Aparelho auditivo: usar o dia todo ou só quando precisa?

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Guardar o aparelho para as horas mais difíceis

Muita gente recebe a indicação de aparelho auditivo e fica em dúvida sobre como usar. Precisa ficar com ele sempre, ou pode guardar e colocar só quando a audição vai ser mais exigida? Uma reunião de trabalho, um restaurante com os amigos, um cinema ou um encontro de família com várias pessoas falando ao mesmo tempo são as situações mais lembradas.

A dúvida é muito comum. O aparelho auditivo deve ser usado o dia inteiro, pelo máximo de horas possível, e não apenas nos momentos difíceis. O motivo está no cérebro, e entender como a audição funciona ajuda a ver por que deixar o aparelho na gaveta não dá certo.

Médica otorrinolaringologista Larissa Vilela colocando um aparelho auditivo retroauricular atrás da orelha de um senhor de cabelos grisalhos

A audição estimula o cérebro

A audição é um dos sentidos e tem um grande efeito estimulante sobre o cérebro. Todos os sons do ambiente e do dia a dia chegam ao ouvido e seguem até a parte cortical do cérebro, em especial uma região chamada córtex auditivo.

No fim das contas, a audição não depende só do ouvido e das estruturas que captam o som. Ela está intimamente ligada ao cérebro. O ouvido percebe o som, e quem entende o que foi ouvido é o cérebro, por meio do córtex auditivo.

Além desse estímulo direto, a audição tem papel importante na cognição e na memória. Cada vez mais, a otorrinolaringologia entende que tratar a perda auditiva faz parte do cuidado com o cérebro, e a relação entre a perda sem tratamento e o risco de demência está na orientação sobre surdez e demência. A audição serve para escutar e também para manter o cérebro ativo, a cognição e a inteligência.

Entre um cérebro que recebe estímulos sonoros de forma constante e adequada e outro que recebe menos estímulos, porque a audição não está boa, a comparação é fácil. O primeiro, com os estímulos auditivos normais e adequados, fica muito mais bem estimulado.

O que o aparelho auditivo faz

Na perda auditiva, os sons chegam ao ouvido com menos intensidade do que numa audição normal, e o cérebro passa a receber menos estímulos. O aparelho auditivo amplifica o som. Ele aumenta a intensidade dos sons que chegam ao ouvido para compensar a perda, e assim a pessoa volta a escutar e os estímulos que chegam ao córtex auditivo ficam o mais próximos possível do normal.

Assim, o aparelho melhora a audição que estava ruim e, com isso, melhora os estímulos que chegam ao cérebro. Os estudos que observam o cérebro de quem passa a usar aparelho mostram essa mudança. Em 28 adultos com perda leve a moderada sem tratamento, a área auditiva do cérebro estava sendo recrutada também em tarefas de visão, como forma de compensar a perda. Depois de seis meses com aparelho nos dois ouvidos, essa reorganização se desfez, ao mesmo tempo em que melhoraram a compreensão da fala no barulho e o desempenho nos testes cognitivos. Em outro estudo, com idosos, a resposta do cérebro ao som começou a mudar em duas semanas de uso, e as mudanças mais complexas apareceram a partir de três meses.

Usar o dia inteiro, do acordar ao dormir

Sabendo disso, o ideal é usar o aparelho auditivo o máximo possível, ao longo do dia inteiro, para que o cérebro receba o máximo de estímulos. A orientação é tirar o aparelho só na hora de dormir e na hora do banho. Assim o cérebro mantém a parte cognitiva e a compreensão dos sons.

Os serviços de audiologia do sistema de saúde britânico orientam do mesmo jeito. Os folhetos entregues aos pacientes dizem que o maior benefício vem de usar o aparelho o dia todo, de manhã até a noite, todos os dias, e que quanto mais o aparelho é usado, mais rápido o cérebro se adapta aos sons e mais natural o som fica.

Por que usar mesmo sem conversa por perto

Mesmo nos momentos em que não há ninguém conversando, o aparelho deve continuar no ouvido. Em casa, com o aparelho no ouvido, os pequenos sons da rotina, como o canto de um passarinho ou um ruído vindo da cozinha, continuam chegando ao cérebro, e cada um deles conta como estímulo.

O uso real dos aparelhos mostra que a maior parte do dia acontece justamente em ambientes calmos. Um levantamento com mais de 8 mil adultos, feito a partir do registro que o próprio aparelho guarda, encontrou uso médio de 8 horas e meia por dia, das quais cerca de 7 horas em ambientes silenciosos e cerca de 1 hora em ambientes barulhentos. Os folhetos britânicos explicam que, quanto mais som o cérebro recebe, melhor ele aprende a separar o que importa do que não importa.

O problema de deixar o aparelho na gaveta

A ideia de deixar o aparelho guardado na gaveta e tirá-lo só quando ele for realmente necessário não é correta. Quem usa o aparelho de vez em quando quase não dá ao cérebro a chance de se acostumar com o som amplificado.

Um folheto de um hospital do sistema de saúde britânico explica por que isso acontece. Quando o aparelho sai da gaveta só para as situações difíceis, o cérebro não tem tempo de se adaptar, e a cada uso é quase como começar do zero. O som parece excessivo, porque o cérebro ainda não aprendeu a filtrar o barulho de fundo, e esse aprendizado só vem com a prática. A pessoa desanima e acaba desistindo do aparelho.

Esse padrão é mais comum do que parece. Em um estudo com usuários na Holanda e na Dinamarca, 43% tinham um padrão de liga e desliga ao longo do dia e, com isso, usavam o aparelho menos horas. Em um hospital inglês, 29% dos usuários ficavam menos de 4 horas por dia com o aparelho, e entre os que tinham começado a usar havia pouco tempo essa proporção chegava a 40%. Numa pesquisa na Austrália, 24% das pessoas que tinham aparelho nunca o usavam.

Aparelho auditivo não é óculos de leitura

Muita gente pensa no aparelho auditivo como os óculos de leitura, que ficam guardados e só vão para o rosto na hora de ler de perto. O aparelho auditivo funciona de outro jeito. Ele não é para ser colocado só na hora em que a pessoa sente necessidade.

A comparação certa é com os óculos de quem precisa deles para enxergar o dia inteiro, que são colocados ao acordar e só saem na hora de dormir. Com o aparelho auditivo é a mesma coisa. O cérebro precisa continuar estimulado, e o aparelho é um grande aliado nisso.

Quantas horas por dia usar o aparelho e quanto se usa de fato

Não existe um número mínimo de horas que sirva para todos. A meta é usar o aparelho em todas as horas acordado, fora do banho. Quem usa de forma regular costuma deixar o aparelho ligado de 12 a 20 horas seguidas, até a hora de desligá-lo para dormir.

A maioria das pessoas acha que usa mais do que de fato usa. Os aparelhos atuais registram as horas em que ficaram ligados, e esse registro pode ser lido na revisão do ajuste. No estudo da Holanda e da Dinamarca, o registro mostrou 10 horas e meia de uso por dia, enquanto os usuários diziam usar quase 12 horas. Em idosos acompanhados por seis meses na Noruega, o registro mostrou pouco mais de 6 horas por dia, e eles relatavam mais de 8 horas.

Ver o número registrado ajuda a perceber se o aparelho está passando tempo demais na gaveta. Quando o uso é baixo porque o aparelho incomoda, apita ou não ajuda, a solução passa pela revisão do ajuste, explicada na orientação sobre como se adaptar ao aparelho auditivo, e não por usar menos.

Quando tirar o aparelho: dormir, banho e natação

O aparelho sai na hora de dormir e na hora do banho. Ele também sai para nadar, quando o modelo não pode molhar. Os folhetos britânicos acrescentam o cabeleireiro, por causa da água e dos produtos de cabelo, e lembram que, em barulho muito intenso, como o de ferramentas elétricas, o certo é usar protetor auditivo, e não o aparelho.

O aparelho é feito para o uso durante o dia. Dormir com ele pode causar desconforto, porque o aparelho faz pressão contra a orelha no travesseiro, e essa pressão pode irritar a pele do canal do ouvido. O suor da noite também acumula umidade, que danifica o aparelho. À noite, o aparelho de pilha é desligado e guardado num recipiente seco, e o recarregável vai para o carregador. Os cuidados com a pele de quem usa aparelho estão na orientação sobre coceira no ouvido com aparelho auditivo.

Nos primeiros dias, dá para ir aos poucos?

A orientação continua sendo usar o aparelho o dia inteiro desde o começo. Alguns serviços de audiologia britânicos sugerem que, se no início o som parecer demais, o tempo de uso pode crescer aos poucos, começando em casa, com sons mais fáceis, como o noticiário da televisão e conversas a dois, e passando depois aos ambientes mais barulhentos. É uma possibilidade que pode ser avaliada caso a caso, sempre com uso todos os dias.

Um desses folhetos fala em cerca de três meses de uso diário para se acostumar com o aparelho.

Dois ouvidos, dois aparelhos

Quem tem perda auditiva nos dois ouvidos e recebeu indicação de dois aparelhos deve usar os dois, o dia inteiro. A diretriz britânica de perda auditiva em adultos recomenda oferecer dois aparelhos quando a perda pode ser tratada nos dois lados, e o instituto de surdez dos Estados Unidos explica que dois aparelhos levam ao cérebro um sinal mais natural.

Mesmo assim, parte dos usuários deixa um dos aparelhos guardado. No hospital inglês citado acima, 16% dos que tinham recebido dois aparelhos usavam só um. O ouvido que fica sem estímulo pode passar a entender pior as palavras. Em um estudo que acompanhou adultos com perda nos dois ouvidos por até 5 anos, a compreensão das palavras piorou no ouvido sem aparelho em 25% dos que usavam aparelho em um ouvido só. Entre os que usavam aparelho nos dois ouvidos, uma piora parecida apareceu em 6%. O que acontece com a audição de quem não trata a perda está na orientação sobre aparelho auditivo.

Crianças com aparelho auditivo

Na criança, o uso o dia inteiro pesa ainda mais, porque ela está na fase de desenvolver a audição e a fala e precisa de todo o estímulo sonoro possível. Num estudo com crianças e adolescentes de 8 a 15 anos com perda auditiva, quanto mais horas de aparelho por dia, mais o funcionamento do cérebro numa tarefa de memória se aproximou do padrão das crianças com audição normal, e os resultados sugerem que isso acontece a partir de cerca de 8 horas e meia de uso por dia.

Na prática, o aparelho é colocado logo ao acordar e acompanha a criança em casa, na escola e nas brincadeiras, com os mesmos cuidados com água e sono dos adultos.

Perda leve também precisa de uso o dia todo?

Sim. Quem tem perda leve com indicação de aparelho segue a mesma regra. No levantamento com mais de 8 mil adultos, as pessoas com perda leve usavam o aparelho tanto quanto as com perda moderada, e a faixa mais comum de uso ficou entre 8 e 12 horas por dia.

O hospital britânico que descreveu o problema da gaveta acrescenta uma ressalva. Quando a perda é muito leve ou atinge uma faixa estreita de frequências, o aparelho pode não ser indicado, e, quando restaurantes e reuniões cheias são a única dificuldade, o aparelho provavelmente não melhora essa situação. A indicação depende do grau e do tipo da perda, explicados na orientação sobre graus de surdez, e é avaliada caso a caso na consulta.

Quando reavaliar a audição e o ouvido

Quando o aparelho é pouco usado, muitas vezes existe um motivo. Som estridente, apito, coceira, dor no canal ou a sensação de que o aparelho não ajuda pedem revisão, e não abandono. Cera acumulada, otite ou uma mudança na própria audição também podem atrapalhar o uso.

Na consulta com otorrino na OtoCare, o ouvido é examinado e a audiometria mostra como está a audição hoje e serve de base para a revisão do ajuste do aparelho.

Vídeo: devo usar o aparelho auditivo sempre?

O vídeo explica como a audição estimula o cérebro, o que o aparelho auditivo faz e por que ele deve ser usado ao longo do dia inteiro, e não só nas situações mais difíceis.

Perguntas frequentes

Posso usar o aparelho auditivo só para ver televisão ou em reuniões?

Não é o ideal. Usado só nessas horas, o aparelho não dá ao cérebro tempo de se acostumar com o som, e cada uso é quase como começar do zero. Usado o dia inteiro, ele deixa o cérebro mais preparado justamente para essas situações.

Usar o aparelho o dia todo deixa o ouvido preguiçoso?

Não. O aparelho não piora a audição. Ao tirá-lo, o som parece mais abafado porque a pessoa se acostumou a ouvir melhor com ele, e não porque o ouvido piorou. O que pode piorar com o tempo é a compreensão das palavras no ouvido que fica sem estímulo.

Precisa tirar o aparelho durante o dia para descansar o ouvido?

Não há necessidade de pausas ao longo do dia. A orientação é usar o aparelho de manhã até a noite. Se o ouvido dói, coça ou fica irritado, o aparelho precisa ser revisto e o ouvido examinado, porque esse incômodo não é o esperado.

Pode cochilar com o aparelho auditivo?

Um cochilo curto em geral não causa problema, de preferência numa posição que não faça pressão sobre a orelha. Sempre que for possível, o melhor é tirar o aparelho também no cochilo, e para a noite de sono ele sempre sai.

Pode tomar banho com o aparelho auditivo?

Não. O aparelho é um equipamento eletrônico sensível à umidade e sai antes do banho, e também da piscina e do mar quando o modelo não pode molhar. Se ele molhar por acidente, a pilha é retirada e o aparelho fica secando num lugar seco até o dia seguinte.

Quanto tempo dura a bateria do aparelho usado o dia todo?

Depende do modelo e do ajuste. Num guia de um hospital britânico, a pilha comum dura de 8 a 14 dias para quem usa o aparelho de 12 a 18 horas por dia e o desliga à noite. O aparelho recarregável é colocado no carregador toda noite. No modelo recarregável descrito em outro desses guias, a carga completa leva cerca de 4 horas.

Dá para saber quantas horas por dia o aparelho foi usado?

Sim. Os aparelhos atuais guardam o registro das horas em que ficaram ligados, e esse número pode ser lido na revisão do ajuste. Ele costuma ser menor do que o usuário imagina.

O som do aparelho está alto demais. Posso usar menos horas?

Usar menos horas não resolve. O aparelho nunca deve deixar os sons desconfortavelmente altos e, quando isso acontece, o ajuste precisa ser revisto. Com o ajuste certo, o uso o dia inteiro volta a ser possível.

Referências

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Avaliação da audição com otorrino em Brasília

Se o aparelho auditivo está passando mais tempo na gaveta do que no ouvido, vale descobrir o motivo. Agende uma consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, para examinar o ouvido, atualizar a audiometria e entender o que está atrapalhando o uso. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.