de amigdalotomia e usada em algumas crianças, sobra um pouco de tecido da amígdala, que pode voltar a crescer e voltar a dar problema. Num estudo finlandês que revisou as cirurgias de mais de 3 mil crianças, 1,9% das que fizeram a retirada parcial precisaram operar de novo por esse motivo.

Criança que tirou as amígdalas fica com a imunidade baixa?

Não de forma duradoura. Segundo a Sociedade de Pediatria de São Paulo, logo depois da cirurgia a produção de alguns anticorpos pode cair por um período curto, até que outras estruturas do sistema de defesa assumam essa função. Num estudo com crianças menores de 3 anos operadas da adenoide, com ou sem as amígdalas, um desses anticorpos baixou no primeiro mês, ainda dentro do normal, e em três meses os exames não mostravam diferença em relação a antes da cirurgia, sem infecções de repetição no período.

Tirar as amígdalas acaba com o mau hálito?

Acaba com o mau hálito causado pelo caseum, aquelas massinhas fedidas que se formam nos buraquinhos das amígdalas e deixam gosto ruim na boca. Sem as amígdalas, o caseum não se forma mais. Quando o mau hálito tem outra origem, ele não depende das amígdalas e continua depois da cirurgia.

Tirar as amígdalas muda a voz?

Pode mudar um pouco nas primeiras semanas. Num estudo com adultos operados por amigdalites, a análise da voz mostrou alterações no primeiro mês, e com três meses os valores estavam semelhantes aos de antes da cirurgia. A longo prazo, a voz não ficou diferente.

Tirar as amígdalas engorda?

Não por si só. Algumas crianças ganham peso depois da cirurgia, principalmente as menores de 6 anos e as que estavam abaixo do peso antes de operar. Nessas, o ganho costuma ser uma recuperação do crescimento. Uma revisão de 26 estudos publicada em 2024 concluiu que, nas crianças com peso normal ou acima dele, a cirurgia por si só não leva ao excesso de peso.

Tirar as amígdalas diminui o ronco?

Diminui quando o ronco vem de amígdalas grandes, que fecham a passagem do ar. O ronco também pode vir do nariz, da adenoide, do palato ou da língua, e aí a cirurgia das amígdalas sozinha não resolve. As causas e a investigação estão na orientação sobre ronco.

O que acontece se não tirar as amígdalas quando há indicação?

Nas pessoas com amigdalites bacterianas que se repetem muito, os estudos mostraram que manter as amígdalas traz risco de complicações e mais prejuízo à saúde do que a própria cirurgia. Quando a indicação é a obstrução, as amígdalas grandes continuam atrapalhando a respiração e o sono. A decisão de operar ou esperar é tomada na consulta, com o histórico de cada paciente.

Pode tirar as amígdalas depois de adulto?

Pode. Adultos também podem ter indicação, pelos mesmos motivos das crianças: amigdalites bacterianas de repetição, amígdalas grandes que atrapalham a respiração e caseum recorrente. No adulto, o pós-operatório costuma doer mais do que na criança, como explica a página da cirurgia das amígdalas.

Tirar as amígdalas faz mal?

Quando a cirurgia é bem indicada, a retirada não deixa o organismo mais fraco, e na prática os pacientes operados não passam a ter mais infecções por falta das amígdalas. Como toda cirurgia, ela tem riscos, e o principal é o sangramento nos dias de cicatrização. A dor, a alimentação, o repouso e os cuidados com o sangramento estão na página da amigdalectomia.

Referências

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Avaliação das amígdalas e da garganta na OtoCare, em Brasília

Amigdalites que se repetem, amígdalas grandes, caseum que não dá trégua ou dor de garganta que continua mesmo depois da cirurgia pedem uma avaliação com exame da garganta. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a indicação de tirar ou não as amígdalas é discutida com cada paciente, e a cirurgia, quando indicada, é feita pela Dra. Larissa.